O grupo feminino de ginástica artística da Alemanha abriu um debate nas Olimpíadas de Tokyo. As ginastas participaram dos treinos e classificatórias usando calças leggings para cobrir o corpo todo ao invés de collant. O motivo? A sexualização dos corpos femininos nos esportes. Mas se engana quem acha que foi a primeira vez, já no campeonato Europeu o grupo mudou o tradicional uniforme em forma de protesto, este liderado por Sarah Voss, uma das ginastas. A grande repercussão apenas agora se deve ao fato de muitos veículos jornalísticos estarem cobrindo os jogos olímpicos.

Nesse mesmo mês, a seleção norueguesa de handebol de areia feminino usou short para jogar o Campeonato Europeu de handebol e não o tradicional biquíni, e foram multadas em US $1.764, equivalente a R$ 9 mil. A desculpa da Federação Europeia de Handebol é que o uniforme curto atrai mais atenção para o esporte e sem ele o número de telespectadores diminuiria. 

Os protestos aconteceram porque o corpo da mulher é visto de forma objetificada, algo para ser apreciado por ser belo e apenas isso e porque em muitos casos fotos de esportistas são usadas para conteúdo pornográfico, visto que o uniforme tradicional é minúsculo em relação ao do sexo oposto. Mesmo assim, muitas pessoas acharam desnecessária a iniciativa das ginastas e das jogadoras de handebol. “Mimimi da parte delas que querem chamar atenção, visto que até pouco tempo atrás não se falava sobre isso”, são comentários vistos na internet acerca do tema. 

Se a ideia é ver o atleta de uma forma melhor, por que os homens também não usam a mesma  roupa que as mulheres?

– Jéssica Berlando.

Jéssica Berlando, bailarina e estudante de educação física na PUC Paraná, afirma que “ O debate é totalmente válido. A roupa curta em alguns esportes facilita o movimento, além de deixá-lo mais “limpo” e faz com que o júri consiga ver o corpo do atleta melhor, para melhor avaliá-lo, porém não faz muito sentido quando na mesma modalidade, homens usam calças e mulheres shorts extremamente curtos, se a ideia é ver o atleta de uma forma melhor por que os homens também não usam a mesma  roupa que as mulheres?” A bailarina complementa dizendo que a mulher atleta ainda é extremamente sexualizada porque nunca houve um debate específico nessa área como está tendo agora, desde a criação da ginástica pouca coisa mudou nos figurinos utilizados. 

Na verdade, a única mudança foi a diminuição do tamanho dos collants, agora em formato de V, usados pelas ginastas.

Antes e depois dos uniformes usado pelas ginastas. Atualmente os collants são mais curtos na região da virilha, mostrando mais o corpo da ginasta.
Antes e depois dos uniformes usado pelas ginastas. Atualmente os collants são mais curtos na região da virilha, mostrando mais o corpo da ginasta.

“Se eu sou uma ginasta e quero competir de macacão e isso não muda meu desempenho, por que proibir?

– Luana Lemes.

Luana Lemes assessora do Passo Fundo Futsal, diz que levanta a bandeira de que tudo que se é “exigido” se tratando de roupas está errado. “Se eu sou uma ginasta e quero competir de macacão e isso não muda meu desempenho, por que proibir? Assim como no vôlei de praia ou qualquer outro esporte.” Luana também lembra que não são apenas as atletas que sofrem com a sexualização do corpo no meio esportivo, mas também as jornalistas. Mas a assessora diz que muito se mudou nos últimos anos, felizmente evoluímos como sociedade e tivemos os direitos das mulheres ampliados, assim como começou os debates sobre o sexo feminino no esporte e inúmeros outros. Ainda sim, há muito o que lutar. Luana lembra das musas do futebol, que em muitas das vezes precisam participar do concurso de biquíni, fazendo com que o pensamento comum continue arcaico, acreditando que as mulheres no futebol servem apenas para desfilar. 

Mas e se tivéssemos começado a discutir sobre esse tema antes? Jéssica acredita que seria bom, mas se fosse há 40 ou 50 anos atrás talvez não tivesse o mesmo efeito que teve nos dias de hoje, afinal o contexto histórico era outro. Mas estamos no século XXI. Já passou da hora de começarmos a expandir horizontes e enxergarmos os corpos femininos, não apenas no esporte, de uma forma diferente à qual estamos acostumados a ver.

Por: Luana Signor e Júlia Koop