Imagem retirada do vídeo “Elisa’s”, do Canal Futura

Por Camila Pellin

“O negro segura a cabeça com a mão e chora  E chora, sentindo a falta do rei…”

A letra de “Brilho de Beleza”, na voz da poetisa, jornalista, escritora, cantora e atriz Elisa Lucinda, deu início a mais um Sarau de Sábado, no último dia 30/5, seguido por reflexões relacionadas ao assassinato de mais um negro, George Floyd, morto por um policial branco em Mineápolis, nos Estados Unidos. “O que me impressiona é há quanto tempo fazem isso e como fazem isso, assim como mataram João Pedro no Brasil (…) estavam com ele mais três policiais, ou você tira o seu colega de cima do cara que vai ser morto por nada – se você tem um senso de justiça – ou você também é o dono do joelho”, declarou.

A arte de Elisa é marcada pelo ativismo, principalmente relacionado ao preconceito e ao racismo. Então, diante de mais um assassinato que comoveu o mundo, seria improvável não haver algum tipo de manifestação vinda da artista.  “Ainda bem que existe a arte, pra dar uma retratada no baixo astral”, disse.  

Ao vivo no canal do Youtube e também em formato de live na conta do Instagram – principal canal na realização do Sarau – a poetisa tem rotineiramente, desde março, realizado essas interações com o público em meio à quarentena. Mas, apesar de serem feitas toda semana, nada têm de rotina nas transmissões ao vivo. Canções e poemas, com reflexões e desabafos sobre os mais variados assuntos da vida, além do diálogo com o público, acontecem nesses momentos. 

Neste encontro específico, foram mais de 130 pessoas reunidas para assistir a essa mulher negra, que tanto representa para a arte brasileira. Ninguém ‘“fala” poesia como você -, comentou Erli Porto (@erliporto). Entre elogios e pedidos de declamação, Elisa ainda recebeu na live o grupo Soul de Brasileiro, com canções e conversas na luta por um mundo antirracista. 

Aquele fim de tarde de sábado teve direito a um poema inédito, que faz parte da série Quarentena de Longa Metragem, onde estão reunidas as produções feitas durante o isolamento social, “nascido agora, na pandemia”, como ela mesma disse. E declamou: 

“Quando eu voltar pra terapia, vou falar pra ela tanta coisa. Um dos meus dificultadores é a pressa. Não sei se é pressa ou multifoco, porque eu quando vejo uma coisa, largo a outra. Por exemplo, deixei a garrafa de água na mesa do quarto. Vou buscá-la mas aí eu busco a água e acho, pego, pego de novo o corredor e dou de cara na bancadinha que dá pra sala com o pé do meu par do meu brinco verde de miçangas, que lindo! Pego o brinco, vou sair, pego a bolsa cadê a água, meu Deus onde eu botei a água?

Quando eu voltar pra terapia, eu vou contar que uma das coisas que me atormentam é a pressa. Me leva a um stress, a uma rapidez, essa rapidez, eu não sei porque tudo eu quero rápido, urgente, é uma ordem, como uma neurose da urgência. Deve cansar quem tá do meu lado.

Vou contar pra terapeuta uma lista de queixas, um fardo, vou dizer que meu coração é um poço de desejo, e pensar em sequências: opa, vou cozinhar um peixe. Ih, não tem nada pra comer. Ai, que lindo, vou caminhar. Aproveito e no percurso ligo para aquele amigo que eu to pra falar desde a semana passada. Cadê a máscara? Na caminhada passo pela árvore da qual peguei a muda, hoje transmutada, enfim independente, brilha grande no vaso do meu jardim feito de garrafa de plástico de dez litros, porque é muito bom não sacanear o planeta. No fundo no fundo o planeta sou eu. Eu li isso em vários livros, nem posso dizer mais a fonte, até no livro do meu pensamento tava escrito.

