Por Nathan Breitenbach

Trabalhar durante o dia e estudar a noite, está presente na rotina de 82% das mulheres brasileiras que ingressam no ensino superior. Os dados são do levantamento ‘Education at Glance‘, elaborado pela Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 2019. O financiamento facilitado e mais vagas nas universidades públicas são alguns dos motivos que levam quem já passou dos quarenta a tomar coragem para encarar uma sala de aula e realizar o sonho do diploma. Filha de agricultores, Taciana Câmara da Trindade, de 43 anos, decidiu encarar mais um desafio em seu dia a dia e retomar os estudos, mesmo trabalhando e dividindo a atenção com o filho adolescente, Bruno Demarco.

Em dez anos, cresceu 182% o número de universitários na faixa de 30 a 50 anos, de acordo com o Ministério da Educação. Interessada pela compreensão do ser humano, a ijuiense concluiu o ensino médio em 1993, na cidade de Santo Augusto, na região Noroeste. Ela conta que na época havia apenas universidades privadas e com a maior parte das disciplinas realizadas no período diurno. A família não se surpreendeu ao saber que ela iria retornar à sala de aula, pois sempre incentivou que continuasse estudando.

Apesar de ter uma rotina cansativa, Taciana reconhece a importância de ingressar no ensino superior e deixar para trás a herança de uma geração que teve poucas oportunidades no acesso à educação. “É um sonho que estou realizando, pois voltar a estudar sempre esteve presente nos meus planos. Logo que me formei no ensino médio, não tinha condições de pagar uma graduação e acabei desistindo”, explica a acadêmica do 3º semestre em Pedagogia, na Universidade Federal Fronteira Sul- Campus Erechim.

Na UFFS Erechim, Taciana estuda à noite e, por vezes, fica acordada até de madrugada para dar conta dos trabalhos acadêmicos

A idade é só um detalhe

Como toda decisão implica em perda, ela precisou deixar de lado a primeira opção de curso, Psicologia, por não ter condições de bancar uma universidade privada. Dentre as dificuldades enfrentadas no curso, está a utilização da tecnologia. Taciana se destaca por ser a mais experiente e admirada da turma composta por 40 mulheres e dois homens. Ela diz que apesar de ter sido bem acolhida pelas colegas, sempre há algum resquício de rejeição mas a empatia é o melhor caminho. Ao descer do transporte coletivo no primeiro dia de aula na universidade ela teve a experiência de acreditar que nunca é tarde para um recomeço.

Eu me senti uma adolescente e não me vi diferente dos demais da turma. Fiquei realizada, pois percebi que iria conviver com jovens que me ensinariam muito

No dia em que fez a matrícula, ela foi recebida carinhosamente pelos veteranos do curso

De acordo com o Censo da Educação Superior, o público feminino lidera os cursos de licenciatura nas universidades brasileiras. A Pedagogia está na primeira posição no ranking dos 15 maiores cursos da modalidade, com 747.511 matrículas registradas em 2018. Mais de 80% dos estudantes de licenciatura de instituições públicas frequentam cursos presenciais. 

Fonte: INEP / Ministério da Educação

O sonho de poder amenizar as dificuldades

A educação especial sempre foi algo que chamou muita atenção da futura pedagoga. Dentre seus planos pós-formação, está o de contribuir com o desenvolvimento de crianças com algum tipo de deficiência, pois acredita que a educação inclusiva deve ser um direito daqueles que necessitam. Os planos não surgiram por acaso: vinda de uma família de oito irmãos, dividida entre homens e mulheres, o desejo de poder ajudar crianças especiais partiu de uma experiência familiar com um de seus irmãos que tinha paralisia infantil. Luciano Câmara paralisou quando tinha apenas oito meses. Brincava com as mãos, ria e possuía dificuldade de ficar em pé. “Eu tinha apenas 10 anos e o que mais me deixava agoniada era vê-lo chorar antes de convulsionar. Pedia para Deus baixinho para que essa dor fosse dividida comigo. Em sua inocência, ele não sabia direito o que estava acontecendo por pelo menos uma hora. No ano de 2006, infelizmente, ele veio a falecer após uma convulsão”, explica Taciana. Para ela, professores tem que dar uma atenção especial a essas crianças e ter o conhecimento específico na área que deseja atuar. 

Meia década passará

Com um espírito jovem, ela pretende buscar novos desafios na Pedagogia, pois crê que a troca de conhecimento contribui para o desenvolvimento humano. Em 2025, se imagina coordenando um projeto de integração de crianças com necessidades especiais. Convicta sobre seus projetos e os caminhos que ainda precisam ser percorridos, Taciana não deixa dúvidas de que sua maior paixão é a arte de ensinar e aprender com o outro. “Quero provar pra mim mesma que sou capaz de conquistar tudo aquilo que sempre quis. Alimento todos os dias a vontade de ser uma pessoa melhor”, finaliza.