Starr protesta sobre a morte de seu amigo. Foto: 20th Century Studios

Filme denuncia agressão e extermínio por parte de policiais nos Estados Unidos e faz refletir sobre a realidade brasileira

Por Franciele Moraes

“Faça o que mandarem você fazer […]. Mantenha as mãos à vista. Não faça movimentos repentinos. Só fale quando falarem com você”. Essas são as palavras dos primeiros minutos de “O ódio que você semeia”. São ditas por Maverick Carter para todos seus filhos pequenos, como uma forma de manual sobre como se portar diante de uma abordagem policial.

O filme de George Tillman Jr é baseado no livro “O ódio que você semeia (The hate u give), da autora norte-americana, Angie Thomas. A trama do filme começa a ganhar consistência após a protagonista, Starr, presenciar o assassinato de seu amigo Khalil, por um policial branco que parou o veículo em que eles estavam: o agente viu Khalil se inclinando para o carro e atirou, por achar que o jovem portava uma arma. Na realidade, Khalil não tinha nenhuma arma, o policial disparou fogo porque “confundiu” uma escova de cabelo que o personagem estava segurando, com uma arma.  A partir de então, Starr se sente insegura e dividida, entre ficar calada ou dar voz à sua consciência.

O tema da agressão policial e extermínio de negros se torna ainda mais agravado em tempos de discursos de ódio tanto nos EUA, quanto no Brasil. Assim como Kahlil, o filme retrata os riscos que negros vivem ao se depararem com a polícia. Por que o número de brancos mortos por “engano” por policiais é menor? No Brasil entre 2017 e 2018, 75% das vítimas de homicídio policial são negras, três vezes mais negros do que não negros, segundo o Atlas da Violência, e tinham entre 15 e 29 anos de idade. Já a polícia dos Estados Unidos matou 1.099 pessoas em 2019, dessas, 259 eram negras (24%). 

A ficção reflete a realidade, assim como Kahil, milhares de jovens foram e  são mortos pela polícia, como Michael Brown dos protestos de Ferguson, Eric Garner do estrangulamento em Nova Iorque, Oscar Grant, alvejado na virada do ano na Fruitvale Station em Oakland, e recentemente, a morte de George Floyd que provocou manifestações em mais de 75 cidades dos EUA, dentre muitos outros que só recebem atenção por causa das comoções públicas como o movimento #BlackLivesMatter (#VidasNegrasImportam). Da mesma maneira, ao longo do filme, a onda de protestos contra a morte de Khalil toma as ruas, e sua amiga de infância, Starr, acaba optando por revelar sua voz e participar dos protestos, além de dar entrevistas em rede nacional sobre o caso. Starr é marcada pela tristeza e injustiça do sistema, quando ela tinha dez anos, uma amiga de infância chamada Natasha morreu ao ficar no fogo cruzado entre uma briga de gangues, enquanto jogava basquete com amigos. Seis anos depois, um policial mataria Khalil na sua frente, após os dois saírem de uma festa.

“Suas vozes importam, seus sonhos importam, suas vidas importam. Sejam rosas que crescem no concreto”, citação de ‘O ódio que você semeia

No nosso país, embalado pela onda de protestos nos Estados Unidos devido ao assassinato de Georg Floyd, o menino João Pedro que foi baleado por policiais, também teve em resposta protestos nas ruas e nas redes sociais. Outros casos emblemáticos no país são de Douglas Martins Rodrigues, Claudia Silva Ferreira, Eduardo de Jesus Ferreira, Roberto de Souza Penha, Carlos Eduardo Silva de Souza, Cleiton Corrêa de Souza, Wilton Esteves Domingos Júnior, Wesley Castro Rodrigues, Evaldo Rosa dos Santos, Luciano Macedo, entre tantos outros. Confira todas essas ocorrências na reportagem do Portal R7. Além desses, ganhou destaque, mas no ano de 2019, foi o de Evaldo Rosa dos Santos, morto por agentes do Exército que deram 80 tiros no carro em que ele e sua família estavam. O automóvel rumava para um chá de bebê, no Rio de Janeiro.

O significado do título

A expressão “Thug life” sempre foi um termo utilizado no inglês para indicar “vida bandida”. Mas foi o rapper Tupac Shakur, morto em 1996, que deu a essa frase um novo significado: direcionada para todos os marginalizados e excluídos da sociedade, que acabavam entrando no crime devido às condições do sistema e pela falta de oportunidades, em contraste com a meritocracia, que pessoas de classe alta afirmam que existe. Além disso, Thug Life também pode ser usada como um acrônimo para “The Hate U Give Lil’ Infants F*** Everyone” na tradução fica “O ódio que você semeia aos pequenos, f*** todo mundo”. Ao serem criadas à margem da sociedade e em uma cultura de ódio, as crianças crescem sem empatia alguma por seus opressores, e acabam descontando sua raiva e frustrações em toda a sociedade. Por isso a razão do título do filme ser “The hate u give”, inclusive, esse termo “Thug Life” é bastante utilizado na obra, principiante no desfecho da longa metragem, a qual não vou revelar para não decepcionar o leitor com spoilers

Esse é o ódio que estão semeando, um sistema elaborado contra nós”, citação de ‘O ódio que você semeia

O que é Thug Life?

