A espera que uma vez ultrapassou 50 anos, desta vez durou apenas um ciclo olímpico. O ouro veio novamente para consagrar o Brasil como bi-campeão nos Jogos Olímpicos de Tóquio de 2021, saltando três posições e agora ocupando o 3º lugar no quadro de medalhas no esporte, atrás somente de Grã-Bretanha, em segundo, e Hungria, em primeiro, ambas com três ouros. 

Mas a história dos três ouros britânicos e húngaros é curiosa. O futebol se tornou um esporte olímpico logo na segunda edição do evento, nos Jogos Olímpicos de Paris, em 1900. Apesar de ser apenas um esporte de exibição (assim com nos jogos de 1904, nos Estados Unidos), as conquistas são reconhecidas até hoje. A Grã-Bretanha, berço do futebol, ganhou três das quatro primeiras edições do esporte: Paris 1900, Londres 1908 e Estocolmo 1912. O curioso é que na primeira edição, a de exibição, os britânicos somente aceitaram participar caso fossem direto ao confronto final, sem participar do triangular. Mas em Londres e Estocolmo, os britânicos fizeram valer de sua estrutura, investimento e, até então, tradição no futebol, e levaram o bicampeonato diante da Dinamarca em ambos os confrontos.  

Até este ponto, o futebol olímpico era praticado somente por países europeus. O cenário mudou nos Jogos Olímpicos de Antuérpia de 1920, quando o Egito foi um dos competidores, e em Paris 1924, quando o futebol sul-americano foi muito bem representado pelo Uruguai, que de cara trouxe o ouro para a América Latina. Vale ressaltar que até as olimpíadas de Los Angeles 1984, a regra imposta pelo Comitê Olímpico Internacional limitava as seleções a inscreverem somente jogadores amadores para o futebol, o que dificultava muito a organização de alguns países.

Portanto, entramos em Helsinque 1952 com a primeira participação do Brasil. Formado basicamente por jovens, terminou o campeonato em 5º lugar de forma discreta, mas sólida pela primeira vez, neste esporte que ainda estava a conquistar multidões no Brasil. Nesse mesmo ano entramos no chamado Período Comunista. Seleções como Hungria, União Soviética e Iugoslávia foram multi medalhistas no futebol, pois driblavam a regra do amadorismo declarando que seus jogadores (na época já profissionais) eram, na verdade, militares do governo. Assim, Hungria conquistou as três medalhas de ouro (1952, 1964 e 1968), uma de prata (1972), uma de bronze (1960) e até hoje figura como primeiro colocado no ranking de medalhas do futebol. 

Brasil, o país do futebol

Hungria pode até estar em primeiro no ranking de medalhas, mas o país com maior número de pódios é o Brasil. Após 1952, a primeira participação de destaque da seleção brasileira foi em Montreal 1976, onde, após passar em primeiro lugar no grupo com Alemanha Oriental e Espanha, e golear Israel por 4 a 1 nas quartas de final, a seleção acabou perdendo para a Polônia por 2 a 0 nas semifinais e foi para a disputa do bronze. Essa seleção olímpica, que contava com jogadores importantes como o lateral Júnior e o volante Batista, perdeu para a União Soviética, também por 2 a 0, e ficou em quarto lugar. 

A primeira medalha olímpica veio oito anos depois, em Los Angeles 1984, com a conquista da prata. A base dessa seleção foi o time do Internacional e o entrosamento dos jogadores foi importante para passar por seleções como Alemanha e Itália e chegar a final, porém o Brasil perdeu para a França por 2 a 0 e ficou com a medalha de prata. Quatro anos depois, em Seul 1988, o Brasil novamente conquistou a prata. Desta vez, a seleção passou por adversários como Argentina e Alemanha Ocidental, mas acabou perdendo para a União Soviética por 2 a 1 e ficou com a segunda medalha de prata seguida. Alguns jogadores dessa seleção foram a base para o tetra na Copa de 1994 como Taffarel, Bebeto e Romário.

