Aumentar a qualidade de vida e o bem-estar são apenas alguns dos inúmeros benefícios gerados pelo esporte. A prática esportiva também é uma ferramenta de inclusão social, que contribui para a integração, socialização, disseminação de valores e a formação de cidadãos éticos e responsáveis. Além disso, o esporte também é uma maneira de se manter um estilo de vida ativo e saudável.

Em Tapejara, uma cidade, com quase 20 mil habitantes, no norte do Rio Grande do Sul, duas iniciativas provam que é possível mudar realidades e aumentar a esperança na realização de sonhos, através do esporte. Dois projetos sociais realizados, de forma gratuita, com crianças, adolescentes e jovens incentivam a prática esportiva, através da disponibilização de aulas de futebol. 

O “Escola de Futebol Lucas Lima 6” e “Boa de bola, boa na escola” são ações onde o foco principal está na transformação. Enquanto um é focado no treinamento, o outro é para instalar uma semente de esperança na realização de sonhos, mas ambos são exemplos de projetos sociais que contribuem para o desenvolvimento local e inspiram a construção de sociedades mais prósperas. 

Pequenos com grandes sonhos

Desenvolver atividades esportivas, principalmente técnicas do futebol, em horários extraclasse, usando como meio de integração social e educação para a cidadania, levando esporte gratuito e de qualidade. Essa é a visão da “Escola de Futebol Lucas Lima 6”.

O projeto social iniciou em junho deste ano e já possui a participação de 200 crianças e adolescentes da região do município de Tapejara/RS, com idades entre 5 e 15 anos, que divididos em 10 turmas, treinam duas vezes por semana e praticam atividades para o treinamento e divertimento através do futebol.

Mateus Lima é um dos coordenadores do projeto. Ele conta que o amor pelo futebol surgiu ainda na infância, quando ele e seu irmão Lucas Lima sonhavam em ser jogadores de futebol profissional, para proporcionar uma melhor qualidade de vida para seus pais, e também poder oferecer esporte e educação para outras pessoas. Lucas conseguiu concretizar o sonho, hoje é jogador profissional na Turquia. Mateus realizou apenas um dos sonhos e colaborou para a criação da escolinha de futebol, nomeando-a em uma homenagem a seu irmão, Lucas Lima, que nos jogos utiliza a camisa de número 6. 

“O projeto surgiu do reflexo de educação e amor incondicional que nossa mãe, dona Janete, nos deu. Sempre vou lembrar dela e dos seus ensinamentos. A frase: ‘O que é dos outros não é meu, mas o que é meu está aí para os outros se precisar’ descreve bem o legado deixado por ela e serviu de inspiração para a criação do projeto”, afirma Mateus. 

Matias também é torcedor fanático do Internacional. (Crédito: Edieli da Silva)

Matias da Silva, de 11 anos, é uma das crianças que participa do projeto. O seu grande sonho é ser goleiro do Internacional. “Sempre gostei muito de jogar bola. Desde quando comecei a ir na escola, a minha matéria preferida é a educação física. Com o projeto aprendo coisas novas e descubro habilidades que não sabia que tinha, daí fico muito feliz”, comenta Matias. Ele pretende participar do projeto até que a idade permita. 

É preciso boas notas

Voltado para a formação de atletas nas categorias de base, proporcionando e oportunizando o desenvolvimento e aprendizado sobre o futebol. Podem participar apenas meninas, com idades entre 8 e 16 anos, que sonham um dia em ser jogadoras profissionais de futebol. Para fazer parte é preciso ter boas notas na escola, em uma espécie de troca-troca. Pode mudar destinos, histórias e realizar o sonho de muitas meninas. As descrições são do projeto social “Boa de bola, boa na escola”. 

Desenvolvido desde 2012, a iniciativa busca a socialização, proporcionando a prática de habilidades físicas, motoras, técnicas e táticas do esporte, fortalecendo aspectos formativos e educacionais, conhecimentos culturais e diminuindo a evasão escolar, pois para participar é preciso ter boa regularidade e frequência na escola. Mas acima de tudo é respeitada a individualidade biológica e a condição física de cada menina. 

