Ensinar não é uma ocupação fácil. A modalidade de ensino remoto foi a solução encontrada para seguir repassando o conhecimento para crianças e adolescentes, no entanto, o método pode ser prejudicial para o processo de alfabetização. De acordo com o Banco Mundial, o contexto pandêmico pode fazer com que cerca de 70% das crianças do Brasil não aprendam a ler.

Para a educadora Maria José Nobrega, professora de pós-graduação no Instituto Vera Cruz e assessora pedagógica dos planos de aula Nova Escola, não é possível desconsiderar que a pandemia trouxe prejuízos acadêmicos para a comunidade escolar, especialmente para crianças em fase de introdução à leitura e à escrita. “Entre os educadores, há um consenso de que a alfabetização é um dos períodos mais delicados e importantes da formação escolar.”

“A alfabetização é um dos períodos mais importantes da formação escolar”

A Covid-19 e suas consequências são problemas que acometem uma geração inteira, não sendo uma dificuldade somente dos brasileiros. Entretanto, existem outras questões que vão para além da alfabetização e, assim como ela, podem impactar no aprendizado das crianças: o ‘abre e fecha’ das escolas, a falta da convivência com os colegas e o homeschooling também são pontos que interferem no exercício de aprendizagem.

Mãe e professora

“Saudade de você, mamãe”, é o que o pequeno Miguel – também chamado de Mig – costuma dizer para mãe agora que Márcia voltou para o modelo presencial. Trabalhando em homeoffice, Márcia Tibolla, 37 anos, passava mais tempo com o filho de quatro anos e conseguia dar mais atenção, estar mais perto. Agora, depois que o Estado decretou bandeira vermelha – mais uma vez – para o município de Passo Fundo, Márcia e outras mães precisaram voltar para o ambiente de trabalho e deixar os filhos em casa.

As dificuldades que o ensino híbrido trouxe para os pais de crianças pequenas são várias. Para aqueles que trabalham de 35 à 40 horas por semana, como Márcia, arrumar tempo para sentar com os filhos e ajudá-los com as atividades escolares não é fácil. “Quando chego em casa tenho que fazer a janta. Quando a gente pensa em sentar para fazer as atividades, tá na hora de tomar banho. E depois, quando a gente toma banho, é hora de colocar o Mig para dormir. É uma correria.”

Além da falta de tempo, também existe outro problema: como alfabetizar uma criança sem ser da área da educação? Segundo Márcia, Miguel a enxerga como mãe, não como professora. “Às vezes a gente vai conduzir uma tarefa e o Mig diz: – Não foi assim que a ‘prô’ ensinou… As crianças já entendem qual é a função dos pais e qual é a função do educador. Elas precisam dessa figura externa.”

“Não foi assim que a prô ensinou…

Miguel até chegou a frequentar as aulas presenciais na primeira semana, mas por sofrer de asma, os pais optaram em deixar o menino em casa. Em razão da instabilidade da situação – abre escola, fecha escola –, a mãe também começou a notar que o filho demonstra estar mais ansioso. A falta de uma rotina, de uma separação entre lar e ambiente escolar e da presença física do professor quebraram o contexto habitual que Mig – e a sociedade – já conhecia.

Quando o lar vira escola

Agora, enquanto os colegas vão para a escola, Mig assiste os vídeos encaminhados pela sua professora para fazer as atividades escolares. Na semana em que esteve junto dos colegas, estranhou um pouco o ambiente por conta dos novos protocolos, mas mesmo tendo apenas cinco anos de idade – quase seis –, ele entende que usar a máscara e manter as mãos limpas são atitudes essenciais para se proteger. “Quando eu ‘sujo as mãos com coronavírus‘ eu vou lá e passo o álcool em gel”, conta Miguel.

Miguel, de cinco anos, já entende que a máscara faz parte do vestuário cotidiano

“Quando eu ‘sujo as mãos com coronavírus’ eu vou lá e passo o álcool em gel”

Apesar de sentir saudade dos colegas e do ambiente escolar, o ensino remoto proporciona a ele mais tempo com a mãe e o pai, que além de o ajudarem nas tarefas da escola, se revezam para não deixá-lo sozinho. Se perguntado sobre qual formato de aula é seu preferido, Mig responde: “Os dois!”.

Desafiados desde o princípio

O novo modelo de ensino que foi adotado desde início da pandemia divide opiniões de profissionais da área da educação sobre até que ponto ele pode fazer bem ou prejudicar o aprendizado dos estudantes.

Para a psicopedagoga, Me. Carina Côrrea, a pandemia tem desafiado a todos com o nova maneira de ensinar, incluindo desde a parte mais básica da educação: o acesso. “É um sistema que acabou nos pegando de surpresa. Para fazê-lo funcionar, precisamos da internet, dos aparelhos eletrônicos… Em um contexto socioeconômico e cultural extremamente diverso como a gente vivencia, o desafio de pensar uma educação acessível acaba sendo muito maior.”

A dificuldade em acessar a web aparece ainda mais nas famílias de alunos de escolas públicas, que ou não tem aparelhos eletrônicos, ou não tem um sinal de internet adequado para o acompanhamento das atividades. Na tentativa de resolver a situação, as redes sociais se tornaram um canal de comunicação entre escola e família. “O WhatsApp passou a ser até mesmo um tipo de aplicativo legitimado por algumas instituições, porque ele acaba sendo um meio de maior acessibilidade dos alunos de escolas públicas”, explica Carina.