Essas pessoas que são esquecidas pelo Estado e sociedade põem em evidência o racismo estrutural, que está constituído na economia, política e Estado. No Brasil, a escravidão racismo perdurou por mais de 300 anos e quando houve a abolição, em 1888, os negros não tiveram seus direitos garantidos, simplesmente foram jogados à mercê da sociedade. Sem acesso à terra e a qualquer tipo de indenização ou reparo por tanto tempo de trabalho forçado. Muitos permaneciam nas fazendas em que trabalhavam ou tinham como destino o trabalho pesado e informal, precarizado.  

Foto: TeleCine

Em uma entrevista para o Canal Preto no Youtube, a voluntária do Instituto de Filosofia e Ciência Sociais (IFCS), Maria Sylvia, explica que o racismo estruturado foi construído ao longo do século 19 e existe até hoje.  “O Estado começa a tomar uma série de medidas, inclusive legislativas para possibilitar a marginalização de negros. A Lei em 1924 proibia os negros de estudarem; em 1850 as pessoas foram impedidas de comprarem terras […] Passamos a ser vistos como vadios, preguiçosos, prostitutas”, ela complementa que os europeus imigraram para o país para substituir a mão de trabalho escrava, porém, esses tinham direito a terras, algum dinheiro e animais, ao contrário da massa de mulheres e homens negros após a abolição da escravatura.

“Engraçado. Os senhores de escravos também achavam que estavam fazendo a diferença na vida dos negros. Que estavam salvando do ‘jeito selvagem africano’. Mesma m****, século diferente. Eu queria pensar que pessoas como eles parassem de pensar que gente como eu precisa ser salva”, citação de  ‘O ódio que você semeia

“O nosso poder de polícia sempre foi voltado à manutenção do status quo de quem segue os mandamentos da cartilha europeia: branco, cristão, macho. Porque há uma justificativa ideológica por trás de todas as prisões brasileiras abarrotadas de negros, de ter uma maioria de pobres no país que são negros. Esse é um projeto filosófico do próprio grupo que comanda o país”, afirma a primeira doutora negra do país e voluntária do IFCS,  Helena Teodoro para o Canal Preto.

Preconceito velado 

Em “O ódio que você semeia”, boa parte da sociedade (maioria brancos) acredita que o policial que matou Khalil, agiu por legítima defesa. Isso se reflete de forma mais acentuada na escola de Starr (escola de prestígio para brancos, pois o pai de Starr buscava um futuro diferente do seu, e acreditava que a educação proveniente dessa escola ajudaria no futuro da filha). Outro fato perturbador, é quando o tio de Starr, que também é policial e negro, acredita que seu colega agiu em legítima defesa e, ainda, quando questionado por sua sobrinha, ele responde que se fosse em um bairro rico e de não negros, daria uma advertência para o suspeito antes de atirar, exatamente o contrário do que ocorreu com Khalil. Isso mostra a diferença do tratamento que as  pessoas recebem durante abordagens de policiais: quando a cor do suspeito é o que determina as ações.

Tio de Starr, que também é policial e negro, acredita que seu colega agiu em legítima defesa. Foto: Cinemara

Em entrevista à BBC News sobre a morte de George Floyd, o historiador político da Universidade de Princeton, Julian Zelizer, resume que os negros vivem com medo “porque se sentem vulneráveis perante aqueles que deveriam protegê-los”. Ele complementa que é comum encontrar queixas de cidadãos negros americanos nas redes sociais, dizendo sentir que são detidos pela polícia pelo simples fato de serem negros.

“Como podemos andar desarmados se a nossa negritude é a arma que eles temem?”, citação de ‘O ódio que você semeia

Foto: Amantes de trechos

O preconceito velado é quando se torna naturalizado devido ao racismo estrutural. Isso também vem à tona quando uma amiga de Starr, Hailey, acha que o policial agiu em sua própria defesa. São várias as cenas em que Hailey demonstra que é racista, de uma forma indireta. Assim, Starr questiona a amiga se ela percebeu que estava sendo racista, e em resposta, Hailey admite que não e alega que Starr é uma “garota negra inofensiva”. Dessa forma, o filme faz uma reflexão muito importante, mesmo que uma pessoa branca tenha amigos negros, isso não a isenta de ser racista. 

Hailey demonstra que é racista, de uma forma indireta

Quebrar a roda

O longa-metragem “O ódio que você semeia” é uma importante reflexão sobre como o Estado, em especial, a sua força policial e sistema de justiça, inferiorizam as pessoas pela sua cor de pele.  A obra é um retrato poderoso das manifestações e fatos que estamos vivendo nas últimas semanas, e mostra como esse ódio é imposto para os negros, num ciclo de preconceitos, violência e falta de direitos. Assim como Starr, devemos acreditar que nossa voz tem poder e precisamos, sim, denunciar e não ficarmos calados diante de tantas injustiças.

Quebrar a roda que vem operando ao longo de séculos é uma tarefa difícil. Ler livros e artigos, assistir  filmes, etc, além de acompanhar notícias relacionadas a negros são de extrema valia para entender como essa roda funciona e,  principalmente, para compreender seus mecanismos e como quebrá-la!

Foto: TeleCine