Filme narra história de amor e aborda padrões estéticos na publicidade

Por: Lavínia Fritzen

Expressões do tipo “cabelo ruim” e frases como “agora o cabelo crespo está na moda” ainda são muito ouvidas nos dias atuais. Quando uma mulher negra decide assumir o seu cabelo natural é uma atitude que representa um grande processo de autoaceitação e autoconhecimento. 

Toda esta situação é ilustrada pela Netflix em uma produção que merece ser comentada. O filme Felicidade por um fio consegue mostrar estes estereótipos estipulados para as mulheres negras desde cedo, assim como problemas da aceitação de identidade do sexo feminino.  

O filme é uma adaptação do livro de mesmo nome, Nappily Ever After, da autora Trisha Thomas, e narra a história de Violet Jones (Sanaa Lathan), a qual, aparentemente, parece ter uma vida perfeita: é bem sucedida no amor e na vida profissional. Entretanto, após um término doloroso com Clint (Rick Wittle), Violet decide rever suas escolhas e seu estilo de vida.

Violet entra em um processo de descobrimento e aceitação, e embarca em um momento libertador de transição capilar. 

Diferente do que se possa imaginar, esse não é mais um daqueles filmes clichês em que se decorre em busca de uma reconciliação. Ao contrário disso, quebra os padrões de narrativas dos filmes românticos. Violet entra em um processo de descobrimento e aceitação, e embarca em um momento libertador de transição capilar. 

Violet em momento da transição capilar (Foto: Reprodução/Internet )

Como consequência dessa grande mudança, diferentes aspectos da vida da personagem começam a ganhar novos rumos. Ao começar pela sua relação com a mãe, Paulette Jones (Lynn Whitfield), a qual sempre buscava manter o cabelo da filha liso e acreditava que isso a tornaria perfeita e garantiria boas relações. 

Violet sofria uma espécie de auto ódio, por ter sido ensinada a detestar sua estética e a rejeitar o máximo possível. No entanto, ela começou a repensar sobre isso ao conhecer a pequena Zoey (Daria Johns), filha de Will Wright (Lyriq Bent), personagem que surge no filme como um contraponto a Clint.  Zoey é uma criança com forte personalidade, que cresceu ouvindo o pai propagar seguranças sobre sua identidade.

Momento entre Mãe da Violet e a pequena Zoey (Foto: Reprodução/Internet)

Durante a transição de Violet, a obra também retrata cenas que abordam assuntos como racismo e machismo, proporcionando a eles a sua devida importância. Frases como “homens gostam de cabelos longos” demonstram tais preconceitos.

Felicidade por um fio é dividido de forma criativa, por fases, mostrando cada momento da vida vivido pela protagonista. Além disso, expõe como a personagem se descobre uma mulher corajosa, liberta, e feliz consigo mesma durante sua experiência.

Representatividade em campanhas publicitárias

Como um bom filme que levanta questões das mulheres negras, Felicidade por um fio não deixa de tratar a representatividade e influência da televisão. Violet trabalha em uma agência publicitária onde sempre atuou propondo campanhas que mantém os estereótipos comuns (mulheres brancas e magras). Entretanto, Violet testemunha situações, principalmente com Zoe, que a fazem agir, sair da zona de conforto e criar campanhas com maior diversidade. 

A abordagem deste assunto levanta um questionamento sobre a frequência em que acompanhamos comerciais com protagonismo negro. Visto que a publicidade pode ser encarada como responsável por ser o reflexo da sociedade, reproduzindo o cenário social, como também um meio impositor de tendências e pensamentos. Dessa forma, a obra nos mostra a importância do trabalho deste setor no processo da autoaceitação de todas as mulheres.

Assim como marcas de cosméticos que antes apoiavam o alisamento, agora buscam investir em produtos para a valorização dos fios. Esse movimento causa a libertação de homens e mulheres e demonstra apoio à naturalidade. Um ato de amadurecimento ilustrado por Violet, a qual abandona a química para adquirir uma conquista carregada de leveza no final.