Entre um corte e outro, muitas pesquisas brasileiras foram prejudicadas em 2019

Isadora Dezorzi Gerevini e Thaís Cornelli Moreira

O ano de 2019 foi turbulento, pelo menos, na área da ciência. Desde o começo do ano, o Brasil tem passado por uma situação econômica desfavorável. Como forma de tentar equilibrar as contas públicas, o presidente Jair Bolsonaro ordenou profundos cortes nas áreas da ciência e educação. 

Em março, Bolsonaro decretou bloqueio de R$ 2,158 bilhões do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), equivalentes a 42% do orçamento para este ano.  Desde 2016 o Brasil sofre reduções drásticas de recursos no setor, composto por duas grandes agências de fomento à pesquisa e ciência. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Ministério da Educação e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), criado em 1951 para incentivar o progresso na área. A primeira, é focada no apoio às pós-graduações das Instituições de Ensino Superior. Já o CNPq, atua prioritariamente no apoio aos pesquisadores em todos os níveis, incluindo estudantes de ensino médio e de graduação. Ambos oferecem bolsas para o trabalho exclusivo de pesquisa, dessa forma, o detentor não pode manter outro vínculo empregatício. As bolsas são concedidas por mérito e com base na avaliação do currículo e do projeto, e o  valor varia de R$ 400 para graduação a R$ 2.200 para doutorado. Para o doutor em Educação, Altair Favero, esse apoio aos pesquisadores é bastante importante, pois a pesquisa exige muito esforço e dedicação para gerar novos conhecimentos que sejam relevantes para a sociedade. Por isso, os investimentos são necessários para a formação desse pesquisador. “É necessário que haja recursos financeiros para fazer com que os que vão se formar pesquisadores consigam ter as condições básicas para fazer o processo de formação”, afirma.

Entretanto, a situação tornou-se complicada, quando, no mês de maio, bolsas foram canceladas pela Capes, paralisando pesquisas científicas parcialmente ou por completo. A falta de pagamento das bolsas CNPq também foi um golpe duro para a produção de pesquisa e ciência. 

No mês de setembro, a situação ganhou dimensões ainda maiores quando a Capes anunciou o corte de 5.200 bolsas, que deixariam de ser renovadas para conseguir manter as que estavam ativas. No total, foram 11.800 cortes neste ano. Já o CNPq afirmou que não teria como garantir o pagamento de seus 84.000 bolsistas por falta de verbas. Segundo o presidente da Sociedade Brasileira para o progresso da ciência (SBPC), Ildeu de Castro Moreira, o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, possui aproximadamente um terço para investimentos quando comparado a alguns anos atrás. Em 2010, possuía recursos de 10 bilhões de reais, passando este ano para aproximadamente três bilhões de reais. 

Em meio ao cenário caótico, em novembro foi inaugurada a primeira etapa da maior estrutura científica do país, o Sirius, um acelerador de partículas, principal projeto de pesquisa científica do governo federal. Porém o atraso no orçamento, impede a conclusão das 13 linhas de pesquisa previstas para o ano que vem. Mesmo com recursos reduzidos, pesquisadores concluíram com sucesso a 1ª volta de elétrons no terceiro e principal acelerador, demonstrando a funcionalidade do equipamento

 Diante de tanta instabilidade na ciência e dos constantes cortes, insegurança e medo tornaram-se rotina para quem se dedica a produção de pesquisas. Como no caso da mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia de Alimentos da UPF, Jaqueline da Silva Rumão, de 26 anos, bolsista da Capes I, que sentiu seus estudos ameaçados e passou a não considerar a sequência das atividades acadêmicas devido ao cenário que se instaurou. Para ela, a simples ameaça de perder a bolsa já fez com que a dedicação exclusiva às atividades em laboratórios se tornasse um desafio, “nem precisa o corte, mas só uma ameaça é suficiente para criar um clima de insegurança”, pontua. Como mestranda, Jaqueline conta que a pesquisa sempre foi uma paixão, tanto que decidiu deixar o estado natal, no nordeste do país, o Maranhão, e mudar-se para Passo Fundo, no norte do Rio Grande do Sul. Mesmo tendo priorizado o estudo em sua vida, ela afirma que viver em um país com um modelo de governo que não reconhece a atividade acadêmica como um investimento, mas sim como um gasto, é um perigo, e que deveria ser tratado como prioridade em um país que deseja evoluir. “Basta olharmos para os exemplos da Europa Ocidental, Israel e os países da Ásia para entendermos como os investimentos de longo prazo em pesquisa ajudam a tornar uma nação mais competitiva”, afirma. 

Jaqueline também faz parte de um percentual da Ciência no Brasil, onde as mulheres representam a maioria na concessão de bolsas para Iniciação Científica (55%), no mestrado (52%), no doutorado (50%) e no pós-doutorado (53%), segundo dados do CNPq, Inep e Parent in Science. A mestranda em Ciência e Tecnologia de Alimentos, Thanise Antunes Dias, de 28 anos compartilha a mesma situação. Assim como Jaqueline, também teve de enfrentar a insegurança frente às ameaças de cortes mais intensos nas bolsas, “tínhamos a bolsa da Capes mas nunca sabíamos até quando, era impossível se sentir tranquila quanto ao dia seguinte”, relembra. Como a mestranda estuda em uma instituição privada, continuar seus estudos, caso os cortes a atingissem, era algo inviável. Thanise vê a pesquisa como a possibilidade de avanços na área da saúde, e que possibilita mudanças socioeconômicas. 

Para a doutoranda de Bioexperimentação, Lára Franco dos Santos, de 28 anos, os cortes em pesquisa afetam o desenvolvimento econômico e social do país, pois os pesquisadores dependem das agências de fomento para poder desenvolver seus estudos. Estudos esses, que são essenciais para o desenvolvimento de vacinas e novos medicamentos, por exemplo. Lára têm sua pesquisa de doutorado voltada para o desenvolvimento de embalagens biodegradáveis com capacidade de liberação de compostos bioativos. As embalagens serão desenvolvidas com amido de pinhão e o composto bioativo será óleo essencial de plantas nativas, como jabuticaba, araçá, guabiroba. Mais um exemplo de como a pesquisa pode ser a solução para os problemas enfrentados pela sociedade.

A doutoranda atua na área da pesquisa voltada ao desenvolvimento de embalagens biodegradáveis.

Apesar dos poucos recursos, muitos pesquisadores superaram as barreiras e desenvolveram projetos científicos de extrema importância em determinadas áreas, desde a saúde a astronomia. Confira na timeline alguns marcos para a ciência brasileira no ano de 2019:

 

http://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2019-11/capes-vai-liberar-r-13-milhao-para-pesquisas-sobre-manchas-de-oleo

http://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2019-09/capes-anuncia-corte-de-5613-bolsas-de-pos-graduacao-para-este-ano

https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2019/07/90-dos-brasileiros-querem-mais-investimentos-em-ciencia-e-tecnologia.html

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*
*