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Existem várias regras que mulheres devem seguir para serem consideradas pessoas dentro do padrão esperado de aparência e comportamento. Padrão esse, que já se provou impossível de atingir nas mais diversas instâncias. Mas, e quanto às mulheres com deficiência? Para elas, o padrão é ainda mais impossível, afinal, pessoas com deficiência no geral, são invisibilizadas em todos os âmbitos de nossa sociedade.

Esse fato é confirmado pela Professora Doutora especialista em questões de gênero, Patrícia Ketzer, ao longo da história, pessoas com deficiência (PCD) eram vistas como alvos de “castigos divinos” por algum pecado que ancestrais da família teriam cometido. Atualmente, pautas relacionadas às pessoas, em especial,  às mulheres com deficiência ainda são muito pouco discutidas, inclusive dentro do próprio movimento feminista.

O feminismo teve sua origem como um movimento político e social através de mulheres brancas e de classe média. Consequentemente, mulheres negras, transexuais, deficientes e muitas outras, foram excluídas inicialmente. Existem diversas intersecções entre as violências sofridas pelas mulheres. As dores de uma mulher negra, não são as mesmas que as de uma mulher branca. Da mesma forma, as mulheres com deficiência enfrentam, como principal dificuldade, a invisibilização.

No Brasil, existem pelo menos 45 milhões de pessoas com deficiência, segundo o último levantamento do IBGE, em 2019. Isso corresponde a mais de 20% da população brasileira. Destes, mais de 25 milhões são mulheres. Mas, onde estão essas pessoas?

Monique ficou completamente surda aos dois anos de idade. (Imagem reprodução acervo pessoal)

A Professora de Libras e Mestranda em Linguística na UPF, Monique Giusti Reveilleau, de 45 anos, por exemplo, alega que as dificuldades são maiores em diversos âmbitos de sua vida por conta de sua deficiência e pela questão de gênero. “Ser mulher já é difícil por causa da sociedade machista e ser surda complica um pouco mais. Por exemplo, para conseguir um trabalho, sou desvalorizada como mulher e por ser surda”, explica. A professora de Libras ficou completamente surda aos 2 anos de idade. A causa da diminuição gradativa da audição nunca foi descoberta.

Monique conta que o processo de adaptação como uma criança surda foi desafiador. “Meus pais foram orientados a levar para a fonoaudióloga para aprender a falar. Na época foi muito difícil e não tinha acessibilidade para surdos. Não tinha língua de sinais e nem intérprete. Eu comecei a aprender a Libras, minha primeira língua dos surdos, aos 13 anos de idade, relata. Após aprender a Língua Brasileira de Sinais, Monique fez diversos amigos que mantém até hoje. 

Uma das principais cobranças que mulheres sofrem é a de se tornarem mães, quando se é uma mulher surda, as cobranças se transformam em temores, especialmente se o filho for ouvinte. Mãe de Alicia, de 14 anos e de Gabriel, de 12, Monique explica como é a convivência com dois filhos ouvintes. “Minha relação com eles é ótima. Nós nos comunicamos em Libras. Eles aprenderam desde bebês para poderem se comunicar com os pais surdos. Eles são bilíngues desde pequenos. Também sou muito próxima dos meus pais, eles me apoiam em tudo”, conta. 

Imagem reprodução acervo pessoal
Hoje Monique é mãe de dois filhos ouvintes. (Imagem reprodução acervo pessoal)

Quanto à questão da representatividade, ela alega que hoje em dia o tema está sendo um pouco mais discutido do que na época de sua infância, mas ainda há muito o que fazer, por exemplo, na área do entretenimento. “Me sinto pouco representada, temos intérpretes nas TVs – comerciais, notícias. Porém, filmes brasileiros não costumam ter legendas, nem filmes de desenho animado (que são dublados). Inclusive, em Florianópolis foi feita uma série por pessoas surdas. Eles decidiram fazer por eles mesmos porque não se sentiam representados. Foi a primeira série realizada em Língua Brasileira de Sinais e está na Netflix. O nome é Crisálida. Eu amei assistir”, relata. Esse fato ressalta a importância da produção de conteúdo mais acessível, em todos os âmbitos. Além de mais representatividade na área do entretenimento.

Imagem reprodução acervo pessoal
Vandriane foi diagnosticada aos 20 anos com a Doença de Devic ou Neuromielite Óptica. (Imagem reprodução acervo pessoal)

Já a Psicóloga e Mestranda em Ciências Humanas pela UFFS, Vandriane Caroline Truylio, de 31 anos, adquiriu deficiência motora quando adulta. “Eu fui diagnosticada em 2010 com Doença de Devic ou Neuromielite Óptica. A reação ocorreu durante o processo da doença que foi piorando deixando sequelas. O fato de não conviver com pessoas que utilizam cadeira de rodas fez com que esse processo de aceitação fosse um pouco lento”, conta. Como mulher, as cobranças estéticas prevalecem acima de quase todas as outras, Vandriane relata como foi seu processo de auto aceitação. “A cobrança sempre existe, principalmente de nós mesmas. Eu tenho muita sorte e também sou muito privilegiada porque sempre tive apoio da minha família e pude fazer terapia, por exemplo, para aprender a lidar com a minha condição. Hoje me sinto livre, a cadeira de rodas é um meio, não uma prisão”, explica. Ela também ressalta que o processo de aceitação é contínuo e nunca acaba e que o acesso que tem às pautas na graduação e agora no mestrado, facilita na problematização  desses temas. 

A psicóloga não tem filhos e não pretende ter por enquanto. Ela e seu companheiro conversam sobre isso e, mesmo podendo ter filhos biológicos, a adoção sempre foi uma preferência do casal, se algum dia optarem por serem pais. 

A questão da representatividade também é um problema para Vandriane. “A mulher com deficiência é, quase que inexistente para a mídia. Pouco se vê e por incrível que pareça (ironia) é um público que consome. No cinema e na televisão  personagens com deficiência são contracenadas por atrizes ou atores sem deficiência, mesmo esses profissionais estando disponíveis para o trabalho”, também relata sua visão sobre isso dentro do feminismo. “Existe apenas um coletivo que fala sobre o assunto (Coletivo Feminista Helen Keller), isso porque foi criado com este intuito já que as mulheres com deficiência não se sentiam representadas por nenhum outro. A pauta referente à deficiência só é abordada uma vez ao ano, no dia da conscientização”, explica a psicóloga. 

Ela ressalta o fato de que, quando existe alguém em quem ela possa ver a si mesma na mídia, é sempre representada de forma rasa. “Sempre num enredo de superação, nos colocando como exemplo. Não sou e nem quero ser exemplo”, alega. A pauta da mulher com deficiência é pouco discutida dentro do feminismo, assim como pessoas com deficiência são excluídas de diversas pautas na sociedade como um todo. Ambas as histórias contadas promovem a reflexão coletiva sobre o tema e elucidam essa pauta pouco comentada na grande mídia. 

Por Bárbara Adelle Dalamaria e Sabrine Paludo