Conheça seis casos de mulheres que passaram por processos de transição capilar e aceitação do cabelo natural

Por Franciele Moraes e Rebeca Finkler

Alterar a estrutura dos cabelos está presente na sociedade, desde o início do século 20. Na época, era usada uma espécie de chapinha, que era qualificada em brasa ou no fogão, e após nos cabelos. No decorrer das décadas, surgiram novos produtos e procedimentos em prol do alisamento. Entre eles, o famoso formulário, agente químico usado nos processos cosméticos que ganhou força no Brasil no início dos anos 2000. 

Mas esta prática pode ser nociva à saúde. Inclusive, por contato com a pele, pode causar irritação, queimadura, descamação e até queda de cabelo, entre outros danos. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), estabeleceu um limite máximo de 0,2% da substância na composição de cosméticos, inclusive alisantes. O problema é que cerca de 61,6% dos fiscais suspeitos de que os produtos utilizados para alisar os fios contenham um teor de formulário superior ao permitido, de acordo com um levantamento realizado pela Anvisa em 2018.

Além de trazer riscos à saúde, alisar os cabelos pode estar relacionado a processos de opressão. Pois os padrões sociais também estão relacionados à aceitação do cabelo natural. O longo caminho da aceitação do cabelo, como ele realmente é, tem base nos pilares da luta contra o preconceito racial. Por isso, assumir o que é natural é algo empoderador.

A escritora americana, Bell Hooks, comentou em seu livro “Alisando o Nosso Cabelo”, que durante os anos 60 “os negros que trabalham ativamente para criticar, desafiar e alterar o racismo branco, sinalizavam uma obsessão dos negros com o cabelo liso como um reflexo da mentalidade colonizada ”. Foi nesse momento em que os penteados afro, principalmente o black, entraram na moda como um símbolo de resistência cultural à opressão racista e fora considerado uma celebração da condição de negro(a). Os penteados naturais também eram associados à militância. “Muitos(as) jovens negros(as), quando pararam de alisar o cabelo, perceberam o valor político atribuído ao cabelo alisado como sinal de reverência e conformidade frente às expectativas da sociedade”, escreve Hooks.

Transição é amor próprio 

Quem já passou por uma transição capilar foi a atendente de farmácia Elisangela Costa, ela conta que usava produtos a base de formol e outros tipos de procedimentos para alisar seus cabelos. Atualmente, Elisangela está usando tranças, representando para ela: “algo que parece me identificar muito com nossas raízes e é uma arte em nossas cabeças”. A atendente acredita que a transição capilar é uma forma de amor próprio. “Acho lindo ver as mulheres se amando, mas do jeito que são e mostrando que não existe um padrão de beleza e, sim, pessoas felizes por não precisarem agradar aos outros, mas a si mesmas”, afirma.

“O cabelo natural transparece minha beleza, como realmente sou, me sinto bem. Eu aprendi a me amar como sou”, comenta a atendente de caixa, Gessi Matos. Além de ser uma forma de empoderamento para Gessi, o cabelo natural estimula o aumento da autoestima, pois, antes de optar por essa mudança, ela acreditava que quando deixava o seu cabelo liso, as pessoas a achavam mais bonita. “E vale ressaltar que as blogueiras e Youtubers ajudam muito a me encorajar novamente, elas são maravilhosas, e o apoio do meu marido é incrível”, completa Gessi.

Beleza não tem padrão

Por mais de oito anos, o alisamento fez parte da vida da professora dos anos iniciais, Débora Almeida, e ela conta que estava cansada de tentar aparentar algo que não era de verdade. “Comecei a me aceitar e ver que não existe um padrão de beleza. Com certeza, o meu cabelo é minha identidade”. Ela conta que já utilizou black power e no momento está usando tranças box braids e, também, já experimentou diferentes cores e formas de tranças. “Sempre vão existir pessoas que não aceitam quem somos, mas,  quando você descobre a sua verdade, isso não machuca ou incomoda mais”, garante. 

“Fazer as pazes conosco parece, penso comigo, com fazer as pazes com a nossa ascendência, como se estarmos bem na nossa pele adviesse do apaziguamento de termos uma família. Separam-se então as forças — à estética o que é da estética, à moral o que é da moral — para no instante seguinte nos depararmos com a maneira como tal separação de forças não pode ter lugar”, diz a escritora portuguesa, Djaimilia Almeida no livro “Esse Cabelo”.