João Carlos de Lemes, mais conhecido como Taraíra, é o responsável e organizador da iniciativa. Taraíra sempre teve um carinho enorme em colaborar para a realização dos sonhos das pessoas.

“Sempre me dediquei a diversas causas sociais. Acredito que se cada um fizer uma parte, o mundo será um lugar melhor para se viver. E esse projeto em específico, me causa muito orgulho”, afirma Taraíra.

A ação visa também preencher o tempo ociosos das participantes, consequentemente descobrindo grandes talentos da região. 

Meninas residentes em dois bairros carentes de Tapejara/RS são as principais convidadas para participarem do projeto, estimulando assim crianças, adolescentes e jovens a se manterem longes das drogas e da marginalidade. No entanto, meninas de outras cidades da região também podem participar das atividades.

Em 2021, devido a pandemia do Covid-19, apenas 25 participantes estão frequentando os treinos, duas vezes por semana em contra turno escolar. Em anos anteriores, o projeto já teve a participação de mais de 100 meninas no ano. 

Dentre as finalidades do “Boa de bola, boa na escola” está a participação das jovens, que melhores se destacarem, em campeonatos locais e regionais. Nas competições elas representam a Adergs/Tapejara (Associação Desportiva do Rio Grande do Sul). Para a participação nas competições e manutenção das atividades diárias, a iniciativa  possui o apoio de diversas empresas e entidades tapejarenses, que colaboram com valores financeiros para a aquisição de uniformes, equipamentos e lanches nos dias de jogos oficiais. Além de representarem a Adergs, as atletas também são incentivadas a participarem de seletivas em outros clubes.

Revelando talentos

Em um país com tantas histórias de jovens que venceram condições adversas por meio do esporte, torna-se mais do que evidente a importância da prática esportiva como ferramenta de inclusão social. É neste contexto que a realização do “Boa de bola, boa na escola”, certamente, contribui para motivar esses novos atletas e ajudá-los a transformar suas vidas e as das pessoas ao seu redor.

Káren atua profissionalmente no Botafogo/RJ desde janeiro de 2020. (Crédito: Léo Sguaçabia)

De acordo com Taraíra, 36 meninas já estão jogando profissionalmente futebol. Uma entre tantos casos é da jogadora Káren Bender. Aos 25 anos e natural de Passo Fundo/RS, a jovem atualmente é atleta profissional do time feminino do Botafogo, do Rio de Janeiro.

“Fui inspirada pelos meus irmãos que desde criança jogavam futebol, assim eu cresci vendo eles jogando e querendo sempre estar junto, dentro do campo. Lembro que na infância, jogávamos nos campinhos de terra perto de casa. E desde então, não parei mais”, afirma Káren. 

A relação da Káren com o projeto “Boa de bola, boa na escola” iniciou em 2012. Com apenas dois anos de treinamento, ela já participava de campeonatos profissionais na categoria adulta, ainda quando era jovem.

“O projeto foi essencial para o meu crescimento, aprendi muita coisa e ganhei experiências fundamentais para eu estar onde estou hoje. Há 9 anos atrás, o futebol feminino ainda não tinha tanto destaque, mas mesmo assim vi nele uma oportunidade para realizar os meus sonhos”, destaca. 

Káren possui como inspiração no futebol, a jogadora da Seleção Brasileira Marta. “A Marta influência a todas nós, jogadoras, a acreditar que é possível. Ela é um ícone do nosso país e com certeza vem contribuindo muito para a nossa modalidade. Ela sempre será um espelho para a nossa e as próximas gerações”, pontua.

Inspirar para transformar

De fato, o Brasil é conhecido como o país do futebol, pela paixão da população no esporte e pela quantidade de craques que o país já revelou mundo afora. E essa paixão inspira muitas pessoas a trilharem essa trajetória no esporte. Contudo, em um país com tanta desigualdade como o Brasil, ainda vemos muitas Kárens e muitos Matias não conseguindo realizar seus sonhos, devido a falta de oportunidade. Os projetos citados acima dão esperança para os brasileiros e inspiram que outras pessoas também possam colaborar com a transformação de vidas. 

Por: Mateus Roncaglio