Fernanda Carvalho, Glória Maria, Josué Gomes, Luciana Barreto, Maju Coutinho, Maycom Motta e Valéria Almeida. / Imagens retiradas do Instagram dos profissionais e dos veículos em que trabalham

Por Camila Pellin e Lavínia Fritzen

O jornalismo é uma amostra da sociedade, em que os negros ocupam poucos espaços de destaque. Seja nas redações ou mesmo no reflexo do material produzido para a população. No entanto, os negros são mais da metade da população brasileira, 56,10%, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Portanto, ao considerar essa soma de autodeclarados pretos e pardos na sociedade, nota-se um desequilíbrio na representação no campo do jornalismo.

Somente 23% dos jornalistas são negros, como mostra um estudo feito pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) em parceria com o Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). 

A jornalista e repórter da Rede Globo, Valéria Almeida, afirma que a falta da presença dos negros nas redações é comum. “Eu trabalho desde os 15 anos, eu tenho 36 anos e sempre fui a exceção. Então não é de uma empresa, não é de uma redação. Em nenhum lugar por onde eu passei tinha uma diversidade”, revela. A jornalista acredita que esta é apenas uma representação de um corpo social.

“Muitas vezes a gente olha para a comunicação, para jornalismo e para televisão, e observa a ausência do negro, e aí parece que é um problema da televisão,  dos meios de comunicação e eu acho que isso é só um reflexo de toda a sociedade. A diferença é que na televisão a gente para e vê televisão, então conseguimos observar a ausência do negro”, declara Valéria Almeida.

Para o acadêmico de jornalismo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Josué Gomes, essa falta do negro no jornalismo, principalmente nas televisões, vem de um estereótipo e branqueamento da TV, circunstância a ser questionada. “As pessoas falam muito ‘fulano tem perfil de apresentador’, mas o que é esse perfil? A gente tem que problematizar isso, principalmente dentro dos currículos de jornalismo pra gente criar novos profissionais e que a gente consiga fazer movimentos gerenciais dentro das empresas, cobrando a desconstrução desses estereótipos”, propõe.

Por outro lado, para a jornalista e repórter da RBS TV, Fernanda Carvalho, os negros já têm conseguido mais visibilidade nos telejornais. Entretanto, ainda falta completar outros espaços no jornalismo, como nos bastidores. “Eu acho necessária a inserção porque existe uma questão que é a diferença entre visibilidade e representatividade. Visibilidade a gente já está tendo uma abertura maior, que é termos jornalistas negros aparecendo na tela. Então essa questão acho que a gente está caminhando alguns passos à frente da representatividade, que seria ter pessoas negras pensando também o jornalismo”, afirmou.

De acordo com Josué Gomes, a falta de negros nas redações origina-se da dificuldade de permanência dos negros nas universidades

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou em novembro de 2019, na pesquisa Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil, que pela primeira vez, os alunos negros são maioria na universidade pública. Na terminologia oficial do instituto, eles são a soma dos estudantes pretos e pardos e representam 50,3% do total. No entanto, nas universidade particulares, eles ainda são minoria. 

Josué destaca que apesar disso, a permanência universitária ainda precisa ser trabalhada pelas políticas públicas. “Depois que essa pessoa entra no jornalismo ela vai ter ainda a dificuldade de permanecer dentro da universidade, pois muitas das pessoas que acabam sendo desligadas da universidade pública de maneira geral, por faltas ou por não rendimento, são as pessoas negras, devido a precisarem trabalhar”, pontua. 

Nesse sentido, para Valéria, poder estudar sem trabalhar é um privilégio de poucos. “O ideal é que a gente consiga ter esse mesmo privilégio, porque é um privilégio poder só estudar e não precisar escolher se vai comer ou pagar uma mensalidade ou transporte. Isso é um privilégio e o ideal é que todos nós tivéssemos ele. Esse é o grande ato racista de uma sociedade inteira”, afirma. 

As matérias jornalísticas contemplam a negritude?

A falta de negros nas universidades e consequentemente nas redações, faz com que os temas tratados nas reportagens, muitas vezes não representem essa parcela da população. “A gente precisa que o jornalismo tenha múltiplas vozes e a melhor maneira, na minha opinião, é que essas vozes estejam dentro das redações e dentro dos lugares de poder e de decisão também”, explica Josué. Ele defende que as pautas bem feitas sobre pessoas negras têm muito mais chance de serem trazidas por pessoas negras, pois é necessário excluir a ideia de que o jornalista consegue falar sobre tudo e dar conta de todos os assuntos, porque os olhares são localizados. 

