Para além do gênero: elas sentem na pele a luta de enfrentar preconceitos de uma sociedade estruturalmente machista e racista

Preconceito. Segundo o dicionário, o substantivo masculino significa qualquer opinião ou sentimento concebido sem exame crítico; sentimento hostil, assumido em consequência da generalização apressada de uma experiência pessoal ou imposta pelo meio; intolerância.

O Brasil, um país de proporção continental, de grandes miscigenações, de maioria populacional parda ou preta, de um histórico de lutas por igualdade social imenso e intenso, ainda é um território carregado de prejulgamentos que ultrapassam gerações. A pesquisa Preconceito e Discriminação no Ambiente Escolar, realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), mostra que até mesmo em ambiente de aprendizagem, de formação de cidadãos, a discriminação acontece e parte de diversas vertentes, gênero é maior causa de preconceito dentro das escolas atualmente:

“Baseada em entrevistas com mais de 18,5 mil alunos, pais e mães, diretores, professores e funcionários, revelou que 99,3% dessas pessoas demonstram algum tipo de preconceito étnico-racial, socioeconômico, com relação a portadores de necessidades especiais, gênero, geração, orientação sexual ou territorial”
Agência Brasil.

Falando-se em preconceito, pode-se destacar dois termos que, apesar do avanço do acesso à informação, crescem constantemente: machismo e racismo. Na forma literal, o machismo quer dizer característica, comportamento ou particularidade de macho; macheza. Na prática e, de acordo com a obra “Machismo” da série “Assistente Social no combate ao Preconceito”, o machismo é, essencialmente, uma expressão do patriarcado que se materializa nas relações interpessoais, para perpetuar relações de dominação e poder via inferiorização, submissão e apropriação das mulheres.

Já o racismo é, basicamente, um comportamento hostil diretamente dirigido às pessoas ou aos grupos que pertencem a outras raças ou etnias. De acordo com a forma e ordem que a história foi se moldando, a sociedade foi desenvolvendo ideias, especialmente, sobre pessoas negras, conceitos que antecedem a escravidão e não se extinguem com a abolição. O Canal Preto publicou um vídeo na plataforma YouTube falando sobre o racismo estrutural e a forma que a sociedade é tensionada a conceituar suas ideias, ou ainda, “preconceituar”.

Luta exponencial

Preconceito ao quadrado. Mulheres que já sofrem com os desafios sociais essencialmente por serem de gênero feminino, quando negras enfrentam uma batalha dupla. Dentro desse cenário, apesar das adversidades, mulheres negras conseguiram ultrapassar os tabus da sociedade e atingirem sucesso naquilo que fazem.

Muitas deixaram seu nome marcado na história. Confira abaixo 10 personalidades que são exemplo, inspiração e motivação para as novas gerações de mulheres negras.

Dandara dos Palmares

Não há registros se Dandara nasceu no Brasil ou na África. Chegou muito jovem ao Quilombo dos Palmares, o maior quilombo do período colonial brasileiro. Guerreira, dominava técnicas de capoeira, lutava nas tentativas de ataques ao quilombo e foi esposa do último dos líderes, Zumbi dos Palmares

Ela, que lutou ao lado do marido para defender o fim da escravidão, cometeu suicídio ao jogar-se de um precipício com uma pedra no pescoço, em 1694. Preferiu a morte do que voltar a escravizar-se.

Maria Firmina dos Reis

Autora da obra “Úrsula”, de 1860, é a primeira romancista brasileira a ter um livro publicado. Foi a primeira mulher a ser aprovada em um concurso no estado do Maranhão, onde disputava o cargo de professora de ensino primário. Se não bastasse, ela fundou a primeira escola mista de ensino gratuito na região.

Antonieta de Barros

Mais uma personalidade negra marcante na história do Brasil. Catarinense, nasceu em 17 de julho de 1901 em Florianópolis. Jornalista e professora, foi figura marcante na política nacional ao se tornar a primeira deputada estadual negra do país.

