Foto: Vanda Aparecida Fávero Pino- Entardecer na Arvinha, junto ao pé do Cambará, símbolo da comunidade.

Parte 2 da série Quilombos: uma luta por direitos que ultrapassa gerações

Por Caroline Ronsoni e Gabrieli Corrêa

Na região norte do Estado, a 329 km da capital gaúcha, entre os municípios de Coxilha e Sertão, está localizado o quilombo da Arvinha, reconhecido como comunidade remanescente pela Fundação Cultural dos Palmares. A comunidade formou-se oficialmente em 1889 de um modo peculiar para os dias atuais, mas recorrente na época. Arvinha surgiu por meio do testamento do latifundiário Francisco de Barros Miranda, que deixou as terras para os escravos devido a uma relação extraconjugal com a escrava Cezarina.

Miranda era casado com Ana Prudêncio de Souza Duarte, e trabalhava no município de Passo Fundo como legislador. Durante o período da Guerra do Paraguai ganhou grandes quantidades de terras, cerca de 1.741 hectares, que iam de Sertão até Passo Fundo. Durante o casamento manteve relações com a escrava, com a qual teve cinco filhos: Silvana, Querino, Querina, Leonor e Antão. Para que a família “oficial” não descobrisse a traição, o coronel fez um contrato de compra e venda de 77 hectares a Cezarina, na condição de garantir o sustento dos filhos bastardos e o sigilo sobre a infidelidade. 

“Para não dizer que ele deu as terras, vendeu por réus. Está na escritura escrito com pena molhada na tinta, assim como era feito na época”, relata Celita Meira, 63, neta da escrava Silvana. As terras foram divididas entre os filhos e passadas de geração em geração, mas nesse processo houve a venda de alguns pedaços para os fazendeiros vizinhos “a preço de banana”, como comenta. Somente em 2001 a comunidade iniciou os trâmites para o processo de reconhecimento, conquistando-o em 2005. “A Mara Orta veio fazer reunião e dizer que a gente tinha direito, senão nem sabia. Foi aí que começou mais reuniões, indo de lá para cá, medição de terras e visitas do pessoal de Porto Alegre”, finaliza Celita. 

Hoje a luta do quilombo da Arvinha é por conquistar a titulação das terras e seus direitos que, ao que parece, está longe de acontecer. “Nós sabemos que temos direito, mas ainda não ganhamos. Um apóia e o outro não, aí fica difícil. No tempo do Lula até era para sair, mas agora entrou esse [Bolsonaro] e falou que não vai dar terra para indígena e quilombola, é muito contra nós”, desabafa. Enquanto esse momento não chega, novos descendentes vão nascendo, como é o caso da família de Celita que está na sétima geração com o nascimento da mais recente bisneta, e assim trazendo novas esperanças.

A comunidade tem 23 famílias residindo no local, que vivem basicamente da agricultura através do plantio de milho, soja, feijão e mandioca, e pequenas criações de gado para consumo próprio, mas com a escassez de trabalho muitos acabaram mudando de município. Os mais novos que permanecem no local, deslocam-se para Sertão ou Coxilha para poder completar seus estudos. Rita Tatiane da Silva Miranda, 32, é um desses exemplos, diariamente vai até Sertão para concluir a formação no curso técnico em comércio, ofertado pelo IFRS. Graças à oportunidade de estudar, tornou-se uma líder do quilombo, “onde a gente é chamado para falar de nossa comunidade, eu tô sempre presente. Quando precisa lutar por algum direito, eu vou lá e busco junto à comunidade e autoridades”, conta Rita.

A Arvinha é uma forma de compreensão, em parte, da história da região: “Mostra de uma forma mais clara como se deu a formação das cidades como Passo Fundo, Sertão e Coxilha. Sua formação esteve ligada à realidade do cativeiro que havia e com uma elite política e rural do período”

Apesar das dificuldades enfrentadas, o orgulho de carregar consigo a história de luta, fala mais alto. “A gente é muito importante, símbolo de resistência!”, conclui a quilombola Celita. Para Rita o sentimento não é diferente “ eu amo a minha comunidade e gosto de lutar por ela”. Para Áxel, que não pertence à comunidade, mas dedicou os estudos para compreender e dar visibilidade aos quilombolas, a Arvinha é uma forma de compreensão, em parte, da história da região. “Mostra de uma forma mais clara como se deu a formação das cidades como Passo Fundo, Sertão e Coxilha. Sua formação esteve ligada à realidade do cativeiro que havia e com uma elite política e rural do período”. O historiador lamenta ao ver a realidade em que essas pessoas se encontram hoje: “um cenário de esquecimento pelos órgãos públicos como INCRA, FCP, MP e o Judiciário”. 

Rita durante uma live promovida pelo IFRS Campus Sertão com a professora Vanda Fávero, para falar sobre “Histórias das comunidades quilombolas de Sertão: território, memória e resistência”.

Origens do nome “Quilombo da Arvinha”

No princípio, o termo utilizado para se referir aos povos cativos era Mocambo, porém, no final do século XVII tem-se o primeiro registro em que se emprega o termo “quilombolas”, na documentação colonial de Minas Gerais e Pernambuco. Portanto, quilombo/quilombola é uma denominação do “homem branco”. No continente africano existe o termo “kilombo”, que significa acampamentos improvisados. 

A comunidade de Arvinha faz referência a um pé de Cambará centenário que brotou de um palanque. Na época dos tropeiros, a árvore era ponto de descanso desses homens, e por chamá-la de “Arvinha”, foi dado esse nome às terras. Em outubro de 2019, a árvore foi arrancada, com a justificativa que se desconhecia a sua importância para a região, além de atrapalhar no momento de passar veneno na lavoura. A pedido dos moradores quilombolas, a árvore foi replantada.

Mas a luta para proteger a “arvinha” não terminou. Precisou da intervenção do Ministério Público Federal (MPF). Os representantes legais de quem tem a posse da terra sugeriram realocar a árvore em outro ponto da lavoura, tirando ela de seu lugar original. Após muita argumentação e um extenso relatório elaborado pela pesquisadora Vanda Fávero e sucessivos pedidos dos comunitários do início ao fim do processo para que sua história fosse respeitada, mantendo a “arvinha” de acordo com a cartografia social da comunidade, na última terça-feira (23) foi acordado que um novo cambará será plantado ao lado do “tronco velho” que permanecerá em seu lugar de origem, além de proteger o local por meio de um cercado, identificando sua importância através de uma placa.

Outra conquista é o acesso dos comunitários até o local para poderem contar um pouco da sua história para os jovens da comunidade e para quem visita o quilombo. Cabe ressaltar que o ponto principal dessa luta é a preservação desse território que carrega muitas memórias e que agora continua sendo protegido pela Comunidade Quilombola da Arvinha.

Rita durante uma live promovida pelo IFRS Campus Sertão com a professora Vanda Fávero, para falar sobre “Histórias das comunidades quilombolas de Sertão: território, memória e resistência”.

Segue abaixo uma galeria de fotos que mostra um pouco mais da comunidade da Arvinha e da sua história: