Grafitti na praça Tamandaré em Passo Fundo – Foto: Lucas Marques

Por: Bruno Roso e Victor Ferreira

Conheça as origens do hip hop e das batalhas de slam que se espalharam pelo mundo, chegando inclusive a Passo Fundo

Foi no bairro do Bronx, em Nova Iorque, que o DJ jamaicano Kool Herc mudou os rumos da música. Herc tocava apenas funk e soul, ritmos que faziam muito sucesso na década de 70 com James Brown e James Clinton. Desde que começou a adicionar batidas a esses estilos, a cultura hip hop se transformou em uma grande potência da música, da dança, da arte e da moda. Atualmente o hip hop é extremamente conhecido e tem artistas como Eminem, Tupac Shakur, The Notorious B.I.G, entre os mais renomados. 

No Brasil, o movimento rap começou na década de 1980. Mas não diferente do movimento que ganhava força em Nova Iorque, aqui os artistas começaram a ganhar audiência e foram cada vez mais conseguindo o seu lugar. O primeiro álbum exclusivo de rap foi a coletânea “Hip-Hop Cultura de Rua”, nela foi apresentado o trabalho de Thaíde e DJ Hum, MC Jack e Código 13. 

Logo em seguida um dos maiores grupos de rap brasileiro deu as caras para o povo: Racionais MC’s. Formado por Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay, o grupo apresentou um rap voltado para a desigualdade na periferia e as injustiças sociais. Outros artistas e grupos fizeram sucesso no decorrer dos anos 90 como Sabotage, Facção Central, Ao Cubo e atualmente com Emicida, Criolo e Djonga.  

O Hip Hop em Passo Fundo e na região 

Joice apresentando a sua poesia. Foto: Arquivo pessoal

Nos últimos anos têm acontecido alguns movimentos para o rap ter mais valorização em Passo Fundo e na região. Com esse intuito foi criado o Slam, evento em parceria com o Sesc. O Slam é a poesia escrita para ser dita. Um dos criadores do evento, Cássio Borges, comenta como foi a iniciativa: “Quando eu tive a ideia de atrair um público jovem e da periferia para dentro do Sesc, percebi que eu tinha a ideia, mas não conhecia nada de cultura hip hop, na teoria sim, mas na vivência zero”, explica Cássio. Com ajuda de pessoas que integravam o movimento há mais tempo na cidade, o evento saiu do papel.

Os participantes, em sua maioria, eram alunos que tinham como objetivo escrever um texto autoral e dizê-lo no palco do Teatro do Sesc. “Tinham até 3 minutos para mandar o seu recado, foram etapas eliminatórias e a grande final na Feira do Livro em Passo Fundo”, conta Cássio. Na oportunidade, a grande vencedora do primeiro campeonato de Slam em Passo Fundo foi a estudante Joice Fagundes dos Santos.

“Sempre fui apaixonada por poesia e quando conheci a cultura Hip Hop e a poesia falada eu vi que aquilo que costumava escrever poderia chegar as outras pessoas que pensam como eu”

A ganhadora conversou com a ComArte e nos autorizou a compartilhar sua poesia na íntegra que você confere ao final da matéria. Ela contou que entrou no mundo do Hip-hop escrevendo poesias como forma de aliviar a tensão. “Eu costumava escrever apenas para livrar um pouco aqueles sentimentos que ficam presos em mim, e achei essa maneira de poder me expressar. Sempre fui apaixonada por poesia e quando conheci a cultura hip hop e a poesia falada eu vi que aquilo que costumava escrever poderia chegar as outras pessoas que pensam como eu”, comentou Joice.

O título serviu de estímulo para ela continuar a trajetória na cultura. “Com certeza, a cada etapa do concurso e depois de vencer a competição me senti motivada a continuar escrevendo e principalmente a incentivar tantas outras pessoas que acabam não acreditando no potencial que tem dentro delas. Pretendo no futuro, continuar escrevendo e seguir nessa área do Slam que eu me sinto tão representada”, falou a artista.

Poesia de Joice Fagundes dos Santos2019:

Cresceu . Vendo apenas a perfeição como o padrão. Princesa, indefesa e submissa . Sem nenhuma motivação. A maquiagem cobrindo tudo aquilo que a deixa tão angustiada. A roupa deve ser apertada, mas a boca sempre calada. Os trajes brilhantes mascaram a mente alienada. Sua história só tem um final feliz se um homem aparecer. Ela só vai acordar se o príncipe o beijo lhe oferecer. Mas ela não pode reclamar. Ela deve se comportar. E ela deve idolatrar a imagem de algo. Que não importa como, um dia. Ela deve se tornar. Mas ela não quer isso. Ela quer ser mais. Ela quer se revela. E no momento que enfrentou o patriarcado. Quando quis mudar seu significado. Ela começou a se espelha. Na voz que ela queria escutar. E quando ela percebeu, agradeceu. Afinal, a voz da bruxa representava a tortura. A bruxa era mais que uma perfeita escultura. Era essa voz que lhe emocionava. Que lhe chamava pra luta. Sobre o medo foi questionada. Mas aquilo era a ruptura de um padrão escultural da mulher afeminada. A mulher nessa versão não aceita a submissão. Dona de si, com sua verdade estampada. Numa sociedade manipulada. Ela não queria ser comandada. Ela queria se libertar. E queria poder um dia se lembrar. De que não precisava ser sem ousar. Ela queria ressuscitar os ideais de suas grandes inspirações. Queria ser Joana D’arc e não iria na fogueira queimar. Queria ser Lilith, a primeira mulher de Adão. Não aceitar a submissão e a igual buscar. Seguir ao lado de outras lutando. Com sua ira de liberdade esse mundo incendiando. Toda a história mudando. Em uma versão. Que o significado de imperfeição. Não existe a rejeição. E sim a união. De todas nós que um dia nos submetemos a dominação. Agora assumindo o comando. Da sua vida, do seu coração. Do seu destino que é inspiração. Para aquelas que sonham em dizer não. Rompendo com o padrão. Buscando dentro de si a ativista  bruxa, ou feminista. Não importa a denominação. A sociedade precisa aceitar . Que agora nós somos a nossa própria representação.

Veja aqui no link o ensaio fotográfico de Lucas Marques