Por: Caroline Ronsoni e Victor Ferreira

A intolerância atinge vários credos no Brasil. No entanto, nenhuma outra orientação religiosa foi tão massiva e historicamente perseguida como as de denominação afro-brasileira e de raízes africanas. Nesse sentido, a revista ComArte consultou especialistas para explicar a diferença entre suas principais manifestações, o candomblé e a umbanda.  Afinal, a identidade de um povo está ligada a sua língua, costumes e crenças. A religião é uma importante aliada na vida do homem. Viver em democracia denota ter o livre arbítrio para seguir o exercício da crença que desejar.

As religiões de matriz africana são aquelas oriundas de países do continente africano que chegaram ao Brasil especialmente no período da escravidão. Conforme explica o antropólogo e professor de história da Universidade de Passo Fundo (UPF), Frederico Santos dos Santos, cada região brasileira recebeu africanos vindos de algumas regiões da África, e cada uma tinha uma modalidade religiosa diferente. Por exemplo, no Rio Grande do Sul se desenvolveu o Batuque, no Maranhão e algumas regiões do nordeste o Tambor de Mina, em Pernambuco o Xangô de Recife, e na Bahia o Candomblé. Atualmente estas modalidades não são mais restritas apenas a estas regiões, e podem ser encontradas em todo o país. “Essas religiões têm em seu panteão divindades africanas e sua cosmologia se refere ao continente africano”, pontua Santos.

Por outro lado, as religiões afro-brasileiras  transitam por essas modalidades de religião africana, mas incluem outros elementos da cultura brasileira. “A umbanda é o melhor exemplo de uma religião afro-brasileira ao ter em seu panteão as divindades africanas, mas também indígenas e muitas outras que fazem também referência ao Brasil”, explica.

O Estatuto da Igualdade Racial (Lei n. 12.288/2010) estabelece que as religiões de matriz africana sejam reconhecidas juridicamente como um estatuto de religião. Logo, garante-se a ampla liberdade de crença e culto, proibindo qualquer tipo de discriminação. Segundo o censo demográfico de 2010 realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), cerca de 0,3 % da população brasileira se declara como adepta de religiões de origem afro. O Rio Grande do Sul é o estado que apresenta a maior população seguidora, chegando a atingir 0,6% a 5,9% dos habitantes de certos municípios, índices muito acima da média nacional. Embora os números possam não parecer tão expressivos, as religiões afro-brasileiras desempenham uma importante função na sociedade. “Possuem um papel relevante nos dias atuais ao colocar sob suspensão algumas noções de humanidade que, numa concepção cristã, tínhamos como unívocas e absolutas. Nos ensina uma relação de respeito à natureza em seus diversos elementos. Nos ensina a como nos relacionar com as diferenças e a diversidade”, defende o antropólogo.

Qual a diferença entre umbanda e candomblé?

A umbanda e o candomblé são as duas religiões de origem africana com mais influência. Mas elas não são iguais, existem diversas características que distinguem uma da outra. A umbanda, pode-se dizer,  é uma união de religiões, como conta o Sacerdote Robson de Ogum e cacique Ventania de Aruanda. “A umbanda é uma simbiose de religiões, ela agrega um pouquinho do espiritismo, da pajelança dos índios, um pouco da católica, um pouco da orixalidade que é do candomblé, agrega vários conceitos, mas tem o seu dogma. Já o candomblé cultua orixás, os deuses africanos diretamente ligado à África”, comenta.

Outra grande diferença está na culinária, pois no candomblé usa-se a sacralização. “Não são sacralizadas aves na umbanda, a única parte que utilizada aves é a quimbanda, que é uma parte paralela à umbanda. Na nossa religião (umbanda) é ofertada a costela ao Ogun e ao Oxossi; frutas, vinho, guaraná, cerveja branca para Ogum; e cerveja a Xangô. No candomblé usa-se a sacralização de aves e quadrúpedes para alimentar os orixás”, relata o cacique.

Saúde e fé

Em meio à pandemia que o mundo está vivenciando por conta do novo coronavírus, todos estão sofrendo consequências, e com as religiões não é diferente. Foi decretado, inclusive, que as igrejas e os templos podem permanecer abertos durante este período de isolamento social. O presidente Jair Bolsonaro ainda autorizou que as igrejas funcionassem durante a pandemia, relatando algo essencial para a população. Segundo o texto do decreto, as “atividades religiosas, de qualquer natureza” estão incluídas nas atividades essenciais e devem funcionar de acordo com as regras estabelecidas pelo Ministério da Saúde, podendo assim abrir mas com quantidade reduzida. Porém alguns estados brasileiros optaram pelo fechamento das igrejas nesse período. Último decreto foi estabelecido no início de abril.      

É exatamente isso que os terreiros estão fazendo, eles atendem em particular cada fiel. “Nós lidamos dentro do terreiros como lidamos com a comunidade, nós preservamos a saúde dos fiéis que vêm nos consultar, estamos evitando fazer os nossos cultos por conta dessa pandemia, até por que nós temos fé, mas é preciso se cuidar. É uma pessoa por vez, com intervalo de 2h, utilizamos o álcool gel para desinfetar o local, seguimos todas as ordens de precaução para evitar que o vírus se espalhe”, explica Robson. 

Cada crente tem a sua fé em determinada religião de sua escolha. Segundo o dicionário, fé significa uma convicção intensa e persistente em algo abstrato que, para a pessoa que acredita, se torna verdade. Para os fiéis da umbanda a fé é muito ligada ao coração e aos sentimentos de quem pratica. “Fé é algo que liga o teu coração, a tua alma a algo superior, a algo mais forte que tudo. Não é por que a gente tem as imagens que estamos adorando elas. A fé para mim, dentro da umbanda que eu sigo, é o meu coração, a minha oração ligada a todos os meus caboclos, aos pretos velhos, exus e pombas giras”, finaliza o cacique. 

Existem diversas religiões com matriz africana cultuadas no Brasil. Veja algumas delas e onde elas têm mais influência:

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