A Copa América teve uma novela politica acontecendo no último mês de maio e julho para definição da sede da competição em 2021. A decisão, que tomou cunho politico e dividiu o país, mais uma vez, em esquerda e direita, começou bem antes mesmo.

A pandemia, momento politico e o negacionismo fizeram o futebol atravessar a fronteira das quatros linhas e transbordar para a política, provando de uma vez por todas, também, como o esporte é sim política – mas não pode ser partidarismo.

Assim, entender os fatos numa linha do tempo é essencial para tal compreensão das decisões da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) a levar a competição ao Brasil.

O Começo de Tudo

Março 2017

No início do ano de 2017, mais precisamente em março, a Conmebol propôs que a Copa América, principal competição da organizadora, ocorresse no ano de 2020, como parte de uma mudança no calendário da Confederação.

Após a edição de 2019, que ocorreu no Brasil, o torneio quadrienal, que ocorria em anos ímpares, passaria para os pares a partir de 2020, com a próxima edição passando a ocorrer no Equador, cinco anos após a do Brasil, em 2024. Essa decisão colocaria as datas do torneio de acordo com a Eurocopa, principal competição continental do mundo, que também ocorre em anos pares. 

Especulações sugeriram que os Estados Unidos pudessem fazer parte das sedes do torneio. Lembrando que os Estados Unidos, anteriormente, foi sede da Copa América Centenário em 2016, que comemorou o centenário da Conmebol e da Copa América.

Setembro de 2018

Em 18 de setembro de 2018, os planos de mudança do calendário foram avalizados pelo presidente da Conmebol Alejandro Domínguez, depois de apresentar um pedido oficial à FIFA.

No dia 26 de outubro de 2018, durante reunião do Conselho da Federação Internacional de Futebol (FIFA) em Kigali, o pedido foi aprovado para que a Copa América fosse realizada em anos pares, iniciando a partir da edição de 2020. O torneio teria como tempo transcorrido de 12 de junho a 12 de julho de 2020, datas idênticas às do Campeonato Europeu de Futebol de 2020.

Março de 2019

Em 13 de março de 2019, a Conmebol divulgou a Argentina e a Colômbia como hospedeiros da edição de 2020, após a proposta dos Estados Unidos ter sido rejeitada, juntamente com as propostas da Austrália, China, Rússia e Catar. Foi oficialmente anunciado no dia 9 de abril de 2019 no congresso promovido pela Conmebol, no Rio de Janeiro, que os países vizinhos seriam os países-sede da Copa América 2020 e também, a forma de disputa da competição. No dia 4 de junho foi revelado que a Austrália seria a outra seleção convidada a participar dessa edição do torneio, junto com o Catar, que estava confirmado desde abril. 

O presidente da CONMEBOL, Alejandro Domínguez, em pronuncimento sobre a Copa América em 2021

Em 15 de março de 2021 a Conmebol divulgou uma nova tabela da competição, reformulada após a desistência das seleções de Austrália e Catar, por causa da pandemia de Covid-19.

O Adiamento

Março de 2020

Em março de 2020, a pandemia de COVID-19 na América começou a realizar estragos no futebol. A FIFA anunciou que as duas primeiras rodadas das Eliminatórias Sul-americanas para a Copa do Mundo de 2022, que ocorrerá no Catar, que deveriam acontecer em março, haviam sido adiadas, ao mesmo tempo que a Conmebol interrompeu de forma temporária a Copa Libertadores.

Em 17 de março de 2020, a CONMEBOL anunciou que a Copa América seria adiada para o ano seguinte, passando a ocorrer de 12 de junho a 12 de julho de 2021, com o objetivo de proteger a saúde e segurança das equipes, da mídia, dos visitantes e das cidades-sede.

A Desistência da Colômbia e Argentina

Abril de 2021

No dia 22 de abril de 2021, durante a exibição do programa Blog Desportivo da BluRadio de Bogotá na Colômbia, a Argentina estava planejando desistir de sediar a Copa América de 2021 por conta da segunda onda da Pandemia de COVID-19, segunda onda esta que começava a gerar preocupações no Governo Argentino. Se caso houvesse a desistência da Argentina, a Colômbia passaria a ser sede única, com a inclusão das cidades de Ibagué, Palmira, Manizales e Armênia.

