Os cabelos sempre foram sinônimo de beleza, força e vitalidade. Atualmente a situação não é diferente, mas o que se tinha como padrão já não é considerado como tal. Os cabelos longos, por muito tempo tidos como estilo ideal, símbolo de feminilidade e elegância já não é o corte mais escolhido pelas mulheres. Com uma vida agitada e pouco tempo disponível para cuidar das madeixas os cortes mais curtos são uma opção muito adotada.

Aos homens as opções aumentaram muito, a febre das barbearias abriu um leque de possibilidades de cuidados com os cabelos e também a barba. A tinta também entrou para o repertório de possibilidades de mudança do visual masculino, apesar de muitos preferirem se manter no padrão confortável de um corte clássico. 

Os cabelos coloridos tomaram conta das ruas, tanto nas capitais como nas cidades de menor porte, mas os olhares de estranhamento ainda vêm de muitos rostos, jovens e experientes. A tintura para cabelo também é utilizada para disfarçar os insistentes fios brancos que resistem aos produtos químicos e teimam em aparecer na cabeça de quem não os deseja.

Mudar os cabelos com um corte, um novo penteado ou colori-los é o desejo de muitos. Alguns começam aos poucos, pintando só as pontas e com o tempo já estão com a cabeça transformada. Outros decidem se jogar de primeira, mas sabem que o resultado tão sonhado vai custar tempo e dedicação.

O que vale lembrar é que esse tipo de transformação não tem relação apenas com a estética, mas é também uma forma de expressão, tanto da cultura do indivíduo, como também da sua identidade.
Conversamos com quatro jovens que escolheram transformar os cabelos em momentos de mudanças nas suas vidas. Cada um tem suas motivações e inspirações, usam este método para se destacar.  

Rafael Bonatto Buffon, 27 anos, jornalista. Créditos: Luísa Miorando

“Eu queria pintar de azul desde o ensino médio porque eu adorava Cássia Eller e ela tinha um moicano turquesa e cantava umas músicas com temáticas questionadoras sobre pobreza, sociedade do consumo, sexualidade etc… E era meio a minha referência pra irreverência, essa sapatona maravilhosa (risos).

Dez anos depois eu nunca tinha pintado ainda por medo do que iriam pensar, mas como parei de trabalhar com comércio e fui para a minha área, a comunicação, me senti mais seguro. No começo foi esquisito, até para mim, que nunca fiz nem tatuagem de picolé, minha família não gostou muito, mas os meus amigos super apoiaram. No fim, a gente tem que pensar na gente e no que a gente gosta porque senão, quem vai pensar? Cuidar de si mesmo é empoderamento, é saúde. E tem me feito muito bem, obrigado.

É uma liberdade alterar o corpo com o qual a gente nasce, não só as ideias que temos na cabeça, mas o físico, pois o corpo influencia na mente e na forma como nos enxergamos no mundo como agentes e participantes, como nos posicionamos e na mensagem simbólica que passamos. Uma coisa meio tribal essa de pôr piercing, se tatuar, pôr alargador, mas o ser humano é um bicho que existe em comunidade, então faz todo o sentido biológico.

E sim, as pessoas olham e comentam, mas isso sempre foi assim, nada de novo no front. Numa sociedade cada vez mais serializada ser “normal”, padrãozinho, deveria ser entediante, um delírio, e não um lugar para ser ocupado. Agora já não me vejo com cabelo loiro de novo. Só fica a dica: não tentem descolorir a sobrancelha também.”

 “Cuidar de si mesmo é empoderamento, é saúde.”

Victória Buffon Dal Bó, 24 anos, designer. Créditos: Luísa Miorando

Como surgiu a ideia de colorir seu cabelo? E como se deu a escolha da cor?
Meu cabelo foi algo desejado desde criança, sempre admirei pessoas ruivas e sempre tive a vontade de pintar especificamente daquela cor! Pus a ideia em prática quando me mudei de cidade e acreditei que deveria começar como uma nova versão minha, criei coragem e pintei!

