Qual a incompatibilidade?

A recente variante da Covid-19, somada à falta de isolamento social, está modificando o perfil dos pacientes internados: os jovens. A nova onda do vírus tem afetado o grupo até então menos atingido. E, diante disso, um ano depois do início da pandemia, podemos observar o comportamento humano individual, e entender como ele influencia diretamente no coletivo. 

Segundo boletim do Observatório Covid-19 da Fiocruz, entre janeiro e março de 2021, o número de óbitos disparou em 1.218,33% entre pessoas de 30 a 39 anos, e 1.217,95% entre quem tem de 40 a 49 anos. Já na fase que abrange o final da adolescência até ao adulto jovem, quem tem de 20 a 29 anos, a letalidade aumentou 872,73%.

Maria (nome fictício da fonte), de 19 anos, respeitou rigorosamente o isolamento de março a novembro de 2020. Diferente de João (nome fictício da fonte), 22, que não fez quarentena em nenhum momento do ano. Para os especialistas, a diferença gritante de comportamento de um jovem para o outro se dá por diversos motivos.

Tem se observado casos de indivíduos que antes não tinham nada e acabaram desenvolvendo problemas na pandemia; outras pessoas que possuíam questões escondidas que estão se revelando durante esse período; e ainda há quem já enfrentava dificuldades que pioraram diante de tanta instabilidade.

Alguns fatores que diferenciam os jovens são as vidas que levam: condições de estudo, trabalho e moradia, por exemplo. João estava fazendo um curso prático, que foi interrompido por 4 meses e depois retomado para ser finalizado. Mas não parou de trabalhar. Já Maria, pôde continuar o estudo e o estágio de casa, pois tem um ambiente adequado para a prática. Seguiu todos os procedimentos de distanciamento. 

Outra questão que ocasiona discussão e proporciona debate, é a vacinação. Muito se debate, até em redes sociais, que a vacina deveria ter sido indicada para adultos jovens, dos 20 aos 50 anos, como um dos primeiros grupos, devido à maior exposição deles ao vírus – seja pelo estudo ou pelo trabalho. Em 2020, a informalidade passou a atingir 38,7% da população, o que representa 33,3 milhões pessoas sem carteira assinada ou sem remuneração. Pensamento esse, que João compartilha. Ele acredita que muitas casas dependem do sustento advindo do serviço mais jovens, porque alguns pais e avós não trabalham. 

Com um confinamento que soava sem fim, os jovens tiveram que lidar com outras complicações na ou da pandemia, além do isolamento ou do distanciamento. Há aqueles que enfrentaram situações mais traumáticas, como a perda de renda dos pais, a complicação da doença em alguém próximo ou o luto. “Nunca tive depressão e ansiedade, mas eu e minha família estávamos passando por um momento difícil, com um de nós doente… e perdemos essa pessoa”, conta João. Ele também comenta que essa situação foi uma grande influência para ele sair de casa: “[…] e eu não conseguia ficar em casa, pegava e saía, mesmo com a pandemia… eu queria “fugir” dos meus problemas, me esconder, pra tentar aliviar”.

Foi notório que ao final de 2020 houve um princípio de retorno da “vida normal”, como muitos dizem. As ruas já apresentavam mais pessoas, desde quem precisava sair para trabalhar, mas também muitas aglomerações desnecessárias e, em tese, proibidas, como festas e encontros lotados sem as medidas necessárias de proteção. Com essa normalização, consequentemente, os hospitais passaram a receber mais jovens que acabaram se expondo ao vírus.

Foi comum no começo da pandemia a comparação com o sacrifício de gerações anteriores em guerras com as mortes dos idosos na pandemia. Maria diz que fica contente pela capacidade de empatia das pessoas que seguiram as recomendações de distanciamento ou isolamento social, e espera que as famílias de quem não respeitou as condições não sejam prejudicadas. 

Com o agravante da variante do vírus, os jovens têm se infectado mais e desenvolvido formas graves da doença, tornando-se um grupo ameaçado pela Covid-19 em um momento complicado – com festas clandestinas sendo flagradas e denunciadas, muitos casos e poucos leitos. A adesão às medidas de contenção por parte dos adolescentes e jovens continua sendo fundamental para combater a pandemia e proteger as pessoas mais vulneráveis. E aí entra a dificuldade em conscientizar esse grupo social com mensagens dirigidas diretamente a eles nos ambientes em que eles se encontram – nas redes sociais, por exemplo.

Os jovens não se tornaram grupo de risco, e não deixaram de ser um dos últimos na fila da vacina, mas viraram parte dos internados pela Covid-19 nos hospitais.

Por Roberta Scolari e Vanessa Ritter

Imagem destaque: Divulgação/Jovem Pan