Historiadora ressalta manifestações culturais do maçambique e dos ensaios de promessa na composição da cultura gaúcha

Por: Emilly Lautert e Matheus Basso

“É perceptível que no Rio Grande do Sul acontece muito essa falta de protagonismo negro e da cultura negra ao se falar da cultura gaúcha em geral. Limita-se muito a uma cultura européia e se anulam estas contribuições negras ou indígenas”, afirma Chaline de Souza. A historiadora é nossa fonte nesta matéria especial da ComArte, que busca revelar uma parte pouco valorizada da história do estado, além de expressões culturais típicas da região, como o maçambique e os ensaios de promessa.

Chaline tem graduação e mestrado em História na Universidade de Passo Fundo (UPF), onde realizou sua dissertação sobre religiões afro-brasileiras. Atualmente é professora na rede pública de ensino de Nova Prata e está cursando uma especialização em História e Cultura Afro-brasileira na Uniasselvi.

Segundo ela, a presença do negro onde hoje é o Rio Grande do Sul é uma realidade desde aproximadamente o período em que a região ainda era uma capitania e começaram a chegar os primeiros africanos que foram escravizados. “A maioria dos primeiros escravizados vieram da região do Paraguai e do Uruguai, depois passaram a ser trazidos para cá de outros estados do Brasil, de outras capitanias”, conta a professora.

Sabe-se que muitos tinham descendência ou eram vindos das regiões de povos bantos, posteriormente iorubás ou sudaneses.

É nítido o fato de que o Rio Grande do Sul recebeu uma grande quantidade de escravos. Porém, conforme afirma Chaline, fica difícil identificar a origem africana desses povos, tendo em vista que vários deles eram afrodescendentes nascidos em países da América do Sul. Entretanto, sabe-se que muitos tinham descendência ou eram vindos das regiões de povos bantos, posteriormente iorubás ou sudaneses.

“Tivemos alguns sudaneses que vieram principalmente para as cidades grandes, eles eram islamizados, tinham muito conhecimento matemático e vieram principalmente para ajudar na mão de obra nas construções. Outro grupo maior que os sudaneses são os bantos, que vieram para trabalhar com atividades agropastoris. Ou seja, muitos dos conhecimentos com agricultura, além daqueles atribuídos às práticas indígenas, nós tivemos com esses povos africanos, que já desenvolviam na África ou em outras regiões aqui da América do Sul”, fala Chaline.

“Muitos dos conhecimentos com agricultura, além daqueles atribuídos às práticas indígenas, nós tivemos com esses povos africanos, que já desenvolviam na África ou em outras regiões aqui da América do Sul”, fala Chaline de Souza.

Além disso, a historiadora ainda alega que a vinda dos africanos escravizados foi muito importante para a construção do que seria hoje o gaúcho. “A presença negra na história do Rio Grande do Sul é muito forte e foi fundamental para que o Estado chegasse a ser um dos mais importantes do país ainda no tempo do Império”. É o que afirma também Eduardo Amaral na reportagem “Onde estão os negros do Rio Grande do Sul”, publicada pelo jornal Correio do Povo em novembro de 2019.

 Por mais que haja uma ideia de que a população do estado seja majoritariamente branca, o Censo de 2010 traz os dados de que o RS conta com cerca de 1.72 milhão de pessoas negras autodeclaradas, ou seja, 16,13% dos habitantes.

“A presença deles no RS está muito ligada à questão culinária, nós temos muitos alimentos e sementes que têm origem africana. Por exemplo, tem aquela disputa em questão de onde veio o feijão e a feijoada. O que a gente sabe é que o feijão preto é uma semente que veio da África para o Brasil”, informa a historiadora. Em relação a isso, é possível observar também que, no site do Movimento Tradicionalista Gaúcho não há nada explícito sobre imigração negra e a influência deste povo na cultura gaúcha, porém, fala-se brevemente sobre os africanos no âmbito da gastronomia.

Entretanto, além da comida, há uma forte presença da dança, das religiões e de palavras que a gente fala no cotidiano, sem saber que são de origem africana. “E porque que nós não sabemos? Porque essa cultura não é valorizada”, aponta Souza.

Há uma forte presença da dança, das religiões e de palavras que a gente fala no cotidiano, sem saber que são de origem africana.

As manifestações culturais

“O Rio Grande do Sul é o estado com maior número de afro religiosos declarados do Brasil. Por mais que a maioria dos quilombos daqui ainda não tenha uma documentação, a gente percebe uma presença bem expressiva desse grupos em todo o território do RS que teve mão de obra escrava. Esses locais têm características quilombolas”, diz Chaline. 

Nos últimos anos muitas universidades têm desenvolvido pesquisas sobre a temática negra, envolvendo inclusive os quilombos e as culturas presentes dentro deles. “A pesquisadora Janaína Campos Lobo e a professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Maria Elizabeth Lucas, fizeram um trabalho especificamente sobre o Ensaio de Promessa onde elas abordam esse lado da musicalidade e da presença desse simbolismo da ancestralidade dentro desta manifestação, porque eles trazem muitos elementos da cultura africana num louvor”, menciona a professora.

Ensaio de Promessa em agradecimento a Nossa Senhora do Rosário
Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS

Os Ensaios de Promessa são tradicionais da região de Mostardas e Tavares. Conforme Chaline de Souza, este ensaio é um louvor a Nossa Senhora do Rosário. Normalmente se reúnem para comemorar e para agradecer uma promessa ligada à colheita farta, mas pode ser por outras promessas. A dança dura em torno de 12 horas ou mais, com muitos cânticos com palavras africanas. Por vezes, eles são chamados aos Centros de Tradições Gaúchas para fazerem suas danças.

Ritual do Maçambique na cidade de Osório
Foto: Eliana C. Izaias / Prefeitura Municipal de Osório

Já no Maçambique de Osório, apesar de o ritual também ser de agradecimento a N. S do Rosário, existem algumas diferenças, como por exemplo, eles buscam enaltecer as autoridades africanas, do Rei Congo e da Rainha Ginga. Segundo Chaline, é tipo uma procissão em que acontece a dança e tem a coroação, nesta dança estão refletidas duas resistências que seriam Congo e Angola, povos que vieram para o RS e foram escravizados aqui.

“É muito interessante e extremamente importante perceber que eles conseguiram se reinventar numa fé cristã, colocando os seus elementos culturais, como o seu tambor, as suas autoridades hierárquicas, mas agradecendo a santa. Aconteceu muitas vezes de líderes de igrejas não aceitarem esta manifestação. Então, eles acabavam fazendo no próprio quilombo ou nas capelas mais próximas. Hoje é um patrimônio imaterial e todos acabam participando”, conclui Chaline.

Representação do Rei Congo e da Rainha Ginga
Foto: Eliana C. Izaias / Prefeitura Municipal de Osório