Uma das apresentações da OSE em Chapecó, há alguns anos. A Orquestra completa 10 anos em 2021, e “coleciona” concertos incríveis.

A Orquestra Sinfônica de Estação na pandemia

Com a pandemia da Covid-19, uma das classes afetadas pelo isolamento foi a artística, que tinha o público – aglomerado – como uma parte fundamental dos espetáculos e apresentações. A Orquestra Sinfônica Brasileira, que completou 80 anos em julho de 2020, se reinventou e criou conteúdos virtuais. Foi criada uma série de transmissões na rede social, com apresentações individuais dos músicos. O sucesso foi tão grande que, na semana de aniversário da orquestra, a programação de comemoração foi justamente a publicação de conteúdos todos os dias. 

Mas o enorme impacto na atividade musical brasileira abrange não apenas os grandes grupos de escala nacional em todo o território brasileiro, como os projetos locais e regionais, que são menores. Em Estação, no norte do estado, está um deles. Um pequeno grande projeto: a Orquestra Sinfônica de Estação. O projeto iniciou em 2011, e a orquestra foi fundada nas escolas Emílio Tagliari de ensino fundamental e Francisco de Assis, de ensino médio.

A professora Eliana Pavinato Schmidt é coordenadora e pianista do projeto desde sua fundação, e explicou que em 2020 foram apenas 15 dias de atividades presenciais realizadas – o que corresponde a dois encontros, pois os ensaios acontecem semanalmente. Quando o decreto do governo paralisou as aulas, as da orquestra também pararam: “Como a Orquestra é um projeto desenvolvido na escola, segue o calendário da mesma…”.

Foi preciso muita resiliência para a equipe se reinventar e dedicação aos alunos para se adaptarem a essa nova realidade. A Orquestra tinha um projeto aprovado e em execução pelo Ministério da Cultura, mas ele não previa aulas remotas nem concertos online. Portanto, precisou passar por uma readequação enquanto as atividades estavam interrompidas e, quando aprovado novamente, as atividades foram retomadas com aulas online. 

A turma de iniciantes praticou com a professora Karin Alieska nas aulas remotas,
e a ajuda dos pais em casa.

No início de 2020, 15 novos alunos haviam ingressado no grupo – dos quais 10 persistiram, e ainda estão no projeto. As aulas desses alunos iniciantes, e dos músicos veteranos, são ministradas pelo Maestro Maurício Castelli e pelas professoras Camila Medeiros e Carin Alieska.

O Maestro Castelli, a professora Camila e a professora Eliana formam uma família musical há 10 anos, na Orquestra!

Sem a batuta e a contagem de “um, dois, três, quatro”, os professores também aprenderam uma maneira diferente de ensinar, ao compasso da pandemia.

Durante o período de aulas virtuais, os alunos foram distribuídos em pequenos grupos, por nível de estudo – iniciantes e avançados – e por naipes – cordas e sopros. “Para os músicos veteranos foi mais fácil, pois já dominavam a leitura de partitura e a conseguiam afinar seus próprios instrumentos”, explicou Eliana. “Para os iniciantes a adaptação foi mais difícil, mas houve muito empenho dos professores e apoio dos pais”. Em casa, as famílias tiveram que aprender junto com os filhos nas aulas, para estimular a vontade de continuar tocando os instrumentos.

A Isadora é uma das alunas iniciantes. Sem conhecimento sobre partituras, para os pais, foi um desafio. O diferencial foi o incentivo… “Sempre incentivamos ela a fazer os exercícios, participar das aulas e ver vídeos”, conta a mãe dela, Francieli Biazin. E, junto dele, o carinho: “Elogiávamos e demonstrávamos interesse para que ela compartilhasse os aprendizados”.

Mesmo com a atípica maneira de aprender a tocar violino, e entender a partitura, os pais perceberam os reflexos da inserção musical na vida da pequena violinista: “Memorização, responsabilidade, cuidado com o instrumento… além do orgulho que ela sente em fazer parte da orquestra”, exemplifica Francieli. “Como pais, é uma satisfação incentivarmos nossa filha, pois é um meio cultural que possibilita desenvolver e contribuir nas habilidades e conhecimentos”.