Era defensora da luta pela igualdade de gênero e desenvolvimento de políticas públicas que proporcionassem maior qualidade de vida para as mulheres. Como jornalista, fundou o jornal A Semana e dirigiu a revista Vida Ilhoa.

Carolina Maria de Jesus

Escritora, compositora e poetisa. Nascida em Minas Gerais, em 1914, estudou em escola por apenas dois anos e mudou-se para São Paulo em busca de melhores condições. Escrevendo sobre sua rotina na periferia em um diário, deu origem à obra “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, de 1960. O livro foi um sucesso em mais de 40 países e levou o nome da brasileira para o mundo.

Teresa de Benguela

A Rainha Tereza, líder do Quilombo de Quariterê, no Mato Grosso. Ela teve destaque na história por instituir uma espécie de parlamento no Quilombo, onde eram discutidas as questões do grupo de mais de 100 pessoas. Ela, que marcou história viveu no século XVIII, comandava um sistema político, econômico e administrativo no Quilombo.

Existem duas versões de sua morte, uma é que teria cometido suicídio depois de ser capturada por bandeirantes, outra, é que teria sido morta e tido a cabeça exposta no centro do Quilombo.

Ruth de Souza

Atriz. Primeira negra a pisar no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1945, com a peça O Imperador. Em 1954 foi a primeira atriz brasileira a ser indicado a um prêmio internacional de cinema no Festival Internacional de Veneza. Ela também foi a primeira negra a protagonizar uma novela na TV Globo.

Tia Ciata

Um dos maiores nomes da cultura brasileira no começo do século passado. Sua casa ficava na região central do Rio Janeiro e, não à toa, ficou conhecida como Pequena África, pois unia ex-escravos que moravam nas redondezas para fazerem festa. Muita música, alegria e samba!

Embora na época o samba sofresse opressão da sociedade, Tia Ciata era bastante respeitada pelas autoridades e ficou conhecida, justamente, por ceder o quintal da sua casa para os primeiros sambistas do Brasil.

Dona Ivone Lara

“Os Cinco Bailes Tradicionais da História do Rio”, é o nome do samba-enredo escrito por Dona Ivone, primeira mulher a escrever uma música tema de escola de samba no ano de 1965.

Ela abriu espaço para que muitas outras mulheres pudessem entrar no samba e terem seus trabalhos reconhecidos, visto que uma música criada e interpretada por um homem tinha muito mais chances de ser reconhecida no meio sambista.

Gloria Maria

Uma das maiores jornalistas do Brasil. Há cinquenta anos trabalha na Rede Globo, é conhecida por suas reportagens especiais em viagens pelos mais diversos países. Gloria, que começou como repórter na emissora, já esteve no comando de diversos jornais da programação, sendo ainda um dos maiores destaques da TV Brasileira aos 71 anos.

Marielle Francisco da Silva

Conhecida como Marielle Franco foi uma socióloga e política brasileira. Foi eleita vereadora no RJ nas eleições de 2016, mas foi morta a tiros em 14 de março de 2018. Marielle defendia causas como o feminismo, direitos humanos e criticava a intervenção militar no Rio. Inclusive, denunciou vários casos de abuso de autoridade por parte de policiais.

Por se tratar de um caso mais recente, Marielle, talvez seja o nome mais ouvido desta lista. Além de ser factual, sua morte também deixa dúvidas na sociedade, e um movimento que questiona o enredo do caso foi criado: “Quem matou Marielle?”.

Bom, não se sabe quem a matou, há muitas especulações, hipóteses. O que se tem certeza é que há algo em comum na luta de todas essas mulheres: todas, de alguma forma, se doam ou se doaram em prol de uma causa dupla. Levam nas costas o peso de serem NegrAs e lutares contra os “ismos” que a sociedade insiste em negar a existência e justifica suas atitudes preconceituosas com construção social e histórica.

por Letícia Brignol