A contação de histórias também teve que se adaptar na pandemia. (Imagem: divulgação/escola da inteligência)

A pandemia trouxe mudanças significativas em diferentes áreas. Seja na educação, cultura, esporte, entre outras, as atividades tiveram que se adaptar ao isolamento social. Em uma cidade com cerca de 1.600 habitantes, uma tradição de contar histórias às crianças se reinventou.

Graduada em Letras pela Universidade de Passo Fundo, Márcia Kumpel trabalha desde 1997 como professora e já passou por escolas da rede municipal, estadual e particular. Um detalhe importante na carreira de Márcia é sua participação em projetos culturais que vão além da sala de aula: ela também atua com oficinas de contação de histórias, e um projeto que leva os livros até às pessoas – por meio de uma combi.

Márcia e a professora Yeda Gregory, antes da pandemia, levavam os livros até os leitores.

Com a chegada da pandemia e a suspensão das aulas presenciais, a contação de história nas escolas de Lagoa dos Três Cantos precisou continuar. A atividade se tornou um teatro online. Através de uma parceria da prefeitura municipal com uma empresa de audiovisual, foi possível desenvolver a Oficina de Contação de Histórias online. Os contos e histórias começaram a ser apresentados por meio de vídeos produzidos, editados e apresentados na página do município e da empresa. “O amor pela leitura não pode parar, por isso, pensamos em uma maneira de chegar até a casa de nossas crianças e tornar o dia delas mais alegre”, contou Márcia.

Além dos vídeos no YouTube, as histórias estão disponíveis na página da Prefeitura Municipal de Lagoa dos Três Cantos.

À cidade, a nova forma de compartilhar uma cultura já tradicional foi um trabalho inovador e pertinente ao momento, que buscou adaptar o leitor e não permitir que ele esquecesse dos livros. “Como leitora, professora há mais de vinte anos e contadora de histórias, acredito muito no poder da leitura para melhorar a vida de todas as pessoas, trazendo-lhes mais serenidade, resiliência e empatia”, afirmou a professora.

“[…] acredito muito no poder da leitura para melhorar a vida de todas as pessoas, trazendo-lhes mais serenidade, resiliência e empatia.”

Márcia, sobre sua experiência como professora.

Já o projeto “Uma história para todos”, também no formato online, surgiu de dois aspectos diferentes da jornada da professora doutora Bibiana de Paula Friderichs: o primeiro, da contação de histórias. Há anos Bibiana é uma contadora de histórias, desde quando estava na faculdade. Além de fazer parte, na época, do grupo de teatro da universidade, ela também fazia parte do grupo de contadores de histórias do “Mundo da Leitura”.

O segundo aspecto, da inspiração a partir do projeto “Audioteca” da Universidade de Passo Fundo, coordenado por ela desde 2004. “Esse desejo de contar histórias sempre fez parte de mim, e o Audioteca me fez pensar na questão da comunicação acessível, do quão importante é sempre propor produtos de comunicação que sejam acessíveis para o maior número de pessoas”, comenta Bibiana.

“Esse desejo de contar histórias sempre fez parte de mim, e o Audioteca me fez pensar na questão da comunicação acessível.”

Bibiana de Paula Friderichs

Da vontade de Bibiana de contar histórias a todos, surgiu o projeto “Uma história para todos”, que faz uso dos diversos recursos disponíveis atualmente para tornar as histórias acessíveis a todos os públicos, incluindo pessoas cegas e surdas. Do ponto de vista da professora, o formato online do projeto é uma vantagem, pois há a possibilidade de alcançar pessoas que não estão no mesmo espaço físico e também de circular na web, o que amplia o número do público. “Produzir uma comunicação acessível é pensar diferente desde o início do processo de produção. Não é só acrescentar legendas, é pensar nos elementos que vão tornar o produto, como um todo, acessível”.

Bibiana sempre foi apaixonada por contar histórias.

Por ser recente, o projeto conta com apenas uma história até o momento, intitulada “O cágado e a festa no céu” – história essa que foi contemplada pela lei Aldir Blanc, que tornou possível a gravação e a edição, bem como a participação de outras pessoas que colaboraram na contação. Para Bibiana, os feedbacks que recebeu quando a história foi ao ar foram interessantes, mas o que mais marcou é o ensinamento que teve ao se propor a fazer um produto de comunicação acessível.

A professora também aprendeu o quanto é preciso pensar previamente em todos os elementos necessários para que seja, de fato, acessível. “Não é só gravar uma história e botar audiodescrição e Libras. É preciso pensar no roteiro já considerando que ele vai ganhar uma audiodescrição e que ele vai ganhar uma intérprete de Libras. E isso faz toda a diferença”, complementa.

Por Raquel Favretto e Vanessa Ritter