A presença feminina no mercado de trabalho é um assunto que vem sendo debatido há muito tempo.  Se voltarmos um pouco no tempo, e analisarmos a história do mundo, com a estabilização do sistema capitalista, no século 19, grandes alterações aconteceram na produção e na organização do trabalho feminino.  

Durante o período da Revolução Industrial, as mulheres eram colocadas pelos grandes empresários para operarem máquinas pesadas. Elas aceitavam salários inferiores aos homens, e sujeitavam-se a jornadas de trabalho de 14 a 16 horas por dia. Além de trabalharem em condições prejudiciais à saúde e cumprirem obrigações que estavam acima das que eram possíveis. Isso tudo, sem mencionar os afazeres domésticos feitos por elas quando a jornada de trabalho acabava. 

Com o passar do tempo, elas foram em busca de seus direitos e lutam diariamente para garantir eles e conquistar novos benefícios. Para se ter uma ideia, uma pesquisa realizada pelo IBGE em 2019 mostra que naquele ano, a taxa de mulheres no mercado de trabalho cresceu 2,9 pontos percentuais, em comparação com 2012. Enquanto a masculina caiu 1 ponto percentual neste mesmo período.  

Mulheres vêm conquistando espaços em trabalhos considerados apenas para homens

O que também é uma grande conquista para as mulheres é a inserção delas em áreas consideradas “masculinizadas” , como cargos de pedreiras e motoristas de aplicativos. Passou a época da categorização do gênero masculino e feminino para determinadas profissões. Os serviços pesados, agora também são executados por elas. Prova disso, é a caminhoneira Jéssica Rodrigues. 

A jovem caminhoeira escuta desde o início de seus trabalhos, que seu lugar não é na boleia de um caminhão. “Muitas pessoas me falam que lugar de mulher é dentro de um escritório, dentro de casa, essa discriminação acontece muito. Eles me falam ‘ah mulher não consegue trocar o pneu de um caminhão’, mas um homem, com anos de experiência, também não consegue”, relata.

Jéssica também se torna alvo da discriminação por parte de outras mulheres, onde muitas não apoiam o trabalho escolhido por ela, e comentam que o trabalho é “agressivo”.  “Elas ficam espantadas em me ver dirigindo um caminhão, mas pra mim mulher pode ir e fazer o que ela quiser. Não sinto o apoio de outras mulheres, elas criticam muito, infelizmente algumas mulheres não são unidas e muitas não apoiam o trabalho da outra, como o meu caso”, acresenta.

Jéssica enfrenta preconceitos até mesmo de outras mulheres, por ser caminhoneira

Assim como Jéssica, muitas mulheres já estão presentes em um mercado de trabalho “masculinizado”, e outras tantas sonham em seguir carreira profissional em um local em que a presença masculina ainda é constante. Mas para a caminhoneira, a mulher deve ter determinação em desafiar seus medos e também coragem para enfrentar as criticas que as pessoas irão fazer a respeito de seu trabalho. “Existe um preconceito muito grande, precisamos ir com a cara e coragem e se gostamos de algo temos que ir atrás. A mulher pode e deve estar onde ela quiser”.

“A mulher precisa ir com a cara e coragem. Ela pode e deve estar onde ela quiser”

Jéssica Rodrigues

Além do caso de Jéssica, outro espaço que vem sendo conquistado por elas é político e a representação comunitária. Os direitos de poderem votar e de serem eleitas foram conquistados. Porém a representatividade das mulheres na política ainda se encontra distante do necessário. As vozes femininas ainda não conseguem ser totalmente ouvidas, o preconceito em ver uma mulher assumindo o poder em  cargos políticos  ou participando de tomadas de decisões é percebido. Isso é consequência da exclusão histórica das mulheres nessas áreas, que reflete até hoje o cenário de baixa representatividade feminina em cargos de governos. 

Uma boa notícia é que segundo dados do MNDH,  Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, nas eleições de 2020,  houve um aumento da participação feminina, foram mais de 187 mil mulheres candidatas em todo o país. Cerca de 28,5 mil a mais do que em 2016. Em 2020 foram 658 prefeitas eleitas contra 641 no ano anterior. Como vereadoras, são 9,1 mil mulheres eleitas atualmente.

Eliani está no segundo mandato como vereadora e presidente do Legislativo de Sananduva

Dentre elas está Eliani Mezadri, vereadora do município de Sananduva e também representante da comunidade em projetos. Já no seu segundo mandato, ela é presidente da Câmara de Vereadores da cidade, e ressalta a importância da representatividade feminina na política.

“Nós mulheres fazemos a diferença na comunidade onde atuamos, formamos novas opiniões e temos um olhar único, com sensibilidade”. Ela conta que o cargo no legislativo não é uma tarefa fácil. A divergência dos gêneros é algo evidente, mas esse trabalho lhe proporciona: “ a função de ajudar pessoas e famílias e mudar a vida delas, através de projetos elaborados não apenas com visões masculinas”, acrescenta. 

Eliani também aconselha as mulheres a serem firmes e terem atitude em momentos desafiadores, quando sentirem que estão sofrendo algum tipo de preconceito por estarem em um cargo de poder ou simplesmente por serem do gênero feminino. “Temos sim a pressão masculina, mas com determinação e conhecimento podemos mostrar nosso potencial para exercermos qualquer tipo de profissão”, finaliza a vereadora.

Por Eduarda Lazzari e Isamara Baumgratz