Christian Sterk em Unsplash

“Ela não aguentou, doía demais. Foi dor o tempo todo”, afirma amiga de jovem que cometeu suicídio

O desespero de perder um afeto pelo suicídio ainda é presente na vida de uma passo-fundense que, há cinco anos, foi impedida de comparecer ao velório e sepultamento de mais uma das vítimas condenadas pelo medo e pela pressão da não aceitação. As duas amigas – que terão as identidades preservadas pela redação – se conheceram em uma das edições da Marcha das Vadias de Passo Fundo. No depoimento, a jovem lésbica, impactou a todos que participavam do evento, com o que os mais próximos identificaram como um “grito de libertação” e de “empoderamento”. Na manifestação, ela falava sobre o sofrimento de pertencer à uma família fervorosamente religiosa, que além de desrespeitar a orientação sexual da garota, também a fazia refém em situações de abuso. Agredida e violentada pelo pai, ela encontrou na namorada o alento que lhe faltava no ambiente familiar. Em 2014, porém, foi encontrada morta.

“Se enforcou. Ela não aguentou, doía demais!”, lamenta a amiga que ainda chora e se emociona muito, toda vez que a lembrança do ocorrido vem à mente. Apesar da recordação indesejável, hoje, a jovem de 29 anos, formada em Direito, diz que essa é uma história que não pode ser esquecida: “Ela era amiga da minha ex-namorada. E o que nós testemunhamos foi dor, o tempo todo. Essa guria foi uma sobrevivente, foi muito forte. Ela é uma marca, não uma exceção. Tem muito isso”.

Os pais e o pastor que acompanhava os atos fúnebres, à época, impediram o acesso da namorada, bem como de amigos gays, lésbicas e demais pessoas ligadas ao grupo LGBTQIA + que foram até o cemitério se despedir da moça. Antes de se suicidar, a jovem de 21 anos, deixou uma carta, em que contava as razões de sua decisão. “As pessoas dizem que suicídio é fraqueza. Mas sempre tem uma história de desespero e dor por trás disso. E ela não teve ajuda, bem pelo contrário”, desabafa a amiga que reconhece a importância de buscar ajuda quando o as condições emocionais são deturpadas pelo preconceito: “Análise salva. A ajuda psicológica é necessária em todos os momentos. Mas esse tipo de situação nos ameaça demais. Precisa mesmo”.

O Centro de Valorização da Vida (CVV) presta atendimento para todo o país por meio do número 188, de forma gratuita e 24h por dia. Ele presta apoio emocional sob total sigilo e também é possível entrar em contato pelo chat: www.cvv.org.br/chat/. Em Passo Fundo, mulheres e a população LGBT+ também podem buscar atendimento psicológico no Centro de Referência da Saúde da Mulher e População LGBT, localizado na Rua Lava Pés.

Brasil

Os jovens LGBT+ têm seis mais vezes chances de cometerem suicídio do que heterossexuais. O risco aumenta para 20% quando eles convivem em situações semelhantes a da vítima relatada na reportagem. Os dados são da revista científica americana Pediatrics, citada pelo relatório “Homofobia Mata – Mortes Violentas De LGBT+ No Brasil de 2018” do Grupo Gay da Bahia. O mesmo relatório destaca que as lésbicas são, relativamente, as maiores vítimas de suicídio. Elas são apenas 14% das vítimas de homicídios e o número aumenta para 31% das vítimas de suicídio.

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Bruna Scheifler e Camila Agostini

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