Crédito: Arquivo pessoal

Sambista colocou em evidência a cultura negra de Passo Fundo

Por: José Henrique Sodré e Lucas Marques

Há um ano, a cultura passo-fundense sofria um grande baque. Aos 76 anos de idade, falecia a mãe de quatro filhos e detentora de um rico legado na história do município, Djanira Ribeiro. No seu ramo, a música, Djanira construiu uma sólida carreira como sambista e se consolidou como um dos principais nomes do gênero em Passo Fundo, fazendo história nos carnavais da cidade.

A música sempre esteve presente na vida de Djanira. Desde criança, participava de rodas de samba. Incentivada por sua mãe, Almerinda de Jesus Isaias, começou a cantar. Ainda na adolescência, assumiu o comando do Clube Visconde do Rio Branco, mudando para sempre os desfiles na cidade. Foi pioneira em trabalhar em todos os setores da escola, passando pela criação de enredos, composição e interpretação do samba-enredo. Foi responsável pela importação de elementos do carnaval do Rio de Janeiro para Passo Fundo, como a presença do mestre-sala e porta-bandeira, além da comissão de frente. Com os componentes oriundos do carnaval do Rio, o carnaval passo-fundense passou a ter mais critérios e quesitos específicos para o concurso e, consequentemente, a pontuação.

O legado que Djanira Ribeiro deixou para a cidade de Passo Fundo, juntamente à luta pela cultura afro-brasileira e africana, foi a garra de colocá-la em posição de evidência na cidade.

Ainda em Passo Fundo, a cantora fez parte da escola Bom Sucesso. Djanira também brilhou na cidade de Santa Maria, quando venceu o carnaval da cidade no comando da Unidos do Itaimbé. Após a passagem pela cidade localizada na região central do estado do RS, Djanira retornou para o Planalto Médio e montou o grupo “Alforria”.

Letra da canção “Lenda do Chafariz”, do Grupo Alforria.

Sua contribuição para a cultura passo-fundense foi tão relevante quanto a sua importância para a cultura negra da cidade. Djanira era neta de um dos fundadores do histórico Clube Visconde do Rio Branco, local que serviu de abrigo para os negros, que não eram bem-vindos em outros clubes sociais, como o Clube Comercial e o Clube Recreativo Juvenil. Como diretora do Visconde, Djanira Ribeiro organizou um baile de debutante para algumas meninas da comunidade, nos mesmos moldes das festas organizadas nos demais clubes do município.

E a inclusão social não foi uma característica observada em Djanira apenas enquanto diretora do Visconde do Rio Branco. Como educadora, Ribeiro participou de projetos de auxílio financeiro a jovens com baixa condição de renda com o intuito de fazê-los entrar em cursinhos pré-vestibular. Em sua trajetória na educação, Djanira ainda fez parte de um grupo de apoio a jovens, a partir de aulas gratuitas, como incentivo ao aprendizado e ao ingresso em universidades.

Seu filho, Odorico Ribeiro, lamenta o fato de Djanira nunca ter sido convidada para integrar a equipe da Secretaria de Cultura do município ou até mesmo ocupar o cargo de Secretária de Cultura. “Tenho certeza que seria uma passagem inesquecível, pois ela lutava muito pela cultura”, conta Odorico. O legado que Djanira Ribeiro deixou para a cidade de Passo Fundo, juntamente à luta pela cultura afro-brasileira e africana, foi a garra de colocá-la em posição de evidência na cidade.