A luta contra a balança é um dos maiores desafios no dia a dia de milhares de brasileiros. Estar dentro do peso ideal, não somente é importante pela saúde, mas para muitas pessoas é uma questão de estética. Segundo a Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), de 2018,  do Ministério da Saúde, houve um aumento de 67,8% de obesos nos últimos treze anos, saindo de 11,8% em 2006 para 19,8% em 2018. Desse percentual, mais da metade, 55%, tem excesso de peso. A obesidade afeta a qualidade de vida do indivíduo por conta de doenças como hipertensão arterial, diabetes tipo 2, alteração de colesterol e triglicérides, entre outros. Perder peso é a forma mais eficiente de combater essas doenças, as maneiras adotadas para essa prática são diversas, desde dietas variadas até procedimentos cirúrgicos. Um balanço realizado pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e  Metabólica (SBCBM), estima que as cirurgias bariátricas aumentaram em 84,73% no Brasil, em 2011, 34.629 procedimentos foram feitos, já em 2018 esse número chegou a 63.969.

Ricardo Zanin é Cirurgião Geral no HSVP (Foto: Assessoria de Imprensa HSVP)

O Cirurgião Geral do Hospital São Vicente de Paulo, de Passo Fundo, Ricardo Zanin, explica que o “maior benefício da cirurgia bariátrica, além da perda de peso é a remissão das doenças associadas à obesidade, como diabetes e hipertensão, diminuição do risco de mortalidade, aumento da longevidade e melhoria na qualidade de vida”. Para o médico “a indicação da cirurgia bariátrica e metabólica está baseada em quatro critérios: índice de massa corporal; idade; doenças associadas; e  tempo de doença”. 

Quem pode fazer a cirurgia bariátrica?

Pessoas que estão aptas a realizarem o procedimento, “são aquelas cujo Índice de Massa Corporal (IMC) está acima de 40kg/m², independentemente da presença de comorbidades, IMC entre 35 e 40 kg/m² na presença de comorbidades, IMC entre 30 e 35 kg/m² na presença de comorbidades que tenham obrigatoriamente a classificação “grave” por um médico especialista na respectiva área da doença”, explica Zanin. Além disso, a idade também é analisada. “Pacientes entre 18 e 65 anos não têm restrição. Acima de 65 anos, o paciente deverá passar por uma avaliação individual. Em pacientes com menos de 16 anos, o Consenso Bariátrico recomenda que a operação deve ser consentida pela família ou responsável legal e estes devem acompanhar o paciente no período de recuperação”, pontua o profissional.

Tipos de Cirurgia Bariátrica

Bypass Gástrico

Segundo Zanin, o Bypass gástrico é a técnica bariátrica mais praticada no Brasil, correspondendo a 75% das cirurgias realizadas, pois é um procedimento seguro e eficaz. Este tipo e cirurgia leva o paciente a perder de 70 a 80% do excesso de peso inicial. O médico relata que neste procedimento ocorre “o grampeamento de parte do estômago, que reduz o espaço para o alimento, e um desvio do intestino inicial, que promove o aumento de hormônios que dão saciedade e diminuem a fome”. É a soma da menor ingestão de alimentos com o aumento da saciedade que levam ao emagrecimento e, ainda, controla diabetes e outras doenças.

 

 

 

Gastrectomia Vertical

É um procedimento considerado restritivo e metabólico. Zanin explica que nele “o estômago é transformado em um tubo, com capacidade de 80 a 100 mililitros. Essa intervenção também provoca uma boa perda de peso, comparável a do Bypass Gástrico e maior que a proporcionada pela banda gástrica ajustável”. Realizado há mais de 20 anos, o procedimento tem boa eficácia sobre o controle da hipertensão e doenças dos lipídios (colesterol e triglicérides). O médico pontua que é um método que vem crescendo e estima que em pouco tempo será uma das cirurgias mais feitas no Brasil e no mundo.

 

 

Duodenal Switch

Este procedimento é a associação entre gastrectomia vertical e desvio intestinal. Nesse método, é retirado 60% do estômago, “porém a anatomia básica do órgão e sua fisiologia de esvaziamento são mantidas”, esclarece Zanin. Nesse caso, o desvio intestinal reduz a absorção dos nutrientes, o que leva ao emagrecimento. A técnica corresponde a 5% dos procedimentos e leva à perda de 75% a 85% do excesso de peso inicial.