Por outro lado, para Fernanda Carvalho, “a gente não pode esperar o dia em que vá ter 50% da redação negra pra que a gente consiga ter nossa voz ecoada no jornalismo brasileiro. Eu acho que a gente precisa que o branco também faça sua parte nessa mudança”. 

Nesse sentido, apesar de ser necessária a equidade dentro das redações, os profissionais brancos também precisam estar preparados para tratar sobre a negritude. “É buscar fontes sobre assuntos gerais não só ligados à negritude e que sejam negras. Médicos, engenheiros, cientistas negros. Existem iniciativas, por exemplo, de uma planilha nacional de fontes negras em diversas áreas, isso tem que ser preocupação, na hora de pegar uma sonora ou umas aspas”, destaca Josué. Fernanda explica que na empresa que atua hoje, essa é uma providência que já foi tomada na redação. “A gente pensou em uma agenda de profissionais negros para que a gente chame eles pra falar sobre qualquer coisa, por exemplo, uma nutricionista negra pra falar sobre obesidade infantil e não pessoas negras falando somente sobre negritude”, esclarece. Para ela, além disso, é preciso sensibilidade de pessoas brancas para que isso aconteça, e na maioria das vezes os brancos não tem essa sensibilidade por uma questão cultural, de ensinamento, por nunca ter entrado em contato com esse assunto. 

Para Josué, apesar da rotina das redações “podarem” essas preocupações, elas devem ser postas de importância tamanha quanto à apuração, pois a pluralidade deve ser um princípio jornalístico que não se transgride.

Isso tudo está ligado à questão do enquadramento, uma teoria do jornalismo. Ou seja, de que forma são mostrados determinados temas e pessoas, de uma forma que dê representação a elas. “O jornalismo precisa mostrar pessoas negras para além da editoria de polícia, crimes, drogas, das editorias que cuidam da pobreza. O racismo acaba fazendo com que as redações do jornalismo não enxerguem o que as pessoas negras produzem de bom pra esse país. O quanto que a cultura negra é rica e múltipla, o quanto as pessoas negras geram renda”, finaliza Josué. 

Inspirações

Ainda que hoje a representatividade dos negros no jornalismo seja pequena, o Brasil conta com excelentes profissionais nesta categoria. Estes servem como inspiração para muitos outros, demonstrando que, mesmo em um percentual baixo, está havendo uma maior inserção. Além disso, eles apresentam um importante papel de representatividade na sociedade. Entre os mais influentes citados pelos entrevistados estão Glória Maria, Maria Júlia Coutinho, Luciana Barreto e Aline Aguiar.

Como primeira repórter negra da TV brasileira, Glória é uma das apresentadoras mais conhecidas do Brasil. Seguindo este pioneirismo, Maria Júlia é a primeira jornalista negra a sentar na bancada do Jornal Nacional, o jornal de maior audiência do país. Atualmente, Maju apresenta o Jornal Hoje, também da Rede Globo. Já Luciana Barreto, é âncora da CNN Brasil, emissora presente em canal por assinaturas. Aline Aguiar é apresentadora do Bom dia Brasil de Minas Gerais. Além disso, comanda o MG1 e é plantonista do Jornal Nacional.

“A Glória Maria sempre foi uma grande referência pra mim, uma referência profissional. Mas hoje, é muito marcante e importante pra mim a Maria Júlia Coutinho, a Maju, que é uma grande profissional e amiga. Por ser minha amiga eu consigo observar os seus atos constantemente, então ela me inspira pela dedicação, porque ela é uma pessoa que passa o tempo inteiro estudando, levando muito a sério o que está fazendo e todas as suas conquistas acabam refletindo, sendo uma consequência dessas ações. Ela não é pessoa que recebeu a oportunidade, não. Ela fez muito pra chegar nesse espaço e continua fazendo pra poder melhorar e avançar”, diz Valéria.

Igualmente, para Fernanda, Glória também é uma grande inspiração profissional. “Vou ter que cair no clichê da Glória Maria, que eu já assistia quando era criança. Sempre admirei a Glória porque eu sempre quis mostrar que eu era uma jornalista acima de tudo, não apenas uma jornalista negra. Ou seja, que eu podia falar sobre qualquer assunto. Eu queria ocupar um espaço que pudesse ser ocupado por qualquer jornalista. A Glória Maria sempre fez isso. Ela é maravilhosa, super profissional e competente”, destacou.

Josué confessa que sua lista de jornalistas negros que prestigia é extensa. “Há vários que me inspiram. Mas principalmente a Maju, Luciana Barreto e Aline Aguiar por serem mulheres negras pioneiras na frente de telejornais nacionais e que levam sua cor, corpo e militância antirracista para as pautas e comentários durante a a apresentação”, completou.

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