Em um disco que, felizmente, não pode ser limitado a somente um gênero, as 12 faixas trazem a narrativa crescente de uma paixão que chega ao fim

Por: Rebecca Mistura

A complexidade de Tyler, The Creator novamente aparece como o ingrediente principal que move seu mais recente álbum, intitulado IGOR (2019). Em arranjos detalhadamente pensados, que vão desde a construção conceitual dos discos e clipes, até uma mistura de sons que criam uma estética diversificada e sonoridade que consegue carregar mesmo os temas mais ásperos, o artista californiano se consagra, a cada nova produção, como uma referência musical que ultrapassa as barreiras dos gêneros musicais.

Em IGOR, é possível identificar a divisão do álbum em duas partes em termos de narrativa, porque sonoramente o disco segue uma linha geral no rap, hip hop, pop e técnicas de lo-fi, estilo de som mais barato, que utiliza gravações de “baixa fidelidade” – daí o nome low-fidelity. Na história, acompanhamos um relacionamento passado de Tyler: desde o momento em que o artista se apaixona pelo rapaz em questão, até o momento do término. No primeiro ato, Tyler canta como sua própria persona, depois, no segundo, assume seu alter ego Igor.

Igor’s Theme, a música de abertura do álbum, é uma introdução ao que será ouvido a seguir. A faixa representa a paisagem sonora do disco, com as mixagens em lo-fi e synth. Daí o título “Tema de IGOR”.

O artista conclui outro álbum conceitual, dessa vez focado no amor – temática atemporal e que consegue perpassar todos os gêneros agregados à peça.

Earfquake, música mais famosa do álbum, é o que dá a largada ao relacionamento de Tyler. O otimismo representa a paixão inicial, mas apesar disso, é possível notar traços negativos que já aparecem no início: “Não vá embora, é minha culpa”, canta o refrão. Nas faixas seguintes, em vários momentos Tyler se coloca como fantoche na relação, como na linha de I think: “I’m your puppet”.

Running out of time, quinta faixa, marca o fim da primeira parte do álbum e também o fim do relacionamento, pela perspectiva de Tyler. A letra, notavelmente mais deprimente, fala sobre se perder e a sensação de se afogar. Além disso, é revelado o possível motivo que levou ao término do namoro: a presença de uma mulher na vida de seu ex-companheiro, na linha “Eu preciso que ela saia de cena”.

Nas últimas quatro faixas, agora na perspectiva de Igor, o artista parece finalmente aceitar, gradativamente, que o amor entre eles acabou – e também a relação. Após a faixa A boy is a gun, em que ele fala do companheiro como uma ameaça a ele – figurativamente, no campo dos sentimentos -, Tyler passa a enxergar tudo com mais nitidez, embora, na track final, ainda se pergunte: Are we still friends? (Ainda somos amigos?). Finalizando com beats e tom de voz mais carregados que o restante do disco, o artista conclui outro álbum conceitual, dessa vez focado no amor – temática atemporal e que consegue perpassar todos os gêneros agregados à peça.

Earfquake, música mais famosa do álbum, é o que dá a largada ao relacionamento de Tyler.
Na faixa A boy is a gun, Tyler fala do companheiro como uma ameaça a ele – figurativamente, no campo dos sentimentos