Manifestante em protesto no dia 28 de abril na capital colombiana após ser ferido pela polícia local

No dia 28 de abril de 2021, a Colômbia viveu o início de uma onda de manifestações contra a reforma tributária, com números maiores na capital Bogotá e em Cali, ambas cidades sedes da Copa América e a última sendo sede da primeira edição dos Jogos Pan-Americanos Juniores que acontecerão em novembro. 

A tensão cresceu com o uso da força policial no segundo dia de protestos no dia 29, com várias manifestações de paralização sendo realizadas por diversos setores como caminhoneiros e taxistas.

Maio de 2021

No dia 3 de maio, o presidente da Colômbia, Ivan Duque, anunciou a extinção do processo de reforma tributária após o crescimento do movimento de oposição, já que a medida afetaria as classes médias e baixas.

Os protestos também afetaram em cheio os jogos da Copa Libertadores da América, sobretudo a partida entre Atlético Nacional (Colômbia) e Nacional (Uruguai) em Pereira, que aconteceu com atraso no dia 12 de maio, após os manifestantes bloquearem o hotel onde estavam hospedados a equipe técnica e os jogadores do time uruguaio..

Em 13 de maio, apesar do pior momento da Pandemia de COVID-19 na Argentina e pela Crise Social na Colômbia, a Conmebol anuncia que iria bancar a realização da Copa América nos dois países. No dia 18, através de comentários internos na confederação, passou a ser discutido uma possibilidade dos jogos acontecerem apenas na Argentina por conta das tensões sociais e instabilidade na Colômbia.

O presidente argentino, Alberto Fernández, em entrevista no dia 17 de maio, anunciou que estava colocando o seu país a disposição da Conmebol para assumir os jogos que acontecerem na Colômbia (Lado Norte).

No dia 20 de maio, através de uma publicação do Jornal Marca, foi anunciado que a Colômbia teria desistido de sediar a Copa América em razão da onda de protestos no país e pela altos números de casos confirmados e de óbitos da COVID-19, fazendo com que a Argentina se tornasse sede única das competições.

Tal fato se confirmou horas depois pela Conmebol que anunciou que Argentina, até o momento, iria receber todas as partidas da competição. Houve até mesmo uma tentativa de migrar as competições do Lado Norte para o Chile, reutilizando os estádios da edição de 2015, porém, foi descartada por questões comerciais. Após a confirmação, a entidade passou a discutir uma possibilidade de escolher um novo país para substituir a Colômbia, com o objetivo de realizar algumas partidas com uma parte do público.

Em 30 de maio, a Conmebol anuncia que a Copa América não vai mais acontecer na Argentina, sem maiores explicações. Além disso, os países interessados em receber o evento terão as propostas analisadas e em seguida, a confederação anuncia a decisão final. Antes do anúncio da suspensão da competição no país, uma pesquisa de opinião pública, divulgada no dia 28, mostrou que 70% dos argentinos rejeitavam a realização da Copa América no país.

O Brasil como nova sede

No dia 31 de maio, um dia após o anúncio da deixa da Argentina, a Conmebol anunciou que os jogos irão acontecer no Brasil, sob os argumentos de que o país possui a melhor estrutura para abrigar as competições. Tal anúncio pegou a imprensa e o mercado esportivo de surpresa, levando a várias matérias criticando a escolha do país, sob argumentos da alta no número de óbitos pela COVID-19 e pelo ritmo lento de vacinação. 

O vice-presidente da República, Hamilton Mourão (PRTB), destacou que a realização da Copa América no Brasil representa menos risco do que na Argentina. Contudo, a posição do governo brasileiro frente à realização da Copa América vai de encontro à posição diante da possibilidade de sediar a Copa do Mundo Feminina de 2023, quando o Brasil desistiu de sediar o torneio alegando falta de apoio do Governo Federal que citou dificuldades resultantes da pandemia de Covid-19.

