Parte 3 da série Quilombos: uma luta por direitos que ultrapassa gerações

Por: Caroline Ronsoni e Gabrieli Corrêa

No município de Sertão, ao norte do Estado do Rio Grande do Sul, está localizada a Comunidade Remanescente Quilombola da Mormaça.  O pedido de reconhecimento de suas terras se deu em 2003, amparado na Lei Federal n.º 9.784/99. Assim, em 2006, recebeu a certificação pela Fundação Cultural dos Palmares. Agora, o quilombo aguarda pela titulação do território, correspondente a 410 hectares de terra, segundo as demarcações do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA).

Com o crescimento do plantio no entorno das terras e a escassez de trabalho, muitos moradores acabaram saindo da comunidade, ficando até o presente momento apenas 15 famílias, graças aos idosos. Porém, às vezes, alguns jovens voltam para  buscar refúgio em suas raízes. “Quando é dia de festa no quilombo, jovens e velhos, todo mundo se ajunta. A gente sente que aqui dentro é diferente, e mesmo quem é de fora e conhece a Mormaça, diz a mesma coisa. A solidariedade é comum entre as pessoas da comunidade”, conta Fernanda Souza de Oliveira, tataraneta de Firmina Vieira, mulher que deu origem à comunidade.

A subsistência da comunidade gira em torno do plantio de batata doce, feijão, mandioca, milho, amendoim e hortaliças, além dos derivados dos animais de engorda. Para complementar a renda que, em boa parte advém dos programas de benefícios como aposentadoria e Bolsa Família, trabalham com bicos de serviços gerais.

A origem do quilombo

No passado, as terras pertenciam ao fazendeiro Amâncio de Oliveira Cardoso,  co-cunhado de Francisco de Barros Miranda, sinhô dos ancestrais da Comunidade Quilombola da Arvinha. Como de costume na época, “senhores de terra” utilizavam mão de obra escravizada para o trabalho em suas terras.  Entre eles estava Firmina Vieira, a qual ele ganharia de herança de sua mãe em 1863, quando ela tinha apenas cinco anos de idade. Durante anos, Firmina trabalhou na casa do proprietário com serviços domésticos. Ainda quando jovem iniciou um relacionamento com Elisbão Luiz Vieira, com o qual teve seis filhos: Cândida, Gervásio, Ottilia, Laurentina, Francisca e Justimiano. 

Em 1884 a escrava receberia do proprietário a sua libertação, porém na época tinha três filhos pequenos e não podia abandonar o trabalho, permanecendo por lá por mais algum tempo. Ao sair, juntou-se com Elisbão e teve seus outros três filho, inclusive Francisca, a Chica Mormaça, protagonista que deu nome à comunidade. Assim, o casal se instalou nas matas de araucária que cercavam a propriedade. Aos poucos chegaram andarilhos, que eram chamados de Mulambos, e outros escravos que foram libertos após a abolição da escravatura em 1888. A população que ali se juntava via a comunidade com um local que podia abrigá-los com mais tranquilidade e segurança.

A comunidade de Mormaça abriga hoje 15 famílias. Foto: Vanda Aparecida Fávero Pino.

Os saberes de Chica Mormaça 

Francisca, conhecida pelo apelido de Chica, era a quinta filha de Firmina, nascida por volta de 1892/1894 (não se tem um registro certo). Em 1911, casou-se com Luiz Bernardo da Cruz, conhecido por Mormaço, do qual herdou o sobrenome, passando a se chamar Francisca Vieira Cruz. Em referência ao esposo, a comunidade chamava-lhe de “Chica Mormaça”. Com ele teve quatro filhos.“Esta história o seu Pedrinho, neto da Chica Mormaça, que conviveu com ela até os vinte anos de idade, sempre conta”, lembra Fernanda. 