Buscando fortalecer a troca de atividades e evitar a evasão escolar, outra possibilidade das escolas foi disponibilizar materiais impressos para os estudantes fazerem em seus lares. “A família ficou responsável por pegar as tarefas e levar para a casa. O estudante efetua os trabalhos e depois os devolve. A frequência dos alunos passou a ser controlada dessa forma”. Mas estando em casa sem o acompanhamento do professor, outras dúvidas aparecem: “Quem faz essas atividades? Não sei. Se são realmente os estudantes que realizam, a gente não sabe.”

Os problemas trazidos pela ausência do acompanhamento durante os trabalhos acabam se tornando mais aparentes, principalmente no caso daqueles estudantes que já demonstram maior dificuldade. Há alunos que tem se dedicado a fazer as tarefas impressas, mas outros grupos tem sofrido um distanciamento da escola. “…muitos necessitam da mediação de um professor. Em razão disso, percebe-se uma certa evasão escolar, especialmente daqueles que já demandavam de uma atenção especializada em sua forma de aprender. Nem sempre todos estão no mesmo ritmo.”

“Eu acredito que o sistema híbrido tenha facilitado sim, e muito. Não houve um abandono total, mas ao mesmo tempo foi desafiador, especialmente para os alunos e suas famílias”

Os resultados no futuro

A presencialidade é um aspecto importante para o desenvolvimento escolar, principalmente para as crianças menores que estão iniciando o processo educacional. Com a ausência desse contato durante quase dois anos, há possibilidades de aparecerem resultados negativos em relação aos aspectos cognitivos de aprendizagem escolar. “Eu penso que as consequências disso a gente vá ver no futuro. Daqui uns dez anos as consequências vão começar a aparecer”, comenta.

Com a ausência dos pais, o acompanhamento do processo de aprendizagem foi transferido para outras pessoas. “A educação acabou sendo de responsabilidade não só do sistema híbrido, mas também da vó que passou a cuidar, do vizinho que passou atender. Querendo ou não, se a criança está em casa, não é a mesma coisa que a ela estar em sala de aula, as regras são outras.”

“A educação acabou sendo de responsabilidade não só do sistema híbrido, mas também da vó que passou a cuidar e do vizinho que passou atender”

Apesar da possibilidade de alguns atrasos em relação a aprendizagem, outros aspectos foram desenvolvidos no ensino remoto. “Ao mesmo tempo, a gente nota que houve um amadurecimento muito interessante… não surgiram só fragilidades emocionais, também foi possível aprender a lidar com alguns sentimentos.”

Os resultados de autonomia, criatividade e amadurecimento emocional são relativos a um contexto social e cultural em que os estudantes estão inseridos. “A gente percebe que em alguns alunos essa autonomia é mais desenvolvida… No sentido de lidar com suas coisas, organizar suas tarefas, de saber lidar com o distanciamento. Isso vem de muito cedo, né?”.

Em contrapartida, existe outra realidade. “Se a gente pegar aquelas crianças que já não tem tanto acesso à esses estímulos, à essa motivação, as coisas mudam. Infelizmente, nesses casos, o que pode acontecer é o oposto, é um afastamento do processo de escolarização, que depois lá no futuro será cobrado.”

Muitos dos jovens já não entendem a importância da educação para a vida. “A gente tem percebido que, especialmente quando se trata de adolescentes entre 13 e 18 anos, há uma evasão muito grande da escola, exatamente porque eles não percebem a importância do estudo para se inserir no mercado de trabalho.”

Esse resultado é um processo, tanto do contexto cultural inserido, quanto de oscilações durante o período do primeiro contato escolar e o período de aprendizagem. “Isso não surge na adolescência, isso surge lá na infância. Surge quando se conversa com eles ainda na educação infantil, quando se prepara para a leitura e escrita. Essas crianças que não tiveram acesso a isso, com quatro ou cinco anos, quando é que vai surgir o desejo de aprender? De ler e escrever?”

“O contexto socioeconômico e cultural é um fator determinante, ou para o sucesso escolar, ou para os desafios que vão surgir”

A socialização é parte essencial

A socialização também é um processo importante, intrínseco a vida humana. Com o distanciamento trazido pela pandemia, a proximidade entre as pessoas reduziu, e o resultado disso são dificuldades em se comunicar que aparecem desde crianças até adultos. “Vamos começar pelos bebês que precisam da interação com os outros – para além da mãe, do pai, do responsável – para aprender a falar e foram privados desse contato. A socialização já começa por aí.”

O retorno presencial tem contribuído para mostrar a importância da interação social. “A criança necessita sim, assim como nós adultos, se comunicar e aprender a conviver com pessoas, precisamos das regras sociais. Agora, durante o retorno, os alunos nos mostram a importância dessas trocas para seu aprendizado.”

“A gente se constitui através do contato com o outro. É a interação com o meio que nos estabelece como seres humanos. Eu me formo como sujeito a partir do momento que eu estabeleço trocas com os outros”

Os resultados da falta de socialização também já aparecem de forma mais acentuada em algumas realidades. “Sabemos que existem situações em que as crianças passaram a comer mais, a se deprimir e se entristecer. Algumas delas já conseguiram lidar com isso de uma maneira mais emocionalmente inteligente, buscando alternativas diferenciadas para se adaptar ao contexto. Mas é uma minoria, a maior parte do público infantil foi privado dessa integração.”

Por Andressa Wentz e Bruno Pedroso