Lauriane Agnolin

O ruído ouvido ao fundo durante a chamada telefônica, na manhã de terça-feira (19),
denunciava que a redação do Diário Clarín havia voltado ao trabalho depois de celebrar
o Dia da Soberania Nacional com um “dia não laboral”, conforme os argentinos gostam
de chamar os feriados lá nas terras de San Martín e aproveitado na data anterior ao
contato com o jornalista esportivo Nahuel Lanzillotta.
O sotaque portenho, com as consoantes j e l arrastadas na fala, tenta se fazer
compreensível em uma conversa de quase 40 minutos sobre esporte, futebol, jornalismo
e o espaços mais fechados que a zaga da Alemanha no fatídico dia para os brasileiros
que a imprensa esportiva se depara nas idas aos centros de treinamento. Aos 38 anos, o
argentino de traços físicos europeus e olhos azuis está acostumado à equipe do técnico
rosarino Sebastián Beccacece há nove anos, quando iniciou às idas aos gramados do
Club Atlético Independiente (CAI) para cobrir as movimentações de treino e jogos
oficiais do time da cidade de Avellaneda. “Alguns veículos deveriam entender que o
jornalismo não é feito apenas através de uma tela de celular. O jornalismo é feito no
lugar onde acontecem as coisas”, escreveu ele um mês antes em uma conta na rede
social Twitter. Na outra ponta das relações entre jornalista e fonte, Lanzillotta mantém
os olhos também no Club Atlético San Lorenzo e, nas horas vagas, como brincou, em
Lionel Scaloni e na camisa celeste da Seleção Argentina. “O contato com os jogadores é
muito via telefone. O problema maior, sem dúvida, são os atletas de alto nível da
Seleção porque eles estão em muitos países. Falar com o Messi, por exemplo, é quase
impossível”, contou aos risos.
Mas, nem tudo na rotina de um jornalista esportivo é colocar a credencial para grandes
eventos no pescoço ou ouvir a voz do melhor jogador mundo no outro lado da linha.

“Na prévia do Mundial da Rússia [em 2018], os jogadores ficaram bravos com a gente
porque disseram que criticávamos muito eles”, contou. Uma matéria pontual de um
colega do Diário Olé dizendo que o rendimento de um determinado jogador havia caído
porque ele, supostamente, estava usando maconha, foi o que motivou os comandados de
Scaloni a não falarem mais com a imprensa argentina. “Eles ficaram um ano sem dar
entrevistas pra gente”, lembrou Nahuel. As informações eram extraídas de fontes
extraoficiais ou de porta-vozes dos homens das quatro linhas.

O jornalista compartilha a rotina de setorista esportivo nas redes sociais.
Crédito: reprodução/Twitter

Embora não haja casos recorrentes de censura de atletas às falas com os profissionais da
imprensa, pelos corredores do vestiário a abordagem, segundo ele, sobe o tom. “Quando
estamos escrevendo notas sobre a situação econômica dos times, mesmo os que já
temos certa relação de confiança, os dirigentes não querem que os números sejam
revelados”, aponta ele. “Eles ocultam as informações da imprensa”, prosseguiu o
jornalista. A dificuldade no acesso às informações tem motivação política. Mauricio
Macri, como recordou, começou a carreira na presidência do Boca Juniors antes de
acenar da varanda da Casa Rosada aos eleitores que o aguardavam na Plaza de Mayo.
“Os clubes não mostram os números porque, por exemplo, eles compram um jogador
por 20 milhões de dólares, mas na verdade foi por 15 porque os outros 5 são de taxas.
Esse é um grande problema do futebol argentino. Não nos é concedido os números
reais”, analisou. “Uma publicação também do Olé que não caiu bem à diretoria do
Independiente foi o bastante para eles retirarem a credencial do meu colega. Podia ir aos
jogos, mas sem entrevista oficial. Foi atípico, mas bastante drástico”, contou ele.
O próprio clube de Avellaneda, acompanhado de perto por Lanzillotta, atravessa uma
das maiores crises políticas da história recente do blanco y rojo. A Justiça argentina
investiga uma suspeita de facilitação da venda de ingressos aos barrabravas –
integrantes mais radicais das torcidas dos clubes de futebol – pelos dirigentes do
Independiente para que os torcedores consigam vender mais barato. “Fica atento no que
escreve e no que vai publicar”, disse Nahuel sobre as mensagens que os setoristas.

“Quando temos que escrever sobre temas mais políticos ou econômicos, até os que envolvem os torcedores, costumamos não assinar as matérias. É uma forma de se proteger da falta de proteção”.

Nahuel Lanzillotta

Jornalista esportivo do Diário Clarín

recebem dessa parcela dos apoiadores da equipe de Beccacece. “Isso não é uma ameaça
ao nosso trabalho?”, questionou. “Os jornalistas acabam não abordando determinados
temas para não se meter em problemas”, completou.
Nas mídias impressas, lugar onde atua há sete anos na editoria de Esportes do principal
jornal argentino, os profissionais conseguem se blindar mais às intenções de censura
velada imposta pelos cartolas e pelos barras. “Quando temos que escrever sobre temas
mais políticos ou econômicos, até os que envolvem os torcedores, costumamos não
assinar as matérias. É uma forma de se proteger da falta de proteção”, revela.

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*
*