Segundo o artigo ‘Do black power ao cabelo crespo: a construção da identidade negra através do cabelo’, publicado em 2015, fruto de uma pesquisa de pós-graduação de Nádia Regina Braga dos Santos na USP, no final do século 20 começaram a ser feitos questionamentos  relativos à imposição de alterar a estrutura do cabelo de mulheres negras através do alisamento, com o intuito de adequarem-se aos padrões europeus de beleza que implicam em mulheres com cabelos perfeitamente lisos. 

No Brasil, por ser uma característica física mais acessível de mudança, o cabelo afro ainda é uma das mais bem articuladas expressões do racismo, levando em conta que cerca de 70% da população possui variações de cabelos cacheados e crespos, segundo uma pesquisa realizada pelo Instituto Nacional de Brasília e pela Universidade Federal de Brasília, em 2015. 

Tema de filme e de youtubers

Além de livros que abordam a aceitação capilar, canais de streaming como a Netflix contêm em seu catálogo filmes e séries que tratam do assunto. O longa “Felicidade por um Fio”, baseado no livro de Trisha R. Thomas, discorre sobre uma publicitária negra, que desde criança foi ensinada que alisar o cabelo era inevitável. Após algumas decepções, a protagonista embarca em uma mudança visual radical e de auto-aceitação. Já a minissérie “A Vida e a História de Madam C.J. Walker”, expõe como uma mulher negra se tornou a primeira mulher milionária dos Estados Unidos a conquistar a própria fortuna, isso por meio de uma linha de produtos capilares e cosméticos para mulheres negras.  

No Youtube, pode-se encontrar inúmeros vídeos de pessoas que passaram pela transição capilar. A youtuber Larissa Cavalcanti é um exemplo disso. Em seu canal, ela publica vídeos sobre seu processo de transição, e dá dicas para outras pessoas de como arrumar os cabelos. Ela conta que, quando decidiu voltar aos cabelos naturais, já tinha certeza de que era o que queria. Para Larissa, os cabelos crespos e cacheados foram e ainda são discriminados: “ver as pessoas optando pelo cabelo natural, mostra uma mudança enorme dos padrões da sociedade…eu admiro muito as pessoas que estão passando pela transição, porque mostra uma quebra de padrões muito grande, principalmente referente ao cabelo”.

Para a influenciadora digital Jeieli Santos, o processo de transição capilar não foi fácil. A influencer sabia que era necessário lutar contra a auto-estima baixa, para obter uma boa recuperação do cabelo, que havia sido bastante danificado pela progressiva, secador e chapinha. Jeieli comenta ainda da importância das pessoas se amarem do jeito que são e como isso influencia na mudança de pensamento da sociedade. “Eu vejo as pessoas se aceitando e se amando do jeito que elas são, tirando aquele rótulo de que é só bonita quem tem cabelo longo e liso. É bom ver que as pessoas estão se apaixonando pela beleza verdadeira que elas tem”, conclui.

Alisamento traz mais malefícios do que benefícios 

Tendo a chapinha e o secador como aliados para o alisamento dos cabelos, muitas meninas acabam dedicando parte de seu dia em prol do alisamento. Uma pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo (USP) aponta que chapinhas e secadores podem prejudicar  de maneira irreversivelmente a estrutura dos fios. Os testes foram realizados em diversas etnias, mas o que mais chamou a atenção foi a vulnerabilidade dos cabelos afro-étnico. Os fios mostraram-se menos resistentes em comparação a outros, levando assim a quebra. 

Um exemplo é a influenciadora digital Giovana Celiss. Após agredir as madeixas de forma tão violenta, com alisamento, chapinha e secador, ela viu o enfraquecimento e queda dos cabelos. Foi aí que ela resolveu largar de mão a química. Com tantos anos de progressiva, Giovana não se lembrava mais como era seu cabelo natural, apenas por fotos de quando criança. A influenciadora diz que se sente feliz a ver outras mulheres optando pelos cachos. “Eu fico feliz por ver elas, porque cada vez mais a mídia tem um espaço grande para esse público de cabelo, mostrando para as pessoas mais jovens que elas não precisam alisar o cabelo delas para se sentirem incluídas na  sociedade. E que mesmo crespas e cacheadas tem seu lugar e vez”, conclui.

E assim as palavras de Madame C.J. Walker, – a primeira mulher milionária dos Estados Unidos a conquistar a própria fortuna, por meio de uma linha de produtos capilares e cosméticos para mulheres negras- perduram até hoje: “Cabelo é beleza. Cabelo é emoção. Cabelo é nossa herança”.

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