Arrumei o guarda-roupa ontem. A outra de mim, que mora aqui também, vem desarrumando, e eu calada. Só vivo flagrando, já sobre a cadeira aquela mesma peça, que antes de ontem, tava dobrada. Eu dobrei! uma arruma e a outra desarruma. As duas na mesma pessoa! Fica muito difícil combater sem punir também a parte boa…

Aí, quando eu voltar pra terapia, eu vou dizer que essa pandemia, nos prendeu com nossos olhos sobre as máscaras. Nossos hálitos, nosso álcool em gel, água com sabão, nosso detergente, cloro, tentando combater o invisível. Lutar com o invisível e ganhar! É uma tremenda sorte se der certo. E depende também, uma outra parte da sorte, depende do estado.

Uma pilha de caderno pra transcrever de poemas, de quando eu não escrevia tanto no celular, quando eu escrevia muito mais em páginas reais, me esperam.

Uma pilha de páginas sobre a cadeira me espera. Aquela cortina da qual pela mesma janela entra luz do sol amarela, desbotou! É também isso que seu tom agora me revela.

Quando eu voltar pra terapia, eu vou dizer pra ela que eu acordei vários dias como se eu fosse fazer um grande passeio. O dia é o passeio, entendeu? Até aí tudo bem, acho que até tem feito bem. O problema não é o começo do dia, o problema é no meio. O mar do cotidiano me puxa pela mão, a favor da correnteza e é tudo com ele.

As ondas dos momentos batem meu corpo nas quinas dos sentimentos. Dos eventos online, dos eventos virtuais, para os quais eu me visto com poucos paramentos na parte de baixo. Eu estou como gosto, turbante, cabelo black power debaixo, armando pano, rímel, delineador, batom, colares, brincos, flores nos cabelos na parte de cima e descalça, sempre descalça na parte de baixo, andando no chão de minha casa.

Limpo, limpo, limpo, limpo. Quem me ama também faz a parte dele. Lava, cozinha, sendo o pastel de queijo sua especialidade, o que traz mais uma dificuldade, que é a de não engordar demais na quarentena. Por isso que eu vim aqui, aqui dentro do poema. Que cabe todo mundo: gordo, magro, preto, lésbica, homossexual, indígena, cadeirante, sobrevivente de todo tipo de excluído cabem no poema. pq? Porque o poema é um país, cujas leis fazem e se refazem e se desfazem e se transformam num campo muito vasto! num infinito, num campo de liberdade muito difícil de regular.

Isso, por exemplo, eu já to escrevendo num caderno invisível que trago na alma. espero que a maioria das coisas que eu penso, que acho que valham a pena, eu consiga anotar aqui. Num sei pra que tanta pressa. muitas vezes me pego no meio do gesto, vou falar com ela, vou contar pra terapeuta, me pego no meio do gesto apressado, não tenho tempo pra fechar a tampa da pasta de dente, a tampa do batom, do perfume…não dá tempo! Por que não dá tempo, doutora? Que que eu tenho? Vou perguntar pra ela.

Desconfio que foram os raios que minha mãe tomou quando tava dentro da barriga dela, raio x. Por conta da minha mãe, barriguda, ter se estatelado numa queda, numa escada de 22 degraus comigo. Quatro meses de pré-vida dentro. Reza a lenda, reza lá em casa a lenda, a lenda lá de casa. Ai, o que me salva tudo é o poema. Eu guardo aqui tudo, na espera. Quando eu voltar pra terapia, eu vou falar pra ela!”

Se todos soubessem o quanto a poesia transforma, seriam muitos mais reunidos para assistir às indagações e belezas da arte de Elisa, no Sarau de Sábado

https://www.instagram.com/p/CA09pwLBM-w/

Caso até ler essa resenha você não conhecia Elisa Lucinda e quiser conferir mais sobre quem é essa artista, confira o interprograma produzido por mim e mais nove colegas no projeto Geração Futura Juventudes 2020, do Canal Futura!