Chegou ao final mais uma Olimpíada e o torcedor brasileiro não teve o prazer de ver a seleção brasileira feminina de futebol conquistar a tão sonhada medalha de ouro. A seleção dos Estados Unidos, favorita na disputa, nem sequer chegou na final. Com uma campanha sólida, mas sem brilho, a seleção Canadense foi quem conquistou o ouro depois de duas disputas de pênaltis, uma inclusive derrotando o Brasil.

Embora o resultado nas Olimpíadas não foi dos melhores, os ares do futebol feminino no Brasil nunca tiveram tanto foco, destaque e investimento como nos últimos anos, seja no contexto profissional quanto no amador. Mas se engana quem pensa que sempre tudo foi fácil para as mulheres poderem jogar, assistir e vivenciar o futebol de perto. 

O futebol feminino é praticado no Brasil há cerca de 100 anos, mas as mulheres chegaram a ser proibidas de jogar futebol profissional no Brasil. Dizia uma lei, decretada em 1941, durante o Estado Novo de Getúlio Vargas: “às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza”.

A única forma das mulheres praticarem o esporte na época era “por baixo dos panos” – (Foto: Reprodução/Museu do Futebol)

A norma não citava exatamente o futebol, mas ficava claro que a bola não deveria rolar entre os pés femininos. Alguns argumentos para tal eram sobre a condição física supostamente menos privilegiada das mulheres. Defendia-se que elas tinham ossos mais frágeis, menos glóbulos vermelhos e menor resistência.

A proibição terminaria em 1979, mas só a partir de 1983 é que seria regulamentado e que surgiram os primeiros times profissionais do País: Saad (SP) e Radar (RJ). Na década de 90, clubes maiores como São Paulo e Santos fundaram equipes femininas.

Maria de Lourdes, recebendo a medalha de campeã do primeiro título.

Foi nessa época que Maria de Lourdes Cappelletto se interessou pela modalidade, “passei a disputar os primeiros torneios com 14 anos no ano de 1980”. Ela conta que se interessou pela modalidade ao ver o engajamento das irmãs e de outras amigas com a mesma paixão pelo futebol.

No início o JUSA (Juventude Unida Santo Antônio) de Casca, contava com uma estrutura completamente improvisada até para os padrões que existiam na várzea já que dividiam uniformes e campo de jogo com o time masculino da localidade. Essas dificuldades foram logo superadas, pois no período de 1980-87, o clube venceu 10 torneios e tomou apenas um gol, fato que foi notícia até de jornais de circulação estadual como o “Correio Riograndense”.

O feito futebolístico do JUSA, foi um impulso para que as mulheres da capela Santo Antônio de Casca inspirassem outras mulheres dentro ou fora do futebol, já que todas as garotas que vestiam a camisa do JUSA naquele tempo, também buscavam serem independentes e dedicadas aos próprios sonhos.

Elenco do JUSA na conquista do seu primeiro torneio:
Em pé, Elizeu (treinador), Odete Pinzetta, Isabel Pinzetta, Zandira Pinzetta, Maria de Lourdes e Cláudio Bordignon (auxiliar técnico); agachados, Terezinha Tofollo, Helena Tofollo e Odila Pinzetta.

Para Maria de Lourdes, mesmo que ela e suas companheiras tenham deixado de lado as disputas, certamente o aprendizado desses tempos permanece intacto, “se antes não tinha medo de jogar junto com garotos, hoje ainda tenho aquele espírito de esporte que levo no dia a dia pessoal’’.

O cenário da modalidade deu sua virada de jogo a partir do ano de 2013 com a criação do Campeonato Brasileiro Feminino.  Com isso, diversos times grandes que já haviam futebol profissional masculino passaram a investir e criar times profissionais de futebol feminino. Em termos de Brasil, o futebol feminino ainda tem muito a evoluir e crescer, mesmo assim aos poucos tem aparecido por aqui grandes atletas, que se tornaram conhecidas no mundo todo, cada vez podemos acompanhar campeonatos competitivos e de qualidade.

O educador trabalha há 25 anos com escolas esportivas na cidade.

Segundo o educador físico e treinador de escolas esportivas em Nova Bassano, Volmir Zausa, no início de sua carreira era difícil ver mulheres praticando o esporte. “Nos anos 2000 a única forma de fazer com que as meninas pudessem competir na modalidade era dividir espaço com os meninos, visto que não tinha atletas suficientes para formarmos um time”.

Volmir acredita que com a influência e visibilidade que o esporte feminino passou a ter, houve um crescimento na procura pela prática, “hoje em dia temos turmas e times completos de meninas e mulheres, sem contar nas competições que realizamos anualmente”. O treinador conclui dizendo que tem visto as mulheres muito mais engajadas e interessadas pela prática, pelas competições e até mesmo na hora de assistir e acompanhar os campeonatos profissionais. 

A Europa está mais avançada quando o assunto é campeonatos e times femininos, mas nenhum país supera os Estados Unidos ainda em títulos, as norte-americanas já contam com quatro medalhas olímpicas, além de já terem faturado quatro das oito Copas do Mundo Femininas.

A seleção dos Estados Unidos tem sido o exemplo de sucesso na modalidade – (Foto: Benoit Tessier/Reuters)

Mesmo assim o Brasil tem evoluído muito nos últimos anos, em estrutura e qualidade, torcida não tem faltado, e muito menos mulheres talentosas esperando para provarem seu valor em equipes que se disponham a investir nelas, como acontece com os homens há pelo menos 100 anos por aqui.

Desde que o Campeonato Brasileiro Feminino saiu do papel, já se viu um salto em qualidade. Em 2009 já havia sido criada a Libertadores Feminina, que inclusive das 12 edições disputadas até hoje, 9 foram conquistadas por times brasileiros. O talento das meninas está mais do que provado. O último desafio, no final das contas, não é procurar talento – isso já foi encontrado; é buscar a mudança de mentalidade.

Por: João Henrique Trojan e Tobias Betin