 

 

 

Cuidados pré e pós-operatório

Para o médico, o preparo pré-operatório otimiza a segurança e os resultados da cirurgia. “Solicita-se ao paciente que se esforce para perder um pouco de peso antes da cirurgia, pois alguns quilos a menos podem oferecer melhores condições à anestesia geral e à operação”, ressalta Zanin.

É no pré-operatório que são realizados exames como endoscopia digestiva, ultrassom abdominal e exames laboratoriais, “além de passar em consulta com os profissionais obrigatórios: cirurgião, cardiologista, psiquiatra, psicólogo e nutricionista”, esclarece o profissional.

Segundo o médico, “nessa fase, também é obrigatório o preenchimento do documento Consentimento Informado, no qual o paciente reconhece estar devidamente informado sobre os benefícios e riscos da cirurgia”. 

No pós-operatório, consultas e exames laboratoriais periódicos devem ser realizados, de acordo com o tipo de cirurgia e rotinas estabelecidas pela equipe responsável. “Em caso de comorbidades, elas devem ser acompanhadas por profissionais especialistas nessas doenças”, avalia Zanin. Outras recomendações médicas são atividades físicas e complemento vitamínico e, para as operações abertas, o uso da faixa abdominal.

Zanin explica que  embora seja raro, a cirurgia bariátrica pode gerar complicações, como por exemplo: “infecções, tromboembolismo (entupimento de vasos sanguíneos), deiscências (separações) de suturas, fístulas (desprendimento de grampos), obstrução intestinal, hérnia no local do corte, abscessos (infecções internas) e pneumonia”. E ainda, sintomas gastrointestinais podem aparecer após a refeição. “Os pacientes predispostos a esses efeitos colaterais devem observar certos cuidados, como reduzir o consumo de carboidratos, comer mais vezes ao dia – pequenas quantidades –, e evitar a ingestão de líquidos durante as refeições”, pontua o médico.

Acompanhamento psicológico

É de extrema importância que o paciente faça acompanhamento psicológico. Zanin ressalta que “o  primeiro cuidado é acolher o paciente. Precisamos entender como esse paciente funciona, como estão as condições emocionais para lidar com a cirurgia e principalmente trabalhar para que o paciente assuma a responsabilidade de ser o agente de seu próprio tratamento colaborando para as mudanças de hábitos de vida que serão importantes para o completo sucesso da cirurgia”. 

Outro aspecto importante, conforme o médico, é de que muitos pacientes acreditam que psiquiatra atende “loucos”. “Ainda existe certo constrangimento com relação a isso. O trabalho de saúde mental é para conhecer melhor o paciente. Como médico, o psiquiatra identifica condições que exijam tratamento que podem se complicar ou melhorar após a cirurgia”, avalia.

Opinião de quem fez a bariátrica

A Enfermeira Fabiana Dal Conte, fez a cirurgia há quatro anos, do tipo Bypass Gástrico. Ela revela que sofria com sobrepeso e muitas idas em nutricionistas, uso de medicamentos, dietas erradas “quando enfim, percebi que estava com obesidade, optei pelo procedimento”, relata.

Fabiana acredita que a cirurgia foi a melhor opção para o seu caso (Foto: Scheila Zang)

Para Fabiana o processo de pré e pós-operatório foi tranquilo “era o que eu queria então ficou fácil enfrentar. Claro, temos que lembrar que é um procedimento muito invasivo e que pode dar complicações, sempre segui as orientações médicas e da equipe multiprofissional então não achei difícil”, pontua a enfermeira.

Depois da cirurgia, Fabiana diz que os hábitos mudaram, “sou mais seletiva nas escolhas dos alimentos, principalmente com gorduras e açúcares” e a qualidade de vida melhorou muito “estou muito melhor, agora tenho mais disposição, sou mais feliz, menos ansiosa, tenho certeza que foi a melhor escolha que fiz, obtive resultados melhores do esperado”, ressalta.

Emerson Carniel e Sheila Zang

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