Isadora disse que foi legal ter aula em casa, com os pais por perto…
mas com a profe ela “aprende cada dia mais”.

E, assim como os pais abraçam seus filhos em casa, o projeto da Orquestra foi abraçado desde seu começo pela comunidade estaçonense, que, anos depois, continua acreditando no potencial da música. Em abril deste ano, houve a realização de uma live municipal em comemoração ao aniversário do município de Estação – da qual a Orquestra e o grupo do Coral da cidade se apresentaram.

“Muitos músicos já passaram pela OSE…”, disse Eliana. Alguns permaneceram por muito tempo, e outros, tiveram que se afastar em função de outros compromissos. “A maioria permanece durante o tempo em que estão estudando na escola, e depois seguem em busca de outros objetivos na faculdade, estágio ou trabalho”, continua a coordenadora.

Alguém que é exemplo dessa situação, é a Carine Girelli. Universitária, ela cursa Engenharia de Alimentos no Instituto Federal do Rio Grande do Sul e há 3 anos não participa das reuniões semanais de ensaio da orquestra. “Depois que eu comecei a fazer faculdade, ficou mais difícil estar nos ensaios e concertos, porque colidiam com meus horários de aula”, explica. Entretanto, ela conseguiu ensaiar e se apresentar na live com o grande grupo. “Foi uma experiência muito diferente… o uso da máscara, todo cuidado com higienização, e no lugar das pessoas tinha uma câmera! Não dava para ter ideia se tinha alguém realmente te assistindo, se estava dando para ver ou ouvir direito”. Ela reforça que foi o melhor que pôde ser feito, e que foi bom levar entretenimento para as pessoas nesse momento.

Carine é uma das veteranas da OSE – ou seja, fez parte do grupo fundador da orquestra. “Sempre tive e tenho muito carinho pelo projeto”, diz ela. “Acompanho e torço muito para a orquestra ser reconhecida, ter oportunidades de apresentações e mostrar para outras pessoas como funciona uma orquestra!”, finaliza.

Todos os protocolos foram seguidos, com uso de máscara por todos os músicos e a higienização do local e do material.
Carine é a segunda da esquerda para a direita, mais ao fundo.

E, falando em ser veterano… A OSE completa 10 anos em 2021!

A professora Eliana relembra emocionada da década intensa de história da Orquestra Sinfônica de Estação: “Foram muitas viagens e concertos que ficarão sempre em nossa memória!”. Uma viagem à Brasília com Concerto no Senado Federal e também um concerto no Palácio Piratini em Porto Alegre, que oportunizou uma visita ao Teatro São Pedro e assistir ao ensaio da Ospa. Muitas participações no Festival de Orquestras de Chapecó, e de inúmeras outras cidades gaúchas. 

Pois é, lembra da Carine?! Esteve em todxs. Agora, é a vez da Isadora estar. E sobre a agenda do projeto nos próximos meses… “Já temos prevista uma live especial, e mais algumas surpresas que virão…!”, finaliza a professora Eliana sobre a programação da comemoração.

Quantos são, de onde vem, como tocam, quando aprenderam… questões simples que se tornaram ainda mais exíguas, em comparação a proporção de outras coisas tão complexas no nosso mundo. Afinal, não é sobre números, e sim sobre pessoas. Num mundo onde ninguém mais se escutava, e uma pandemia silenciou a todos… procura-se para a sociedade a harmonia que se encontra na partitura. Bach, um dos maiores compositores clássicos da história, disse que “o objetivo e a finalidade de toda música deveria ser a renovação da alma… e, quando isso se perde, restam apenas ruídos e gritos”.

E é por isso que, seja em Brasília, Porto Alegre, em Chapecó, ou Estação… o que se ouve em todo lugar, é o mesmo. Que os gritos e ruídos dos tempos difíceis, sejam substituídos por notas que renovem a vida e mostrem tempos melhores. E olha que, de tempo… músico entende.

Por Roberta Scolari dos Santos