Além de algo visual, ligado a estética, você vê essa atitude também como uma forma de expressão de sua identidade?
Acredito que qualquer pessoa que pinte, faz isso pra expressar ou evidenciar algo de si mesma. No meu caso além da parte estética queria que vissem em mim uma mulher forte, criativa e espontânea.

Como você enfrenta as críticas e olhares de julgamento?
Os poucos julgamentos que tive vieram da minha própria família, mas estou tão feliz com minha escolha que não me abalam.

Recebeu apoio diante de sua atitude?
Muito! Quem me conheceu antes de pintar acredita que fiz uma ótima escolha e que combina comigo.

Como essa iniciativa influenciou na sua autoestima?
Não deposito minha auto estima no cabelo pois é muito mais complexo que isto. Mas uma boa parcela melhorou após eu pintar, pois é algo que chama a atenção e me deixa evidente o que ajuda muito na auto estima com toda certeza.

Helen Ramos, 19 anos, estagiária e estudante de letras. Créditos: Beatrys do Carmo 

Como surgiu a ideia de colorir seu cabelo? E como se deu a escolha da cor?
Eu queria colorir meus cabelos de azul desde os doze anos. Sempre acreditei que o azul tem relação com a liberdade e ser livre é algo que me encanta. 

Além de algo visual, ligado a estética, você vê essa atitude também como uma forma de expressão de sua identidade?
Com certeza. Acredito que estamos sempre descobrindo áreas novas de nós mesmos e ter colorido os cabelos é, sem dúvida, uma das partes da minha identidade. 

Como você enfrenta as críticas e olhares de julgamento?
Eu procuro filtrar os comentários e olhares que recebo, ficando apenas com os positivos. Era algo que eu queria há muito tempo e estou feliz com o resultado, então, por que me preocuparia com atitudes negativas de outras pessoas? 

Recebeu apoio diante de sua atitude?
Sim, da minha mãe principalmente. Tem muita gente que quer colorir os cabelos também, mas não o faz por “N” razões, então, de certa forma, acho que estou incentivando elas a fazerem o que querem e muitas pessoas me “elogiam” por isso. 

Como essa iniciativa influenciou na sua autoestima?
Atualmente, eu me sinto muito bem comigo mesma. Muito mais feliz, bonita e colorida. Muito mais livre. Eu sempre tentei fugir das amarras que tentam nos impor de uma forma ou de outra, então, talvez as pessoas que falam que fiz por rebeldia não estejam tão erradas. Acredito que devemos sempre ser nós mesmos, buscando a felicidade e a tranquilidade para nossas vidas. 

“Sempre acreditei que o azul tem relação com a liberdade e ser livre é algo que me encanta.” 

 

Luíza Meneghini Peruzzo, 25 anos, designer.

Como surgiu a ideia de colorir seu cabelo? E como se deu a escolha da cor? Quando eu era pequena minha mãe tinha o cabelo vermelho (bem mais discreto) e eu sempre admirei e falei que queria também. Além dela vários personagens de desenhos e séries que tinham o cabelo vermelho foram influências para esse desejo

Além de algo visual, ligado a estética, você vê essa atitude também como uma forma de expressão de sua identidade? Sim, com toda certeza é uma forma de me expressar, de me diferenciar e de reforçar minha identidade.

Como você enfrenta as críticas e olhares de julgamento? Estou há 8 anos já com diferentes tons de vermelho então são comuns frases como “Você não vai trocar de cor?” “Sempre essa?”. No geral não ligo muito pra isso e escuto mais elogios do que críticas sobre meu cabelo.

Recebeu apoio diante de sua atitude? Recebi bastante apoio de todos acho que pelo vermelho ser uma cor mais aceita também.

Como essa iniciativa influenciou na sua autoestima? O cabelo influenciou na minha autoestima de forma muito positiva, por ter sido uma forma de me reafirmar e mostrar mais minha personalidade.

 

“É uma forma de me expressar, de me diferenciar e de reforçar minha identidade.”

Beatrys do Carmo e Luisa Miorando 

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