Romário sofrendo com a marcação do forte time da União Soviética

Bebeto é o maior artilheiro da história brasileira em Olimpíadas, com 8 gols em duas edições, já o Romário fez 7 gols em Seul e se tornou o maior artilheiro da seleção brasileira em uma única edição de Olimpíadas.

Em 1992, a seleção, que contava com Roberto Carlos e Cafu, perdeu para a Colômbia e empatou com a Venezuela no Torneio Pré-Olímpico e não se classificou para as Olimpíadas de Barcelona. Quatro anos depois, na edição de Atlanta 1996, o Brasil conquistou seu primeiro bronze, ganhando de Portugal por 5 a 0. A seleção enfrentou adversários de menor tradição, como Japão e Gana, e na semifinal jogou contra a Nigéria onde estava ganhando o jogo por 3 a 1, mas sofreu a virada e perdeu por 4 a 3, indo para a disputa do bronze. Alguns jogadores que faziam parte deste time foram campeões da Copa do Mundo em 2002, como Rivaldo, Roberto Carlos e Ronaldo. 

Outra vez, agora na edição de Sydney 2000, um time africano eliminou o Brasil. A seleção comandada por Vanderlei Luxemburgo perdeu para Camarões na prorrogação e caiu nas quartas de final. Ano esse em que os Camaroneses se sagraram campeões inéditos. Em 2004, o Brasil, novamente, não se classificou para as Olimpíadas e as vagas ficaram com Argentina e Paraguai. Já em Pequim 2008, a seleção, que contava com Ronaldinho Gaúcho, perdeu para a Argentina por 3 a 0 na semifinal e ficou com o bronze, após vencer a Bélgica pelo mesmo placar. 

Na edição seguinte, em Londres 2012, o Brasil bateu na trave outra vez. Após passar em primeiro lugar no grupo, a seleção eliminou Honduras e Coreia do Sul e chegou a final olímpica com 100% de aproveitamento. A final olímpica era contra o México, que logo no primeiro minuto de jogo fez um gol. O jogo ficou complicado, a seleção tentou, mas não conseguiu empatar e aos 75 os mexicanos liquidaram o jogo. Hulk, que entrou ainda no primeiro tempo descontou no final, mas já era tarde.

O rosto descontente dos jogadores com mais uma prata olímpica no peito

O Brasil ficou com a prata e o sonho do ouro foi adiado. Essa seleção de 2012, com Neymar, Hulk e Oscar, foi a base para a Copa de 2014, onde o Brasil teve a sua pior derrota na história das Copas, tomando 7 a 1 para a Alemanha em casa.

Após esse vexame, a seleção precisava devolver a alegria para o seu povo e foi no Rio 2016 que essa alegria veio. O tão sonhado ouro olímpico aconteceu em pleno Maracanã. Após uma campanha razoável na fase de grupos, o Brasil eliminou a Colômbia e Honduras e chegou a final contra a Alemanha. Sim, a mesma Alemanha que goleou o Brasil na semifinal da Copa, dois anos antes, mas agora era outro jogo e outra competição. O Brasil precisava dar uma resposta aos alemães e Neymar abriu o placar, com um gol de falta. A Alemanha empatou no segundo tempo, o jogo foi para a prorrogação e para os pênaltis. Os dois times marcaram seus quatro pênaltis, quem errasse se complicaria. Petersen foi para a cobrança, bateu no canto e Weverton pegou. A responsabilidade do último pênalti ficou com Neymar que cobrou com categoria no ângulo e decretou a vitória e o primeiro ouro do futebol brasileiro. Neymar emocionado, assim como grande parte dos brasileiros, deixou-se levar pela emoção de ocupar o lugar mais alto no pódio. 

