Durante a pandemia, o número de pessoas que praticam atividade física ou esportiva reduziu. Com as limitações implantadas pelo isolamento social, jogos de futebol, vôlei, tênis e outras atividades foram totalmente suspensas em função do contato corporal direto e o alto risco de contaminação pela covid-19. Essa estimativa abre portas para a entrada do sedentarismo na maior parte da população que não tem como prática cotidiana a atividade física.

Uma pesquisa encomendada pela Smart Fit aponta que hoje, depois de 1 ano de pandemia, só metade dos entrevistados faz algum tipo de atividade física. Esse total até fevereiro de 2020 era de 65% dos entrevistados. Além disso, dados da Organização Mundial da Saúde, mostram que metade da população brasileira é sedentária, sendo 47% das pessoas em idade adulta que não praticam o mínimo de atividade física semanal para manter a saúde regulada.

No final de 2020, a OMS lançou novas diretrizes globais sobre a atividade física e comportamento sedentário . No documento é recomendado que adultos aumentem o tempo de atividade física semanal para 300 minutos – até uma hora de exercícios por cinco dias ou 40 minutos por sete dias – ou façam 150 minutos de atividade física intensa por semana.

A última diretriz publicada em 2010 orientava o alcance de no mínimo 150 minutos de atividade física moderada ou 75 minutos de exercícios intensos por semana. A nova diretriz engloba além do aumento do tempo de atividade física, recomendações para diferentes grupos da população, dicas para as diversas faixas etárias (crianças e adolescentes, adultos e idosos), foram contemplados também pacientes com doenças crônicas e mulheres grávidas ou no pós-parto.

As novas orientações vêm de encontro para reforçar a população de que qualquer tipo de atividade física e esportiva é um ponto positivo para a saúde, principalmente em um momento tão delicado como o da pandemia. Esse tipo de preocupação é a mesma que o Prof. Me. em educação física, Raphael Loureiro Borges, conta ao falar das diversas medidas de restrições impostas pela pandemia. “Quando você impede uma pessoa de praticar a atividade física, você acaba prejudicando de uma forma bastante abrupta, porque simplesmente parar de fazer atividade física, se a faz de forma regular, influência não só na saúde em si, mas em questões relacionadas ao isolamento, como: depressão, insônia, falta de produção de hormônios, isso começa a deixar a pessoa muito deprimida.”

Além das preocupações, o incentivo à prática de atividade física diária, vai de encontro aos resultados positivos em relação à contaminação pelo novo coronavírus. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) aponta que fazer atividade física regular, conforme as orientações da OMS, reduzem o risco de internações hospitalares pela Covid-19 em 34,4%. O benefício se torna ainda maior para quem faz mais de um tipo de exercício, como andar de bicicleta e correr. Nesse caso, a redução no risco foi de 46,2%.  

Esse resultado positivo em relação ao agravamento da covid-19 nas pessoas que praticam atividade física está relacionado a inflamação, conforme explica a médica e professora da UPF, Débora Boscatto. “Quando você pratica exercício físico você reduz uma atividade no corpo relacionada a inflamação, quando se reduz a inflamação no corpo, você responde melhor se tiver covid, porque ele é uma doença inflamatória. Uma das causas da mortalidade por covid ser tão elevada é a cascata inflamatória, que é uma resposta exagerada do paciente ao vírus, então o paciente que está teoricamente desinflamado tem tendência a uma resposta imunológica melhor ao vírus e também uma melhor recuperação.”

A preocupação com o sedentarismo vai muito além da relação com o coronavírus. “A doença do século” é considerada a doença que mais mata no mundo, não necessariamente por ser a causadora da morte, mas por servir como campo para diversas outras doenças que são agravantes na saúde humana. “Através do sedentarismo muitas outras doenças se manifestam de uma forma muito forte, como diabetes, hipertensão, problemas cardíacos e principalmente a obesidade que atinge um percentual muito grande da população.” Explica Raphael.

