Deixar de lado o amor pelo seu time de infância para exercer a profissão da maneira mais
ética possível. Este talvez seja o grande desafio dos apaixonados por futebol que trocam as
arquibancadas por uma sala de aula de jornalismo. Buscando entender um pouco mais
sobre os prós e os contras de assumir um time, a reportagem da ComArte ouviu estudantes
e jornalistas de Passo Fundo e região.

Kleiton Vasconcellos – Repórter Esportivo do Diário da Manhã
Assumidamente Colorado, Kleiton Vasconcellos não vê o lado torcedor como um problema.
Pelo contrário, vislumbra até benefícios. “É uma maneira de você ser até mais sincero com
a sua audiência. Eu acho que vale a pena. Você ganha até pontos por isso”, explica. No
entanto, faz questão de deixar uma coisa bem clara: sempre sendo profissional e não
deixando o lado torcedor falar mais alto que o lado do jornalista.
Um fato que comprova a tese de Kleiton é um evento com Paulo Odone, realizado há
alguns anos em Passo Fundo. Mesmo sendo Colorado assumido, a torcida Gremista de
Passo Fundo entrou em contato com o jornalista para fazer a divulgação e cobertura. De
certa forma, um reconhecimento pelo profissionalismo.
Quando questionado se manteria público o seu lado Colorado se trabalhasse em Porto
Alegre, Kleiton manteve sua opinião. Dessa vez, com uma condição: precisaria de um
pouco de cancha, consolidar o seu nome, para depois poder assumir o time.
Pedro Borghetti – Estudante e dono do portal Invadindo a Área
Já na reta final da sua gradação, Pedro Borghetti passou por uma transformação durante a
faculdade. Em 2016, ano que começou o curso, mesmo de maneira tímida, ainda assumia a
sua paixão por um time. Com o decorrer dos meses e das experiências profissionais,
resolveu deixar a camisa de lado e incorporar de vez o espírito de jornalista. Até mesmo
uma página sobre o time, com mais de 100 mil curtidas no Facebook, foi colocada para
escanteio para evitar maiores complicações no futuro.
“Eu acho que assumir o time do coração é ruim para o jornalista esportivo. O torcedor
coloca o seu time na frente de tudo e a opinião do jornalista sempre será levada com
desconfiança pelo torcedor do time rival. Hoje são poucos os jornalistas esportivos que
assumiram o time e tem a opinião respeitada pelos torcedores rivais. Os jornalistas e
principalmente, comentaristas, com mais credibilidade na televisão e rádio são aqueles que
mantém o seu time em segredo, mostrando que assumir o time afeta o trabalho do
profissional”, conta Pedro, agora quatro anos mais velho.

Como é dono do portal ‘Invadindo a Área’ e produz conteúdos sobre vários clubes, o fato de
ter deixado o lado torcedor tem sido positivo para o estudante. Pedro já fez coberturas no
CT de Grêmio e Inter sem ter nenhum tipo de complicação. Como hobby, já frequentou a
Arena Grêmio e o Beira-Rio.

Tobias Betin – Estudante e dono do canal BetinGamer
Quem vive uma situação uma situação diferente é Tobias Betin. Ao encontrar seu espaço
na internet e ser dono do seu próprio negócio, o fato de ser um Colorado assumido não é
um problema. Pelo contrário, a cada derrota do Internacional, o dono do canal BetinGamer
recebe diversos tipos de provocações e brincadeiras. De certa forma, o que para outros é
um problema, neste caso se tornou uma maneira de se tornar mais próximo do público.
Mesmo assim, Tobias tem em mente que se tivesse seguido um caminho distinto,
trabalhando em um veículo tradicional de imprensa, seria necessário guardar a camisa no
armário. “Acho que teria que mudar um pouco. Talvez, lá no fundo, o pessoal soubesse que
eu sou Colorado, mas teria que deixar isso de lado por conta de uma escolha profissional”,
relata.

Rafael Passos – Repórter da Rádio Galera
Atualmente trabalhando em Porto Alegre, Rafael Passos prefere não dar margem sobre seu
time. Na sua visão, “o torcedor não está preparado para saber o time do jornalista. Assumir
só pode trazer prejuízos”. Sem vestir nenhuma camisa, o repórter da Rádio Galera nunca
teve nenhum tipo de problema profissional.

Lucas Scherer – Jornalista em Santa Catarina
Longe de Passo Fundo, Lucas Scherer não esconde suas camisas do Gaúcho. Hoje,
trabalha fora da área esportiva e não vê o lado torcedor como um problema profissional.
Quando questionado se poderia manter essa paixão trabalhando com esporte em Passo
Fundo, a resposta foi sim.
“Sempre que fui ao Vermelhão da Serra, fui bem tratado. Inclusive, fui elogiado pelo
presidente quando lancei um dos meus livros: Almanaque Tricolor, contando a história dos
30 anos do Passo Fundo. Também sou amigo de integrantes da torcida organizada do
Passo Fundo. A grande questão é ter respeito”, pontua Lucas.

 

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