Consultamos um livro da premiada com o Nobel, Toni Morrison, e declarações da última Miss Universo Zozibini Tunzi para saber mais sobre autoaceitação diante dos padrões que predominam

Por: Lavínia Fritzen e Rebeca Finkler

“Toda noite sem falta, ela rezava para ter olhos azuis. Fazia um ano que rezava fervorosamente. (…) Levaria muito, muito tempo para que uma coisa maravilhosa como aquela acontecesse. Lançada dessa maneira na convicção de que só um milagre poderia socorrê-la, ela jamais conheceria a própria beleza. Veria apenas o que havia para ver: os olhos das outras pessoas.”

Este é um trecho do livro O olho mais azul, de Toni Morrison, escrito em 1970. Ele retrata a exclusão sofrida pelos negros por consequência do racismo. Isso tudo a partir do olhar de uma criança negra, já com o entendimento sobre os padrões de beleza. Esse foi o primeiro livro de Toni Morrison, que mais tarde, em 1993, foi a primeira  mulher negra a ganhar o prêmio Nobel de Literatura.

Toni Morisson foi a primeira negra a ganhar o prêmio Nobel de Literatura
Imagem: Reprodução/Internet

O olho mais azul traz a relação das personagens de Toni Morrison com suas aparências. Suas vidas e suas personalidades são muitas vezes definidas por determinados padrões de beleza. Mostra também como o cinema de Hollywood, especialmente daquela época, formava ideias de conduta e estética para a sociedade americana. A autora destaca como essas imagens feitas pelo cinema não refletiam o público ou a sociedade tal como ela era, produzindo, ao invés disso, padrões de beleza sempre relacionados ao corpo branco e com traços europeus. As consequências disso foram inúmeras mulheres negras com o psicológico afetado, principalmente na década de 1940.

Um depoimento perto de nós

No entanto, estamos em 2020, mas esse imperativo, de que os negros teriam que se encaixar nos padrões de beleza estipulados, ainda permeia a sociedade. O paradigma de que, para ser bonito, é preciso ser magro, ter cabelo liso e ser branco, continua presente de forma frequente em comerciais, novelas e cinema.

A estudante de Direito da Universidade São Judas, Joyce de Sousa da Mascena, é negra e conta que já ouviu frases que a fizeram se sentir menos bonita. “Já me perguntaram coisas do tipo: “Já pensou em alisar o cabelo?”; “Por que você não prende o cabelo?” ou “Já pensou em passar algo para diminuir o volume?”, desabafa.

Joyce de Sousa da Mascena já ouviu frases preconceituosas sobre o seu cabelo
Imagem: Instagram de Joyce

Por outro lado, hoje esses termos não afetam mais Joyce. “Hoje em dia me considero tão bonita que chego a ser perigosa. Amo tudo em mim. Meu cabelo, minha pele, meu corpo fora do padrão… Mas já odiei e me culpei por ser assim, foi um processo de descontração bem longo”, conta.

Joyce ainda fala  “não queremos aceitação, nós só queremos ter espaço para sermos quem de fato somos. Acho que é falta empatia, sem dúvida, e empoderamento”.

A representação da mulher negra nos concursos de beleza

Pela sexta vez na história uma mulher negra conquistou o título do Miss Universo. Zozibini Tunzi foi a terceira vencedora da África do Sul e a primeira premiada não branca do país. Antes dela, a última mulher negra a levar o título foi a angolana Leila Lopes, em 2011. 

Zozibini Tunzi foi a terceira vencedora da África do Sul
Imagem: Reprodução/Internet

Em seu discurso para o Miss Universo em 2019, Zozibini disse “Cresci em um mundo onde uma mulher que parece comigo, com meu tipo de pele e meu tipo de cabelo, nunca foi considerada bonita. E acho que está na hora de isso parar hoje. Quero que crianças olhem pra mim e vejam meu rosto e quero que vejam seus rostos refletidos no meu”.

Ao ser questionada sobre a última música que ouviu, Zozibini largou outra lição sobre a beleza da mulher negra. “Eu gosto de me autoafirmar toda manhã. Eu me olho no espelho e digo ‘você é linda, você é capaz, você é inteligente’. Essa semana eu ouvi ‘Brown Skin Girl’ [de Beyoncé], para ativar a magia da mulher negra”, respondeu.

No Miss Brasil, o evento que acontece anualmente desde 1964, em apenas três edições tivemos mulheres negras sendo campeãs. Em 1986, a gaúcha Deise Nunes foi a primeira mulher negra eleita no concurso. 

Depois de 30 anos, o jejum foi quebrado por Raíssa Santana, que em 2016 tomou posse da coroa. No mesmo ano o Miss Brasil registrou o maior número de participantes negras, totalizando seis participantes. No ano seguinte, em 2017, quem entrou para o time foi a piauiense Monalysa Alcântara. 

Monalysa Alcântara foi Miss Brasil em 2017
Imagem: Reprodução/Internet

Monalysa é filha de uma mãe branca, de cabelos lisos. A jovem já relatou em uma entrevista para a Band em 2017, que não se reconhecia negra quando criança. “Quando somos novas, sentimos necessidade de ter um espelho e eu não tinha porque minha mãe era diferente de mim fisicamente. Não me achava bonita, não me reconhecia como negra. Eu dizia que era morena, parda, qualquer coisa, menos negra, que é aquilo que eu realmente sou”, disse. Entretanto, ela afirma que essa falta de autoestima não faz mais parte de sua vida. “Hoje eu acredito tanto na minha beleza que eu posso ter o cabelo crespo, liso, posso não ter cabelo que eu vou continuar me achando bonita, porque eu aprendi a me aceitar do jeito que eu sou”, finalizou.