Chica Mormaça é a personagem central da comunidade, sendo símbolo da memória e identidade desse povo. Ela possuía os saberes da cura através das plantas medicinais e das  rezas que fazia para todos os tipos de problemas, desde plantação e criação, até questões de família e finanças. Além disso, ainda possuía o dom de “ajudar as crianças a virem ao mundo”, por meio do seu trabalho de parteira. Todos esses conhecimentos e dons foram repassados à Dona Nena, que neste ano completou 100 anos de idade.  Segundo ela, na região de Volta Grande, “todo mundo nasceu pelas mão da Mormaça”.

Para preservar essas histórias e conhecimentos, desde 2015, a Cáritas Arquidiocesana de Passo Fundo promove o Encontro das Comunidades Quilombolas de Sertão, a fim de promover um momento de celebração e partilha. Nessa grande festa é sempre realizada uma feijoada, que é feita pelo Seu Adair, pai da Fernanda, e demais membros do quilombo. “ Essa é uma das coisas mais bonitas que acontecem em nossas comunidades de uns tempos para cá. No tempo dos nossos ancestrais, eles também se juntavam com os amigos e parentes da Arvinha, porque as outras comunidades formadas por pessoas brancas proibiam que os pretos frequentassem seus bailes”, conta Fernanda.

Durante uma conversa com a pesquisadora Vanda Fávero, Dona Nena recorda as histórias que viveu, junto com familiares e amigos da Mormaça, principalmente das “Empreitadas” que eram realizadas por eles.

O sentimento de pertencimento 

Fernanda, 30, é uma das jovens que precisou sair da comunidade para poder dedicar-se aos estudos. Com o desejo de ampliar seus conhecimentos e levar o nome do quilombo para outras áreas, ingressou, em 2011, no curso de Tecnologia em Gestão Ambiental e hoje no Curso de Formação Pedagógica de Docentes para a Educação Básica e Profissional no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul – Campus Sertão, mesma instituição em que graduou-se. Para ela, poder levar a história de suas origens para fora do seu território e, em contrapartida, trazer novos saberes, é fundamental. “É muito importante para mim aprender e poder passar para novas gerações, contar um pouco sobre a ancestralidade da minha trajetória de vida para que as pessoas possam entender como se formou o nosso Quilombo da Mormaça”, enfatiza a quilombola.

Fernanda em Bento Gonçalves durante apresentação do projeto “Narrativas Orais Quilombolas”. Está envolta em uma “Capulana” um pano muito simbólico em países africanos, que é presenteado no nascimento e usado em momentos importantes da vida de uma mulher. Foto: Vanda Fávero.

A comunidade hoje é símbolo de resistência e pertencimento a uma história pouco falada no Brasil. Os conhecimentos e experiências ali adquiridos permanecem vivos na memória de cada comunitário, e assim, são passados para as novas gerações “A minha Comunidade do Quilombo da Mormaça é muito importante e especial pra mim, porque é o local onde eu cresci juntamente com meus parentes,  principalmente meus primos que convivi na infância na casa da minha avó para meus pais e tios poderem ir trabalhar”, finaliza Fernanda.

Hoje a comunidade espera que suas terras já reconhecidas sejam tituladas pelo Incra, pois no território reduzido em que estão, não conseguem sobreviver da terra. É uma questão de dignidade, tendo em vista a autenticidade de sua história e o pioneirismo de trabalho nestas terras por mais de 150 anos.  

Origens do nome “Quilombo da Mormaça”

O nome do quilombo deriva da história do casal Chica e Luiz. Em dias muitos quentes, seu Luiz reclamava do calor, passando a mão na cabeça dizendo “ mas que mormaço!”, assim, a frase ficou marcada no imaginário coletivo, dando origem ao apelido ‘Mormaço’. Devido à importância da esposa para a localidade, ela, consequentemente, foi apelidada de ‘Chica Mormaça’, deixando como mais um  legado à comunidade o nome de “Quilombo da Mormaça”.

Rita Miranda,  moradora do Quilombo da Arvinha, durante uma live promovida pelo IFRS Campus Sertão com a pesquisadora e amiga Vanda Fávero.