O vice presidente chegou até a criticar o técnico da seleção brasileira, Tite, sobre uma possível desistência do torneio por conta do viés político

Logo após o anúncio, o governo de Pernambuco anunciou que não irá receber as competições, vetando qualquer proposta. Além de Pernambuco, os estados do Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e Minas Gerais também recusaram a proposta de receber o torneio se forem sondados.

Os governos da Bahia, São Paulo, Mato Grosso e Amazonas anunciaram que não irão se opor ao evento, desde que aconteçam sem a presença de público e seguindo protocolos locais.

Junho de 2021

No dia 1° de junho, é anunciada a confirmação do país como nova sede, anunciando as competições nas cidades de Brasília, Goiânia, Cuiabá e Rio de Janeiro, podendo ter mais sedes quando sair a confirmação oficial.

Ameaças de boicote e saída de patrocinadores

Logo após o anúncio da escolha do Brasil como sede, jogadores da Seleção Argentina teriam se irritado com a decisão, manifestando um desejo de um possível boicote. Em 4 de junho, o técnico da seleção Lionel Scaloni, demonstrou preocupação do evento no país, mas garantiu que a seleção estará presente, descartando um boicote visto inicialmente.

Um grupo de jogadores da Seleção Brasileira, formado por Neymar, Casemiro, Thiago Silva, Alisson, Marquinhos e Danilo participaram de uma conversa com o presidente da CBF, Rogério Caboclo, para afirmar que não foram consultados sobre a decisão da Conmebol de realizar a Copa América no Brasil, sob ameaças de não participar do evento. Tal decisão de oposição ao evento também motivou jogadores de outros países como Luis Suárez e Edinson Cavani da Seleção Uruguaia e Lionel Messi da Argentina.

Patrocinadores da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) também demonstraram indignação com a escolha do país na Copa América.

Logo após o jogo das Eliminatórias da Copa contra o Equador, Casemiro afirmou em uma entrevista à TV Globo que a posição dos jogadores e da comissão técnica quanto a Copa América, segue sendo a mesma, dando a entender a oposição ao torneio no país e a suposta ameaça de boicote.

A crise na CBF, sendo também agravada por uma denúncia contra o presidente da confederação, Rogério Caboclo, por assédio moral e sexual a uma funcionária, levou a uma suposta interferência do Governo Federal a Seleção Brasileira, pensando em retirar jogadores e o técnico Tite por conta dos protestos contra a Copa América, indo de contra a uma determinação no estatuto publicado pela FIFA.

Em 6 de junho, a Argentina decide participar da Copa América, após especulações de um possível boicote com protestos de jogadores. Em 7 de junho, os jogadores da Seleção Brasileira decidem participar da Copa América mediante a protestos. Posteriormente, Mastercard, Ambev e Diageo decidiram não vincular suas marcas à Copa América 2021.

Supremo Tribunal Federal dá o aval a Copa América

Após dias de muita tensão em toda essa questão, com possível jogada politica sendo o motivo do Brasil ser sede e ainda tendo negado mais de 50 e-mails da Pfizer, produtora da vacina contra o COVID-19, segundo reportagem da Folha de São Paulo, o Supremo Tribunal Federal (STF) deu o aval para a competição ocorrer no dia 10 de junho, após reunião extraordinária realizada em última hora.

O sentimento que se ficou

Muito do que se foi falado em programas esportivos ou não, foi a jogada de a Copa América ser usada como um meio politico pelo governo federal, sob as mãos do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Segundo apurado em reportagens que circularam o país, Bolsonaro teria sido um dos nomes que puxaram a Copa América ao Brasil, o que revoltou parte da população. Isso, aliado a crise da CBF, politizou o assunto e criou-se, como tudo no Brasil hoje em dia, um bipartidarismo, onde quem pensa de certa forma é esquerda e de outra forma, de direita.

Os jogadores do Brasil postaram uma nota na terça-feira, 8 de junho, após o jogo contra o Paraguai, que são contra a Copa América, mas que vão jogar pois não podem negar o chamado da seleção.

O presidente da CBF segue afastado e não há previsão se Caboclo vai ser demitido do cargo pelo Conselho de Ética da entidade privada.