Imagem: Bruce Emmerling/Pixabay

Adoecimento, antirracismo e um caso perto de nós

*Por Julia Barichello e Lucas Marques

Os efeitos de ter uma sociedade construída em cima do racismo e da exploração dos negros são sentidos diariamente para aproximadamente dez milhões de brasileiros, que constituem a população de cor ou raça preta, de acordo com dados de 2018 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esses efeitos, para muitos, são sentidos na pele de forma precoce na vida.

Este é o racismo estrutural, fator gerado a partir de discriminação e desigualdade dentro de uma sociedade, tal como a brasileira, e que acaba por gerar privilégios e vantagens para certas raças menos vulneráveis em detrimento de outras. Mas por que o racismo é estrutural? De acordo com a psicóloga clínica e social e colaboradora da Comissão de Enfrentamento ao Racismo no Conselho Regional de Psicologia de Pernambuco – 2ª região (CRP-02), Rita Ferreira, a explicação se dá ao observar a estrutura econômica e política de determinada sociedade. “Se olharmos para essas estruturas, vamos perceber que a figura da pessoa negra não está nessa camada de poder. Se olharmos para o Congresso Nacional, por exemplo, quantos negros vão estar lá? Ainda mais, quantas parlamentares mulheres e negras estarão lá?”, exemplifica.

Segundo Ferreira, quando se pensa em estrutura, se pensa em representatividade. Esta é uma das palavras-chave nas discussões em torno da problemática do racismo e da estrutura presente na sociedade. “A partir do momento que normalizamos e não nos chocamos em não ver representatividade negra nos espaços de poder, estamos naturalizando o racismo. Ele se torna estrutural a partir do momento em que a sociedade acha normal a não-inclusão destes sujeitos na própria sociedade”, aponta a profissional.

“A partir do momento que normalizamos e não nos chocamos em não ver representatividade negra nos espaços de poder, estamos naturalizando o racismo”. Rita Ferreira

As formas como o racismo estrutural apresenta-se para as pessoas negras dentro da sociedade são variadas. Para Rita, uma dessas formas é buscando anular o sujeito. Segundo a psicóloga, uma vez que ele não se vê enquanto figura política ou social no poder, ele já está sendo anulado. “A anulação não surge repentinamente, e sim desde que o sujeito nasce”, complementa. A anulação, por sua vez, gera um adoecimento no cidadão afetado. Para corroborar com esta fala, Rita faz referência a uma frase de um teórico de sua área, o psicanalista alemão Erik Erikson. “Ele aponta que o sujeito que não possui em sua constituição a sua subjetividade racial e de orientação sexual, tende a ser um sujeito adoecido”, cita.

Portanto, não necessariamente o racismo se apresenta para o sujeito negro de uma forma explícita. Para Rodrigo de Meira dos Santos, que cursa Publicidade e Propaganda na Universidade de Passo Fundo (UPF), o racismo se manifestou de forma velada em situações vividas. Uma destas situações foi a partir do momento em que o publicitário decidiu realizar o simples ato de deixar seu cabelo crescer. “Fui na faculdade e acabei percebendo um debate sobre o meu cabelo. Me perguntaram o motivo porque eu não alisava meu cabelo, que ficaria mais bonito”, relata. Como resultado do episódio, Rodrigo cita que o comentário gerou problemas em sua autoestima. “Quando sofri o baque na autoestima, acabei até raspando o cabelo. Foi complicado”, acrescenta.

“Fui na faculdade e acabei percebendo um debate sobre o meu cabelo. Me perguntaram o motivo porque eu não alisava meu cabelo” Rodrigo de Meira dos Santos

Conforme o estudante, o racismo se apresenta de maneira mais grave baseado na aparência física, facial e na cor. E isso abala as pessoas. Como resposta a atos racistas, explícitos ou velados, Rodrigo menciona que primeiro se deve questionar as atitudes. “Você tem que pegar e debater com ela, mostrar argumentos, mostrar fatos e saber realmente como responder no caso um ato racista”. Ele também comenta que só assim as pessoas irão refletir e entender realmente que o que falaram não está certo, que o diálogo é a chave para a compreensão e evolução das pessoas.

Mas qual deve ser o papel das pessoas brancas em combate ao racismo? Qual deve ser o posicionamento de sujeitos não-negros frente à práticas racistas? Para Rita Ferreira, antirracista é aquele que não apenas assume que o racismo existe, como também busca meios nos quais ele não vá se repetir, tais como evitar a reprodução de frases com cunho discriminatório. Um dos fatores mencionados por Rita como prática antirracista é o respeito ao lugar de fala. “Você não pode falar que sente a dor que uma pessoa negra sentiu se você não é negro. Você deve falar a partir das suas vivências”, elucida, citando a filósofa e referência no ativismo pelos direitos dos negros, Djamila Ribeiro.

Sendo assim, a contribuição de pessoas brancas na luta contra o racismo passa por questões como estas. O que deve acontecer então é a escuta das diferentes vivências e, a partir disso, a empatia e a desconstrução das práticas racistas. Este é o caminho de combate à problemática. E, como afirma a militante pelo direito dos negros americana, Angela Davis, em sua famosa frase, “numa sociedade racista, não adianta não ser racista, nós devemos ser antirracistas”.

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