Livro do gaúcho Paulo Scott conecta histórias  de racismo e políticas afirmativas

Por: Rebeca Rocha Finkler

“Marrom e amarelo”, vai muito além do que apenas um livro de ficção. Nele encontramos o drama de Federico e Lourenço, irmãos, filhos de Célia e Ênio, mas com uma diferença crucial no Brasil: um negro e o outro pardo. Federico, pardo, é o que narra a história. Ele integra a comissão do novo governo, responsável pelas cotas raciais nas universidades. Entre uma discussão e outra, apresenta elementos importantes para uma reflexão. 

O livro também volta no passado e revê várias fases da vida dos dois irmãos. Indo da infância, passando pela adolescência nos anos 1980 até o momento atual, em que Federico se encontra em Brasília, resolvendo questões importantes. Mas tudo muda na capital do Brasil, quando Derico (carinhosamente chamado pelo irmão), recebe uma ligação de Lourenço, avisando que Roberta, sua sobrinha, havia sido presa. Sem pensar duas vezes, Federico abre mão da comissão e parte de Brasília a Porto Alegre para ajudar seu irmão. A prisão de Roberta está relacionada a assuntos mal resolvidos na adolescência dos irmãos. 

O livro ainda relata atos racistas que ocorreram na infância e na adolescência dos protagonistas. Dentre os vários acontecimentos marcantes, dois me chamaram bastante atenção. Um deles aconteceu na infância, Lourenço com seis anos e Federico com sete. Na época, o mais novo ouviu xingamentos como saci, picolé de piche e gorila de alguns coleguinhas brancos na escola.

“A menina disse “que eu tenho que aprender a alisar melhor o meu cabelo se quiser vir numa festa no Leopoldina”

O segundo ato racista aconteceu com uma prima dos guris. Todos estavam em uma fila, à espera da abertura dos portões para uma festa que iria acontecer na Associação Leopoldina Juvenil, um clube elitizado da capital gaúcha. Federico viu sua prima discutindo com uma das pessoas que estava no grupo. Ao se aproximar, a sua prima relatou que a menina disse “que eu tenho que aprender a alisar melhor o meu cabelo se quiser vir numa festa no Leopoldina.”

Em outro trecho, um amigo do futebol que seu pai fazia parte questionou Federico se ele era mesmo filho do Ênio, afinal, era branco demais para ser seu filho. Outro ponto a se destacar é o fato de até os professores, funcionários e alguns alunos da escola, na época que os irmãos eram crianças, questionarem se eles eram mesmo irmãos de verdade, de sangue e não adotados.

Nota-se que a cultura racista está impregnada na sociedade desde sempre. Mesmo com 56,10% da população brasileira se declarando negra, a desigualdade no país e a violência com as pessoas negras, ainda é muito grande.

O autor, Paulo Scott