Num dia todos estavam no ônibus indo para as aulas presenciais, viajando para trabalhar e seguir com suas vidas de forma normal. No outro, trancafiados em casa com medo de um certo vírus mortal no início de uma pandemia global, ainda desconhecida, sem entender bem o que estava acontecendo.

Assim foi o cenário de Abril de 2020, quando a pandemia da Covid-19 chegou nas terras tupiniquins. De lá para cá, mais de 200 mil mortos e perdas imensuráveis. Comércio, economia, saúde e tantas outras áreas foram afetadas de diferentes formas. E com educação não seria diferente.

Em um dia tudo mudou. A cadeira da sala de aula foi trocada pela cama ou poltrona de casa. A ida até a faculdade ou escola ficou no passado. O convívio com seus colegas e até mesmo aquele cafezinho pré-aula para esquentar o corpo e acordar a mente no auge do frio do inverno ficou num passado que parece não voltar tão cedo. E o mais triste, os debates e encontros físicos foram trocados por uma tela, tão fria e gélida, quando a luz branca que sai dos pixels do retângulo do computador.

Com tantas mudanças no mundo estudantil, não demoraria muito para isso afetar o aprendizado do aluno. O estudante de Empreendedorismo na Universidade Federal Fluminense (UFF), Pedro Matsunaga, relata como essa mudança tem afetado o desempenho nas aulas, falando como as aulas no formato à distância, o popular EaD, são mais difíceis de haver o foco por estar em casa, longe da rotina normal e num local destinado ao aprendizado. “Eu me sinto bastante desestimulado para as aulas. Eu sinto que eu aprendo menos no ensino remoto do que no ensino presencial.” 

Pedro ainda relata vários pontos negativos sobre as aulas em EaD, como o desinteresse pela aula e a passagem de conteúdo do professor ao aluno, além do contato entre os alunos.

E não é apenas Pedro que reclama dos pontos negativos sobre as aulas remotas. Em pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED), que ouviu a opinião de mais de 5,5 mil estudantes, professores e responsáveis, entre 24 de agosto e 15 de setembro, aponta que mais de 72% dos estudantes reprovam a qualidade do ensino remoto obrigatório em função da Pandemia do Novo Coronavírus.

“Eu me sinto bastante desestimulado para as aulas. Eu sinto que eu aprendo menos no ensino remoto do que no ensino presencial.” 

Pedro Matsunaga

O também estudante da UFF, Rafael Kutter, que está no 8º período de Engenharia de Produção, cita os mesmos pontos negativos sobre as aulas remotas, além de professores menos disponíveis, problemas técnicos com o professor, aulas monótonas e difíceis de manter atenção.

Mas nem tudo é negatividade. Toda moeda tem dois lados e o mesmo acontece nesse cenário. Pedro e Rafael apontam como o EaD facilitou a vida estudantil em alguns pontos, como matérias em sua maioria mais fáceis, aulas mais curtas e compactas em questão de conteúdo. Aulas mais acessíveis sem a necessidade da locomoção até a faculdade.

“Talvez você consiga aproveitar mais os momentos do seu dia e você tem que demandar menos tempo para a aula por que você não vai precisar se transportar até a Universidade, voltar para casa” fala Pedro.

Em pesquisa da Global Student Survey, que ouviu 16,8 mil estudantes de 18 a 21 anos, entre 20 de outubro e 10 de novembro, em 21 países, concluiu que o Brasil tem o maior índice de universitários que declaram possuir a saúde mental mais afetada na pandemia.

Segundo o estudo, sete a cada dez universitários brasileiros, cerca de 76%, declaram que a pandemia trouxe impacto na saúde mental. Ainda, para a maior parte (87%), houve aumento de estresse e ansiedade. Apenas 21% buscou ajuda, e 17% declararam ter pensamentos suicidas.

“Com relação à saúde mental durante a pandemia, como estudante, me sinto bastante desgastado mentalmente, porque você fica muito desgastado, muito esgotado e isso também me afeta como estudante”, relata Pedro. Ainda, o estudante afirma que tudo isso o faz gostar menos das aulas e que não aguardar a aula do fim de tudo isso, seja se formando, o fim do semestre ou o fim da pandemia e a volta as aulas presenciais.

Mas nem para todos os estudantes os efeitos foram negativos. A pesquisa global apontou que uma parcela dos estudantes brasileiros, cerca de 24%, não se sentiu afetada pelas aulas remotas. Esse é o caso de Rafael. “Apesar de sentir muita falta de interagir presencialmente com os amigos da faculdade, me sinto bem. Tenho dormido mais e a carga é menor vindo da faculdade”.

No fundo, tudo acaba sendo uma questão de se adaptar e como essas adaptações afetam diferentes pessoas. Coisas boas e ruins sempre acabam vindo de situações de difíceis, e no estudo não seria diferente.

“O principal é poder relacionar o conteúdo e achar novas maneiras e isso gera uma maior criatividade dos professores sobre quais trabalhos podem ser realizados, qual o tipo de avaliação, então, eu acho que isso tudo é muito positivo”, finaliza Pedro.

Por Pedro Bregolin e Ricardo Biondo