No país, a cada 100 pessoas assassinadas, 75 são negras

Por: José Henrique Sodré e Lucas Marques

Durante a maior pandemia do século, seria difícil imaginar um assunto que ocupasse um espaço quase absoluto no debate público além da repercussão mundial do novo coronavírus em si. Porém, ao longo das últimas semanas, o caso George Floyd nos provou o contrário. Repentinamente, o mundo se voltou para a cidade metropolitana de Minneapolis, nos Estados Unidos, e inúmeras questões sobre a brutalidade policial tomaram conta dos noticiários e redes sociais. O catalisador? O desumano assassinato de George Floyd por um policial branco, ocorrido após o oficial pressionar seu joelho no pescoço do homem negro por nove minutos durante sua prisão.

As cenas foram filmadas e viralizaram em uma escala pouco vista anteriormente. No dia seguinte ao assassinato, ocorrido em 25 de maio, tiveram início protestos pela morte de George. Com um número crescente de adeptos, as manifestações chegaram ao pico de milhares de pessoas nas ruas de Minneapolis. Os protestos pela morte de George Floyd e contra a brutalidade policial, além de temas como o antirracismo, também ocorreram em mais de 2 mil cidades americanas espalhadas pelos 50 estados dos EUA e em outros 60 países, incluindo o Brasil. 

Conforme dados do Bureau of Justice Statistics (BJS), em 2018 a taxa de aprisionamento de homens negros era quase seis vezes maior em comparação a homens brancos. Já para mulheres negras, as taxas quase dobram, atingindo quase duas vezes a mais em comparação às mulheres brancas. No ano de 2019, de acordo com levantamento do Washington Post, cerca de mil pessoas foram mortas a tiros pela polícia nos Estados Unidos. Para homens negros, essas taxas são três vezes maior em comparação a homens brancos, com 6.6 mortes por milhão de habitantes, contra 2.5, respectivamente. Porém, mesmo esses altos números não chegam perto das mortes causadas por policiais no Brasil, 5.804, de acordo com dados oficiais de 25 estados brasileiros e do Distrito Federal, que foram levantados pelo G1.

O perfil 

Uma pesquisa realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) aponta que no Brasil, a cada 100 pessoas assassinadas, 75 são negras. Entre os anos de 2007 e 2017, o número de negros vítimas de homicídio cresceu 33,1%. Os cinco estados com os maiores índices estão no Nordeste. No país, 75,4% da pessoas que foram mortas em intervenções policiais, entre 2017 e 2018, eram negras. O perfil majoritário era de homens, entre 20 e 24 anos, tendo apenas cursado o ensino fundamental.

Mulheres negras

A alta taxa de mulheres negras vítimas de algum tipo violência, seja ela doméstica ou sexual, preocupa. Em 2017, 66% das mulheres vítimas de homicídio eram negras. No que tange o feminicídio, que é o assassinato intencional de pessoas do sexo feminino, 61% das mulheres vítimas do crime entre 2017 e 2018 eram negras. As mulheres negras também sofrem mais violência sexual: 51% das mulheres vítimas de estupro entre 2017 e 2018 eram negras, além de sofrerem mais assédio, 40,5%.

Em 2020, além da morte do garoto João Pedro, outro caso que causou indignação foi a morte do engenheiro Gustavo dos Santos Amaral, na cidade de Marau. Em abril deste ano, Gustavo foi baleado por um policial após o mesmo ter confundido o engenheiro com um criminoso que a Brigada Militar estava perseguindo. O brigadiano alega que acreditou que o celular que o cidadão estava segurando era uma arma. 

Após dois meses de investigação, a Polícia Civil inocentou o PM que teria efetuado o disparo. De acordo com a GaúchaZH, o delegado Norberto dos Santos Rodrigues, responsável pela investigação, afirmou que o que aconteceu naquela ocasião foi uma “legítima defesa imaginária”. Irmão gêmeo de Gustavo, Guilherme dos Santos Amaral disse que a confusão foi causada por causa de Gustavo ser negro. No país, a chance de um jovem negro ser assassinado é quase três vezes maior do que a de um jovem branco.