A diretora Ava DuVernay ao lado dos verdadeiros protagonistas de “Olhos que condenam”

Uma série que nos provoca inúmeras sensações e sede de justiça

Por: Gabrieli Corrêa

Se Ava DuVernay já apresentava seu trabalho ao mundo com o filme “Selma” (2014), retratando a história de luta de Martin Luther King Jr., e com o documentário “A 13º emenda” (2016), explorando as consequências deixadas pela escravidão ao povo negro e o encarceramento em massa nos Estados Unidos, foi no ano passado que ela se consolidou com a minissérie lançada pela Netflix, “Olhos que condenam” (2019), que recebeu 16 nomeações ao Emmy, e conquistou na última quarta-feira (10) o prêmio Peabody uma das mais antigas e importantes premiações norte-americana. Além de despertar diversas sensações por parte do público.

Dividida em quatro episódios, a série retrata a história de um famoso e polêmico caso de injustiça e preconceito ocorrido nos Estados Unidos em 1989, quando Korey Wise, Antron McCray, Yuseff Salaam, Raymond Santana e Kevin Richardson, adolescentes entre 14 e 16 anos, foram acusados e condenados de estuprarem uma jovem bancária no conhecido Central Park em Nova York.

Baseada em um roteiro realista, a trama nos prende ainda mais pela sensibilidade do tema, que impacta, revolta e causa um sentimento de impotência a quem está assistindo. Isso acontece porque desde o príncipio Ava nos traz o que realmente aconteceu naquela trágica noite de 19 de abril de 1989, o que mostra e nos comprova a inocência dos protagonistas.

 No decorrer de seus capítulos, a narrativa, contada pela primeira vez por quem viveu esse drama, traz os interrogatórios, o julgamento, e as consequências que tudo isso deixou na vida dos acusados e também de seus familiares. Porque a cadeia é algo que acaba por encarcerar também aqueles que os amam. Além de realizar uma crítica à polícia e à falta de investigação, que acontece principalmente em casos que acometem a minoria, e que nessa ocasião levou a júri e a condenação cinco adolescentes negros sem prova alguma. 

A história real

Raymond, Antron, Kevin, Korey e Yuseff durante o julgamento.

Com toda a população e a mídia cobrando respostas, a promotora de Manhattan e da unidade de crimes sexuais, Linda Fairstein, tinha pressa em resolver esse caso, o que a fez ser a principal responsável pela injustiça cometida. Em um especial da Netflix onde Oprah Winfrey entrevista o elenco e os envolvidos, os cinco injustiçados afirmam que Linda foi sim a culpada por tudo, pois foi dela que vieram as ordens para as apreensões, interrogatórios intimidadores e as falsas provas e confissões.

Com mais de 30 horas de interrogatórios (sem a presença de adultos) e com confissões claramente contraditórias e confusas por parte dos meninos, que inclusive logo em seguida negaram a veracidade desses depoimentos, e com exames de DNA que comprovaram que eles não tinham ligação com as provas encontradas (roupas da jovem e sêmen), eles foram sentenciados com penas de 5 a 15 anos em regime fechado. 

Enquanto Antron, Yuseff, Raymond e Kevin cumpriram parte da pena em centros de detenção para menores, Korey que era o único maior de idade perante a lei norte-americana foi enviado diretamente a uma prisão de adultos, chegando no local como um detento pelo pior crime que se pode cometer, o estupro. Já dá para imaginar por tudo que ele passou. Korey foi o último dos cinco a ganhar a liberdade depois de 13 anos preso, sendo que metade desse tempo passou em solitária para garantir a própria sobrevivência.

Durante a entrevista a Oprah, Ava revela que, ao questionar pela primeira vez Korey Wise se podia contar sua história, ele respondeu que sim, mas que sentia que essa história era de quatro mais um. Porque os amigos puderam ao menos encontrar apoio uns nos outros, enquanto ele precisou enfrentar tudo sozinho. Isso justifica porque vimos muitas cenas de Korey na cadeia enquanto os outros quatro foram somente alguns flashes dentro do centro de detenção. Vale ressaltar que Wise não estava entre os suspeitos e somente foi até a delegacia para acompanhar o amigo Yuseff, acredito que seja isso que nos revolta ainda mais quando nos deparamos com as cenas de sofrimento vividas por ele dentro da prisão.

A série

Com atuações emocionantes e sinceras por parte do elenco vencedor do Emmy, conseguimos ver a ingenuidade dos meninos, inclusive após ganharem a liberdade já adultos. Essa foi uma das consequências que ficaram pela perda de suas juventudes. Mas é preciso destacar a interpretação de Jharrel Jerome que se diferencia do resto, ao interpretar a duas fases de Korey Wise (jovem e adulto), Jharrel é capaz de nos levar junto com ele para dentro do encarceramento, principalmente nas cenas em que está na solitária e começam seus delírios psicológicos. Não é a toa que recebeu o prêmio de melhor ator do Emmy 2019. 

Jharrel Jerome durante a premiação do Emmy 2019

Jharrel em seu discurso na premiação agradeceu aos cinco do central park mas principalmente ao “King Korey Wise” como ele mesmo diz, que o ajudou a montar o personagem, passando momentos pessoais. Jerome declarou à Oprah que nunca sentiu algo parecido “Foi a primeira vez que senti que saí do meu corpo e entrei no corpo de alguém”. 

Jharrel Jerome junto ao verdadeiro Korey Wise

Somente em 2002 é que o caso teve seu desfecho quando o verdadeiro criminoso Matias Reyes, após conhecer Korey na cadeia, confessou o crime em detalhes e se ofereceu para testes de DNA, que claro, resultam positivo. É incrível como a história de Wise é extremamente importante para esse “final feliz” e é reconhecido pelo amigo Yuseff o mesmo que o “levou” a toda essa situação: “A principal peça desse quebra-cabeça, a magia que Korey tem, ele nem era um suspeito, ele entrou para a história e se tornou a coisa absoluta que nos libertou e eu agradeci muito isso”, declara Salaam.

Apesar dos negros ainda serem a maioria no sistema penal norte-americano, o caso ajudou para algumas mudanças. Cerca de 25 estados pedem que sejam documentadas todas as partes (antes, durante e depois) das declarações e confissões de suspeitos, além de uma determinação que exige a presença de advogadas ao longo de processos com menores de idade.

Em resumo, “Olhos que condenam” é um drama que provoca diversas emoções, principalmente por se tratar de uma história verdadeira. É uma experiência difícil, porém necessária, o que aconteceu com esses cinco jovens: Korey Wise, Antron McCray, Yuseff Salaam, Raymond Santana e Kevin Richardson. Sim, eles tem nome, identidade e principalmente direitos.

É algo que ainda acontece não só nos Estados Unidos como também aqui no Brasil, os negros ainda são a maioria entre os encarcerados e as vidas que mais se perdem no mundo. É um retrato de muitas realidades e vem a encontro dos episódios que estamos vivenciando ao redor do mundo. A série tem a finalidade de nos mostrar as marcas que são deixadas pela injustiça e dizer que é preciso agarrar-se em pequenos momentos de esperança, mesmo quando meio mundo está contra você.