A atividade física vem como benefício na prevenção de doenças, pode atuar na resposta do tratamento de um paciente que tem alguma doença maligna, doenças inflamatórias e hepatites, também na prevenção no desenvolvimento de câncer, como explica a doutora Débora. “Atualmente o  exercício físico é a única medida que a gente conhece que é capaz de evitar o desenvolvimento de alguns tumores malignos, como por exemplo o câncer de mama.” 

Das diversas doenças ligadas ao sedentarismo, a obesidade é uma das que apresentam índice elevado no Brasil. No ano passado, a Pesquisa Nacional de Saúde realizada pelo IBGE em 2019 apontou que 60,3% da população adulta apresenta excesso de peso, o que representa cerca de 96 milhões de pessoas – 62,6% em mulheres e 57,5% em homens. A obesidade é uma doença crônica, sem ligação com a estética, que necessita de tratamento e tem um caráter multifatorial. Débora explica as causas relacionadas ao desenvolvimento da doença. “O sedentarismo contribui, e muito, mas não é só o sedentarismo. Uma alimentação inadequada, hábitos pouco adequados, a genética levando uma tendência de um ganho de peso acelerado, medicamentos, é um conjunto de fatores que podem influenciar.”

O sedentarismo também está relacionado com doenças psíquicas. Uma pesquisa realizada por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) aponta que 65% dos 3,6 mil entrevistados sentiram uma piora em sua saúde mental durante o período de isolamento social em função da pandemia da covid-19, a maior taxa está relacionada a depressão e ansiedade. Débora explica a relação do sedentarismo com as doenças psíquicas. “Pacientes que são mais depressivos, que tem uma tendência maior a depressão e crises de ansiedade, se esses pacientes conseguem manter um ritmo de exercício físico eles geralmente conseguem ter uma qualidade de vida um pouco melhor. Quanto mais sedentário, quanto mais retirado esse paciente tiver, a gente sabe que tem um fator de risco associado.”

Foi pensando na melhora da qualidade de vida, principalmente como uma alternativa para controlar a ansiedade que a estudante de enfermagem, Maria Eduarda de Almeida, recorreu a prática de exercícios físicos durante a pandemia. “Além de tentar melhorar a qualidade de vida e estética também comecei a praticar atividades para tentar reduzir um pouco a ansiedade. Está me ajudando muito a me desestressar e me distrair da rotina que está sendo complicada nesse momento.”

Praticando caminhada e programada para retornar a academia, Maria comenta que se considerava bastante sedentária. “Eu era extremamente sedentária e fazer esse tipo de exercício tem melhorado muito a minha qualidade de vida.”

A prática de caminhada é um dos exercícios recomendados para quem está começando a realizar atividades, ou que vai retomar a prática. “Tá tudo fechado, o que eu faço? Caminhadas ao ar livre. A chance de uma pessoa se contagiar com covid, usando máscara, mantendo o distanciamento ou somente cruzando com alguém na rua é muito baixo. Outra opção para quem tem piscinas, é nadar nas piscinas coloradas, que possuem cloro. Andar de bicicleta pode também, inclusive é uma das atividades para quem tem dificuldade com a máscara, então é orientado que ao invés de fazer atividade em grupos, procure fazer mais isolado em espaços com poucas pessoas”. Afirma Débora.

Para Borges, a atividade física é relativa para cada pessoa, tem que ser feito aquilo que faz bem para cada um, mas o importante é se manter ativo. “Quando tu tens orientação, o profissional vai achar uma atividade que te dê prazer e que vá cumprir com os teus objetivos. Se precisar mesclar ambos os tipos de atividade, vai ser feito. Principalmente porque algumas pessoas começam a fazer alguma atividade que não gosta em busca de resultados e às vezes ao não vê o resultado, se frustra e para de praticar. Por isso a importância da orientação”.

Por Bruno Pedroso e Talita Trombetta