Alunos de três universidades gaúchas produziram um guia para combater o racismo no exercício profissional

Por Camila Pellin e Franciele Moraes | UPF
Turma de Laboratório de Jornalismo Impresso e Online | UCS
Gabriela Cabral - projeto “É Coisa de Preto?” | Unisc




Certas palavras e expressões populares são amplamente utilizadas no vocabulário cotidiano, mas muitas vezes não há uma reflexão sobre o verdadeiro significado por detrás delas. Frases e termos racistas são comumente empregados e não há correção: isso faz parte do racismo estrutural. Não é diferente com jornalistas. Por isso, a necessidade de um manual de jornalismo antirracista, que vai além de mostrar palavras que não devem ser utilizadas, mas que traga também orientações para o fazer jornalístico, no compromisso de combater o racismo.

Os profissionais da área devem se expressar de forma a não agredir ou inferiorizar pessoas. Como o jornalismo é um serviço para todos, independente de classe social, raça ou crença, é fundamental ter em mente o papel social desse ofício, além da necessidade de ouvir todas as vozes, sem estereótipos e preconceitos. 

Dessa forma, em parceria com os cursos de jornalismo da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) e da Universidade de Caxias do Sul (UCS), elaboramos na ComArte um manual de redação, com termos que devem ser evitados e dicas para a produção de um jornalismo presente na luta antirracista. 

Termos e expressões que devem ser evitados

  • Cabelo ruim/pixaim/duro/de bombril/carapinha/mafuá/piaçava/xaxim: Por vários séculos, causaram a negação do próprio corpo e a baixa autoestima entre as mulheres negras sem o “desejado” cabelo liso e sem volume. Indústrias de cosméticos, muitas originárias de países europeus, já se beneficiaram do padrão de beleza que excluía os negros. Não existe cabelo ruim, existe cabelo afro, crespo, cacheado. 
  • Criado-mudo: O nome da mesa de cabeceira vem de um dos papéis desempenhados pela criadagem dentro de uma casa: o de segurar as coisas para seus senhores, antes desse móvel existir. Como o empregado não poderia fazer barulho para atrapalhar os moradores, ele era considerado mudo.
  • Cor de pele: termo utilizado para denominar o lápis de cor ou tinta com tonalidade rosada semelhante à cor de pele de pessoas brancas. Fazer a comparação de apenas essa determinada cor como sendo o tom de pele apropriado você desvaloriza qualquer outra tonalidade de pele.
  • Denegrir: termo recorrente quando alguém está sendo difamado. Visto como pejorativo e seu real significado é “tornar negro”. Se tornar algo negro é maldoso temos um caso de racismo. Pode ser trocado por difamar, caluniar. 
  • Esclarecer/claramente: vem da ideia de claro/branco como bom e escuro como ruim. Poder ser substituído por explicar, mas ainda é muito utilizado no meio jornalístico. 
  • Escravo: Utilize o termo ‘escravizado’ ao invés de ‘escravo’. A palavra ‘escravo’ significa privado de liberdade, mas em estado de servidão; já ‘escravizado’ remete a alguém que foi forçado a essa situação. 
  • Inveja branca: Mais uma expressão que associa o negro ao comportamento negativo. Inveja é algo ruim, mas se ela for branca é suavizada.
  • Humor Negro/ Ovelha Negra/ Magia Negra/ Lista Negra: assim como inveja branca, outras inúmeras expressões são utilizadas em que a palavra ‘negro’ representa algo pejorativo, prejudicial, ilegal. 
  • Lado negro da força: A franquia de filmes “Star Wars” usava a expressão (para designar forças do mal). A expressão foi mudada para “lado sombrio da força”.
  • Mercado negro: aquele que promove ações ilegais. Mais uma vez a palavra ‘negro’ como sinônimo de ilícito. 
  • Morena (o): Muitas pessoas acreditam que chamar a pessoa de negra é ofensa e por isso, tentam amenizar com a palavra morena.
  • Mulata (o): A palavra vem de mula, um animal híbrido originado pela reprodução de burro com égua. Correspondia ao filho do homem branco com a mulher negra. A solução é: esqueça palavras como mulato, moreno (pele) e pardo. Se refira como negro mesmo. Dentro da população negra existem variados tons de pele.

10 dicas para um jornalismo antirracista

  1. Utilize fontes negras em suas matérias, não apenas no dia da consciência negra, por exemplo; 
  2. Ao fazer cards para redes sociais, utilize imagens destacadas que mostrem negros; 
  3. Divulgue por meio de notícias e reportagens o trabalho de pessoas negras: cantores, escritores, atores, cineastas, etc; 
  4. Consuma conteúdos produzidos por pessoas negras (essa dica é válida para todos, independente da profissão); 
  5. Estude sobre a história dos negros (essa dica também é válida para todos, independente da profissão); 
  6. Questione a estrutura da redação em que está inserido, se há pessoas negras no seu ambiente de trabalho e se possível, faça sugestões à chefia para a contratação delas. Diversidade sempre é algo positivo;
  7. Procure pautas que denunciam o racismo estrutural e a falta de negros nos ambientes mais “elitizados”; 
  8. Faça matérias que mostrem o lado positivo da cultura negra, não apenas quando um negro está envolvido em um crime;
  9. Em notícias policiais, não utilize “homem negro rouba” pois o contrário não é visto: “homem branco rouba”. A cor da pessoa não tem a ver com o caráter dela;
  10. Quando se trata de alguma notícia envolvendo pessoas negras, geralmente se referem a estas como “homem negro”, “mulher negra”, “jovem negro”. Isso acaba tirando a identidade dessa pessoa. Lélia Gonzalez diz: “Mulher negra tem que ter nome e sobrenome, se não o racismo coloca o nome que quiser nela”. Enquanto comunicadores, é importante devolvermos por meio da nossa forma de comunicar a identidade que foi roubada das pessoas negras por conta da escravidão e do racismo.

Leia também na ComArte:

“Entreviste um negro: por um jornalismo plural, inclusivo e transformador”

Outra dica para produzir jornalismo na perspectiva antirracista é um banco de fontes público e colaborativo, que começou a ser criado recentemente. Neste documento, é possível encontrar fontes de diversas áreas para que sejam consultadas em notícias e reportagens. É só acessar e procurar pelo profissional que melhor se encaixe na sua pauta, de acordo com a  especialidade.