A horizontal shot of the desks inside of the Scottish parliament building

A falta da representatividade de pessoas LGBTQIA+ é um desafio na política brasileira atual. A população no Brasil é estimada em 20 milhões de pessoas, segundo o IBGE. O número, no entanto, é variável, já que muitos podem ainda optar por não declararem a orientação sexual perante a pesquisa. 

Majoritariamente, os eleitos pelo povo no país são homens, brancos, heterossexuais e de classe média/alta. Em teoria, democracia é uma forma de governar em que não havia diferenças ou privilégios entre as classes. Entre os mais prejudicados, se tratando de direitos constitucionais, estão lésbicas, gays, trans, etc. 

O Brasil é um dos países que mais mata essa população no mundo, parte daí, a necessidade de cargos representativos não só na esfera legislativa, mas nas demais camadas da sociedade. A existência de representantes LGBTQIA+ em espaços de poder público fortalece o sentimento de orgulho dos membros da comunidade, além do mais, é uma ferramenta essencial de combate à LGBTQIA+fobia, já que ajuda a normalizar a diversidade social e do governo mais políticas de igualdade. 

No último ano, houve um aumento significativo do número de candidaturas LGBTQIA+ nas eleições, mais de 500, em muitas capitais e cidades, as mulheres do movimento foram mais votadas em 2020. Dentro das propostas eleitas junto com seus representantes evidenciam o incentivo ao voto, como o maior motor para a representatividade na política, também, é claro, pautas para a criminalização da homofobia em seus amplos aspectos.

Formado em Comunicação Social, Laércio Zancan, 32, popularmente chamado de Lalá, é um exemplo da representatividade LGBTQIA+ em espaços políticos, representatividade essa cada vez mais frequente na política nacional e também mundo afora. Gay assumido e ativista das pautas LGBTQIA+, Lalá foi eleito vereador em 2020 na pequena cidade de Marau, interior do Rio Grande do Sul, com mais de 900 votos. O vereador usa suas redes sociais, principalmente seu Instagram, como forma de aproximação com a população da cidade. Através de seus posts na rede social, promove ao público marauense que o acompanha transparência e integração em relação a seus projetos e demais ações políticas na Câmara de Vereadores.

Laércio fala com orgulho sobre o fato de ser o primeiro vereador assumidamente gay a ser eleito em Marau. “Acredito que é um avanço estar representando os LGBTs e ser o primeiro deles na Câmara de Vereadores de Marau”. Ainda segundo o vereador, além de ser um avanço para a cidade de pouco mais de 40.000 habitantes, é também um avanço para a região, pois mostra que a comunidade LGBT não apenas pode ocupar espaços públicos, como também deve ocupar esses espaços de tomadas de decisões.

Laércio Zancan, 32, popular “Lalá”, primeiro político assumidamente gay da cidade de Marau, interior do Rio Grande do Sul

Quando perguntado sobre possíveis episódios de homofobia por conta de seus colegas políticos e da população mais conservadora, Lalá responde que nunca sofreu nenhum ataque direto, mas que percebe que alguns colegas sentem-se desconfortáveis com sua presença. “Faço questão de ir em toda sessão com a máscara do arco-íris, que representa a bandeira LGBT, então percebo alguns olhares mais estranhos”. Já em relação à população, Laércio conta que sempre que seus projetos são postados nas redes sociais, aparecem comentários desagradáveis, sempre relacionados à questão da sexualidade do vereador, mesmo que tais projetos não tenham nenhuma relação com sua orientação sexual. “Eu devo ser o vereador mais monitorado pela população, eles ficam à espreita de qualquer deslize para usar isso contra mim”.

Laércio tem planos de criar e executar projetos voltados para a comunidade LGBTQIA+. Porém, como forma de evitar críticas por parte dos mais conservadores, nesse primeiro momento de seu mandato como vereador, ele está voltando sua atenção para projetos “gerais” em áreas diversas, como forma de estratégia para agradar a todos os públicos. Com bom humor e uma pitada de ironia, ele conta que seu pedido de ter as luzes da Câmara iluminadas com as cores da bandeira LGBT no dia do internacional do orgulho LGBT (28/06) foi negado, então ele entende que é preciso ter cautela com possíveis projetos de lei voltados à temática, mas que tais projetos certamente estão em seus planos dentro de um futuro próximo e, claro, dentro do possível para uma cidade conservadora como Marau.

Por Raquel Favretto e Talita Trombetta