Desde 1992 o mês de agosto é representado pela cor dourada e visa levantar a discussão sobre a importância do aleitamento materno para o desenvolvimento de uma criança. A campanha, que ocorre anualmente, foi criada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em parceria com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). A cor dourada que simboliza esse mês, está relacionada ao padrão ouro de qualidade do leite materno. 

Os profissionais de saúde recomendam que se inicie a amamentação na primeira hora de vida do bebê e que ele continue a ser amamentado com frequência, pelo menos até o sexto mês de vida. No entanto, segundo a OMS, apenas 39% dos bebês brasileiros são amamentados com exclusividade até a idade recomendada. 

Os benefícios do aleitamento materno são inúmeros. Esse ato protege a criança de doenças como diarreia, infecções respiratórias e alergias, além de evitar o risco de desenvolver hipertensão, colesterol alto, diabetes e obesidade na vida adulta. Cerca de seis milhões de vidas são salvas anualmente por causa do aumento das taxas de amamentação exclusiva até o sexto mês de vida, segundo a OMS e o Unicef. 

Ao comparar os dados atuais com os anteriores, com base em indicadores de amamentação propostos pela OMS, todos os indicadores melhoraram no Brasil. Após avaliação de mais de 14 mil crianças menores de cinco anos, entre fevereiro de 2019 e março de 2020, foi constatado que mais da metade (53%) das crianças brasileiras continuam sendo amamentadas no primeiro ano de vida. Entre as menores de seis meses o índice de amamentação exclusiva é de 45,7%. Já nas menores de quatro meses, de 60%. Entretanto, nem todas as mães estão incluídas nestes números positivos.

Andrieli da Silva Morais (21), percebeu ainda na gestação que seria difícil introduzir a amamentação ao seu filho, Heitor da Silva Renner, de um mês de vida. Muito se fala que quando o parto é cesariano o leite materno demora mais a descer, mas com o recém nascido com fome, por quanto tempo uma mãe esperaria? Andriele explica que já no hospital sentiu a pressão para “cumprir seu papel”, que é tão cobrado e julgado na sociedade atual.

Andriele grávida de seu filho Heitor.

No hospital foi a etapa mais difícil de lidar, a pressão era imensa, as enfermeiras disseram que isso poderia ser por causa da cesárea, mas além de demorar para descer o leite, eu tinha muito pouco.”

O uso da fórmula para recém nascidos só é recomendado em casos muito específicos. No hospital, ainda nas primeiras horas de vida de Heitor, as enfermeiras se viram obrigadas a oferecer fórmula a ele. “Elas diziam que não iam poder fazer isso sempre e que eu tinha que dar um jeito de estimular o seio, ou seja, amamentar ele sem o auxílio delas, aí nesse momento mesmo eu já me sentia pressionada, culpada e triste”, conta Andriele.  Apesar disso, a mãe decidiu por conta própria introduzir essa alimentação ao seu filho. 

Ela conta que o julgamento ao se comparar com outras mães no hospital que conseguiam amamentar, foi um fator decisivo para que pudesse suprir as necessidades dele por meio da fórmula. “Eu tive muita sorte de ter pessoas que me amam, me apoiando e colocando a minha auto estima pra cima nessa fase em que eu estava me sentindo uma péssima mãe, por não conseguir amamentar. Mas eu sei que infelizmente essa não é a realidade de todas as mães e eu só queria dizer que eu espero de coração que as pessoas passem a pesquisar e entendam mais sobre esse assunto antes de simplesmente julgar e apontar o dedo dizendo que você é menos mãe que as outras por não dar só o seu leite”, ressalta Andriele.

“Mil vezes uma mamadeira dada com amor, do que um aleitamento com estresse”

Kasandra do Nascimento é doula, consultora de aleitamento materno, homeopata perinatal e laserterapeuta.

Essas foram as palavras da doula e consultora de aleitamento materno, Kasandra Rodrigues do Nascimento (39). Segundo ela, a falta de informação por parte das mães aliada à intervenção de terceiros é ainda uma problemática muito atual e pode ser uma influência negativa no momento da amamentação. “O parto é um dia. O aleitamento é 30 dias para se adaptar com o bebê, onde a rotina muda, onde o seio machuca, onde não se consegue ofertar o leite e o bebê chora de fome. A questão familiar também interfere e muito no aleitamento materno”, explica a doula. 

Kasandra argumenta que o bebê demora cerca de três meses para entender que é um ser independente da mãe e a mulher, apenas após sete dias do nascimento da criança, precisa lidar com ele chorando e os demais palpites que surgem de todos os lados. “O emocional abala muito, começa a duvidar do próprio aleitamento materno e se não temos uma orientação correta vem o estresse e a diminuição do fluxo de leite. Quando começamos a nos contestar e a se cobrar muito, impacta diretamente no aleitamento. O leite não secou, a mãe só está estressada”, ressalta a consultora. 

A empresária Maristela Defendi (49) é a prova de que, de fato, a tranquilidade é o ponto principal de uma amamentação sem problemas maiores. No aleitamento materno do seu segundo filho, Gabriel Defendi Segalin (5), ela o amamentou até os seus três anos e meio de idade. Mesmo voltando a trabalhar após oito dias do nascimento dele por ser dona do próprio negócio, isso não foi um problema para ela e nem para Gabriel. O ponto decisivo foi conseguir levá-lo para o trabalho, o que impactou positivamente na amamentação. “Como eu criei ele dentro da loja, ele ficou comigo o tempo todo e sempre estava mamando, por isso que eu tive bastante leite”, comenta Maristela. 

Maristela com livre demanda em seu segundo filho, Gabriel.

Entretanto, com a sua primeira filha, Giane Defendi Segalin (22), o aleitamento foi até os seus nove meses de vida por ter a necessidade de voltar a trabalhar o dia inteiro e a rotina mudar, o que levou ao secamento do leite.

A doula comenta sobre o retorno ao trabalho e frisa que os casos mais comuns na diminuição do leite é no momento da mãe voltar a trabalhar fora de casa, mesmo que tenha tido um bom fluxo de leite no decorrer dos meses em casa. “O estresse toma conta. A adrenalina não combina com o aleitamento”, conclui Kasandra. 

Por: Beatriz Fiorio e Beatriz Menezes