Embora Queen defenda que o “the show must go on”, agora ele precisou dar uma pausa. Era fácil andar pelas ruas e encontrar filas para entrar em casas de show, lancherias e bares lotados. Hoje, após mais de um ano de pandemia, tudo está bem diferente. Embora já tenham retornado, o horário de funcionamento continua a ser reduzido e o número de clientes também. Em Passo Fundo, o atual decreto permite a abertura de estabelecimentos como restaurantes e bares até às 21h, e casas de festas continuam proibidas de funcionar.

A decisão que busca ajudar na prevenção da Covid-19, pandemia que já levou a óbito mais de 496 mil pessoas, sendo 30 mil gaúchas, é comum em inúmeras cidades brasileiras. O que, por um lado, é fundamental para a segurança e sobrevivência da população, também prejudica algumas delas. 

É o que conta Tauhan Noll, produtor de eventos do Hooks Bar, estabelecimento de Carazinho que funciona há 7 anos e que durante períodos “normais” chegava a realizar sete festas por mês. Desde março de 2020, quando a quarentena iniciou no Brasil, o lugar só conseguiu voltar a funcionar após reformas e ampliação de atividades. “Inserimos a cozinha como uma atividade, além da inauguração de um novo espaço, o lounge superior. Entretanto, reinauguramos a casa em metade de janeiro, e em metade de fevereiro, tivemos novas restrições dos governantes”, aponta. 

Em janeiro, o restaurante reformulou sua marca e modo de atuar para poder se adequar a realidade de pandemia. Imagem: Divulgação

Na impossibilidade de operar como antigamente, o delivery se tornou uma escapatória para o grande prejuízo financeiro notado, e, também, uma oportunidade para a marca se manter em evidência na vida dos carazinhenses. Na cidade, o decreto funciona em bandeira vermelha, o que engloba diversas medidas sanitárias em razão da alta disseminação do vírus e da lotação dos leitos do Hospital de Caridade de Carazinho e do Hospital São Vicente de Paulo, referência no tratamento. 

O produtor de eventos atua no Hooks Bar desde a sua abertura. Imagem: Arquivo Pessoal

Mesmo com as medidas estabelecidas, Tauhan ainda aponta um enorme descaso a nível federal e estadual com o setor. “Entendemos o momento, porém, não concordamos com diversas situações de aglomerações e desrespeito com os protocolos por outros setores. A pandemia já tem mais de um ano em nosso país e é inadmissível que apenas o setor dos eventos seja prejudicado, ao passo que todas as outras atividades estão normais. Não houve amparo, tampouco interesse na busca de soluções para amenizar o sofrimento destes trabalhadores”, desabafou o produtor. 

Prova dessa dificuldade apontada por ele são os 15 colaboradores que foram desligados. O lugar que antes tinha 25 pessoas envolvidas diretamente com a produção, execução e promoção dos eventos, hoje tem apenas 10. “Vivemos de entretenimento. Precisamos do presencial para que nosso sonho continue vivo. Acredito que ao passo que a imunização de nossa população avance, os eventos tenham sua realização normalizada, mesmo que em etapas. É fundamental que isso aconteça nos próximos meses, e torcemos muito para isso”. 

Palcos vazios

Colaboradores essenciais para as atividades de casas de festa como Hooks, os músicos sentiram essa perda na pele. A Pesquisa Músicos e Pandemia, uma inédita Parceria da UBC com o cRio, o think tank da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), entrevistou 883 músicos, compositores, intérpretes, produtores e outros profissionais da música que responderam ao questionário e representam, com margem de erro de cinco pontos, o universo musical nacional. Destes, 86% foram afetados pela pandemia. 

Luiz hoje mora em Carazinho, mas é natural de São Paulo. Imagem: Arquivo Pessoal

Luiz Freitas é exemplo disto. O músico teve que buscar outra área profissional para atuar e conseguir se manter. Desde 2015, 80% da renda dele era advinda da música, o que mudou drasticamente em 2021, quando ele finalmente conseguiu um emprego. O ano de 2020 não foi de adaptação para Luiz, mas sim de completa ausência de trabalho. “Basicamente, todas as áreas nas quais eu tenho alguma experiência se encontravam ou fechadas ou muito restritas. Sobrevivi graças ao Auxílio Emergencial e alguns bicos”, aponta. 

“A música para mim sempre foi sobre me conectar com pessoas. É muito ruim estar longe dos palcos”, conta o artista que desde os 15 anos toca profissionalmente. “Eu sempre brinco que meus melhores shows não foram os que toquei pra muita gente, mas sim aqueles em que tinha um grupinho de pessoas no meio da plateia e eu conseguia de cima do palco enxergar que aquelas pessoas conseguiam se conectar ao que eu estava cantando, sentir verdade naquilo que eu estava fazendo. Esse é um dos melhores sentimentos do mundo”, fala com saudades já que a sua única apresentação desde o início da pandemia foi em fevereiro de 2021, quando houve um relaxamento das restrições. 

Afastado antes mesmo da pandemia dos palcos em virtude da sua saúde, o último show dele foi realizado em novembro de 2019. Com tristeza, ele aponta não ver uma volta tão breve à normalidade antes conhecida. “Muito provavelmente os eventos não irão e nem deveriam ser retomados ainda esse ano. Acho que na atual situação que vivemos, com os números de internações e mortes como estão, a retomada de atrações musicais presencial não é algo benéfico”. 

Assim como Tauhan, Luiz vê na vacinação a única forma de voltar ao completo funcionamento dos estabelecimentos. “Uma vez que tivermos a grande maioria vacinada a retomada vai acontecer e em um primeiro momento teremos uma explosão no setor de eventos, tanto pela necessidade financeira dos produtores de tirar o tempo perdido quanto também do público pelo mesmo motivo”. 

“Entendo a necessidade de muitos em fazer os shows que tem aparecido, afinal de contas as pessoas precisam sobreviver e quem deveria prover uma solução é totalmente omisso no que diz respeito a qualquer forma de cultura, não apenas a música, mas eu me sentiria extremamente irresponsável em apoiar isso nesse momento”, finaliza o artista.

por Letícia Vargas e Tainá Binelo