Historiador fala das origens e da preservação da memória de um conto que faz parte do imaginário da cidade de Passo Fundo (RS)

Por Julia Barichello e Rebecca Mistura

“Quero deixar esta fonte para quando aquele que dela beba retorne sempre a este lugar” – é com essa frase que a Lenda da Mãe Preta é eternizada no monumento do Chafariz da Mãe Preta, em Passo Fundo (RS). O conto traz a história de Mariana, uma escrava de Cabo Neves, que viu seu filho fugir e nunca mais retornar. Incapaz de suportar a dor, ela veio a padecer, mas antes de morrer, ela chorou – e das suas lágrimas surgiu a fonte, acompanhada do menino Jesus, que atendeu ao seu pedido: de tornar o lugar um símbolo de retorno.

O que pouca gente sabe é que a narrativa também conversa com outra lenda ainda mais antiga, de origem indígena, conforme explica o historiador Diego Baccin, formado em História (Licenciatura Plena) pela Universidade de Passo Fundo e em Filosofia (Bacharelado) pelo Instituto Superior de Filosofia Berthier, além de ter aperfeiçoamento em Direitos Humanos e Relações Étnico-raciais – IFIBE. “Acredito que existia uma lenda comum entre os primeiros moradores da região passo-fundense, dos povos Kaingang, que narrava a história da Mãe Goiexim. Com a ocupação étnica de luso-brasileiros que se assenhorearam do território passo-fundense esta lenda foi sendo ressignificada entre as populações que passaram a ter maior proximidade de convívio com o local, fazendo com que a lenda fosse gradativamente sendo ‘adaptada’, sendo que de uma Mãe Goiexim surgisse uma Mãe Preta, a Mãe Mariana”, pontua.

“Acredito que existia uma lenda comum entre os primeiros moradores da região passo-fundense, dos povos Kaingang, que narrava a história da Mãe Goiexim”

Origem e memória

De acordo com o historiador, o Chafariz foi construído em terra doada por Manoel José das Neves e sua primeira construção data de 1863, portanto é um dos mais antigos lugares de memória da cidade de Passo Fundo. “O monumento à Mãe Preta também constitui um daqueles raros monumentos que se tem um patrimônio histórico cultural de origem popular, que não está associado à memória de elites locais, personalidades militares e políticas”, ressalta Baccin, ao falar da importância do chafariz à memória da cidade. E, por mais que não fosse reconhecido como patrimônio histórico cultural de Passo Fundo, carregava uma tradição popular muito forte, que usava de sua água para benzimentos e para controlar a febre, fortalecendo uma mística e espiritualidade acerca da Lenda da Mãe Preta.

Em 1965, a estrutura do chafariz foi destruída, representando de certa forma o esquecimento da memória da Mãe Preta, “o que talvez tenha mobilizado um grupo de mulheres negras de Passo Fundo em audiência com o prefeito da época Mário Menegaz, exigir a construção de um busto em memória da Mãe Mariana a Mãe Preta”, comenta o historiador. O local não tinha uma relação político-administrativa com o lugar. Ele era de utilidade pública, mas principalmente para as mulheres negras, era símbolo de representatividade com a simbologia da lenda.

Em 1965, a estrutura do chafariz foi destruída, “o que talvez tenha mobilizado um grupo de mulheres negras de Passo Fundo em audiência com o prefeito da época Mário Menegaz, exigir a construção de um busto em memória da Mãe Mariana a Mãe Preta”

O historiador ressalta a diferença entre o Chafariz da Mãe Preta e a Praça da Mãe Preta – esta última surge somente em 1982. “Surgirá a Praça da Mãe Preta, com área regularizada e urbanizada com o objetivo explícito de preservação da fonte histórica do Lava-Pés e da Mãe Preta”, explica Baccin. É nesse momento que ocorre a oficialização tanto da Praça, como do Monumento da Mãe Preta, que se mantêm até hoje. A Praça da Mãe Preta homenageia Maria Luiza da Silva, doméstica e servente do jornal O Nacional, que foi a convidada de Múcio de Castro para representar a Mãe Preta.

Homenagem na arte

O cartunista Leandro Malosi Dóro registrou, na arte, a sua visão da lenda. Para ele, a obra se assemelha a um perfil semelhante à mitologia da Igreja Católica. “A conotação social é indissociável da lenda da Mãe Preta, pois existe uma classe social que a defende e acredita nela”, pontua o artista.

Rota ao Chafariz

Em Passo Fundo, você pode conhecer o Chafariz da Mãe Preta pessoalmente. Basta seguir as orientações do infográfico abaixo, partindo da Praça do Teixeirinha, no centro da cidade.