Como de costume em todas as horas de refeição, a cozinha estava vazia naquela noite de quarta-feira. Em pé, escorada em um dos balcões verdes do cômodo socado no fundo da casa igualmente pequena, a jovem Melissa* segurava um prato de comida enquanto as lágrimas molhavam o mesmo alimento que era levado à boca e cuspido quase que ao mesmo tempo na lixeira em frente.

 Essa é uma das lembranças “mais duras”, como contou ela acomodando-se na cama grande do quarto. A blusa larga e escura, não permitia que as curvas do corpo estivessem marcadas, mas nem a base do rosto conseguiu amenizar as entradas profundas nas bochechas da adolescente. Aos 16 anos, ela não se junta à família de pai, mãe e quatro irmãos para comer desde que decidiu perder peso, no ano passado, quando o menino com quem estava saindo à época disse que ela “ficaria mais bonita se não tivesse isso aqui” [disse, apertando a própria barriga, na tentativa de imitar o gesto que a colocou na porta dos distúrbios alimentares]. 

Os cabelos escuros, já finos pela falta de nutrientes, e o olhar negro brilhante, como surge ao lado de uma amiga na foto que mostra na tela do celular durante um dos intervalos escolares na Escola Estadual de Educação Básica Nicolau de Araújo Vergueiro (EENAV), se quer levantam suspeitas dos pais, trabalhadores industriais. “Meu pai já me pediu e até disse que eu estava com anorexia. Quando acontece isso, eu vou com eles na mesa, sirvo o meu prato e fico enrolando até todos saírem”, conta. “Quando eles me obrigam a comer, eu vou no banheiro depois porque sinto vontade de vomitar”, prossegue.

A restrição alimentar auto imposta, porém, não é cotidiano apenas de Melissa. Segundo a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), a preocupação com a forma e o peso do corpo e com o peso levam 5% das mulheres brasileiras a ficarem, pelo menos, 8h em jejum ou a induzir o vômito depois de comer. O tratamento, como afirma a psicóloga Eliete Elisabete Lottermann, nem sempre é uma alternativa buscada porque meninas, como a estudante, não se reconhecem como tal e demoram a admitir que sofrem por algum transtorno. “Precisamos buscar estratégias para que os pacientes consigam se ver de forma diferente ou ver a dimensão do estado em que está”, explica. 

 

Lauriane Agnolin

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