Neymar emocionado após bater o último pênalti e trazer o ouro olímpico

Depois de tantas vezes bater na trave e ficar no quase, a seleção brasileira conquista o bicampeonato com a medalha de ouro nos jogos de Tóquio 2020. Com o elenco renovado, e mesmo assim prestigiado e alguns até consolidados em grandes clubes europeus, a seleção novamente une os esforços necessários para chegar ao ouro. Assim como no Rio 2016, a mesclagem entre os jovens com a pontual convocação de experientes, formou uma equipe que de fato sabe jogar bola. O pouco que o brasileiro assistiu dos jogos – que aqui infelizmente por conta do fuso horário passavam entre às 4h e 5h da madrugada- percebia-se o comprometimento e a vontade de ganhar. Não somente os meninos, mas o experiente goleiro Santos e o multicampeão Daniel Alves demonstravam em campo a concentração e objetivo que unia o grupo. 

De boa, porém discreta, campanha até chegar a final, o Brasil saiu vitorioso novamente, assim como na final de 2016, contra os alemães no primeiro jogo. Empatou com a Costa do Marfim em jogo sem gols e venceu a Arábia Saudita pelo placar de 3 a 1. Nas quartas derrotou a seleção do Egito pelo placar magro de 1 a 0, e nas semis ganhou nos pênaltis do carrasco de Londres 2012, a seleção do México. No outro lado do chaveamento, a forte seleção espanhola de Pedri, Dani Olmo, Marco Asensio, dentre outros jogadores que defenderam as cores da La Roja apenas um mês antes, na Eurocopa, também com participação discreta até chegar à final. Com um empate na estreia contra o Egito, vitória sobre a Austrália por 1 a 0 no segundo, e placar igual contra a Argentina, passou como o pior primeiro colocado entre os grupos. Goleou a Costa do Marfim por 5 a 2 nas quartas de final, e enfrentou os mandantes na semi, saindo vitorioso com apenas um gol, na prorrogação, contra os japoneses. Mesmo assim, chega como favorita, com um elenco recheado de estrelas.

Fazendo valer de sua tradição, a Espanha ficou com a bola a maior parte do tempo, mas quem chegou com perigo foi o Brasil. Mesmo com o pênalti perdido – com o nervosismo estampado na cara do Richarlison – o Brasil conseguiu ir pro intervalo vitorioso, com gol de Matheus Cunha nos acréscimos. Na segunda etapa os espanhóis empataram com Oyarzabal. O filme se repetia. Assim como em 2016, tudo seria decidido na prorrogação. Para os mais supersticiosos era sinal de otimismo, mesmo que fosse nos penaltis. Felizmente, Malcom não permitiu. Após belo lançamento de Antony, o jogador brasileiro tomou a frente do marcador espanhol, e chutou para consagrar, novamente, o ouro para o Brasil.

O semblante diferente de Londres 2012. A alegria e orgulho ao mostrar a medalha de ouro

O herói do gol do título quase ficou de fora da delegação. Isso porque o atacante conseguiu a liberação para participar dos jogos aos 45 do segundo tempo. Seu clube, Zenit da Rússia, havia vetado a saída do jogador na primeira convocação, que, portanto, foi substituído por Douglas Augusto. Douglas logo depois sofreu com lesão, e nova tentativa foi feita para a liberação de Malcom, que por fim compõe o grupo. Novamente, os supersticiosos se alegram, pois em 2016 o Neymar também quase não foi liberado pelo Barcelona. Com a liberação, o atacante foi o autor do gol de falta e do pênalti que consagrou o Brasil.

A história da seleção brasileira com o futebol olímpico começou tardia, por vezes ficou de fora, mas de qualquer forma transmite a paixão do brasileiro por futebol. Os ouros nos dois últimos Jogos vieram apenas para coroar aquele que é o País do Futebol. País este que bateu várias vezes na trave, mas finalmente marcou não somente um, mas dois ‘golaços’ com o ouro no peito, com o tempo de espera de apenas um ciclo olímpico para comemorar. Quem viu, viu. 

Por Felipe Troian e Giancarlo Klein