Há diversas formas de descobrir o campo da cultura. Seja pela música, arte ou até mesmo artesanato. Mas uma em especial, consegue ser um meio de transporte e até mesmo uma máquina do tempo. Essa é a literatura, nos mais diversos gêneros e formas, ela é fundamental para a vida de qualquer pessoa. Seja no âmbito social ou pessoal. 

No município de Sananduva foi criada uma ação para fomentar o gosto pelos livros. A  professora Viviane Demétrio é uma personagem de incentivo à leitura para a comunidade. Ao lado de sua irmã, que também é professora, Isane Demétrio, elas criaram um projeto pessoal chamado “Leitura: viagem ao conhecimento”. A ideia surgiu durante a pandemia, quando os espaços das escolas onde elas lecionam e a biblioteca municipal não podiam abrir para os alunos retirarem livros para empréstimo. Elas sentiram a necessidade de que esse hábito não fosse deixado de lado, principalmente por estudantes da educação pública. 

“Os livros foram sendo adquiridos ao longo do nosso Ensino Médio, das nossas Graduações de Letras e História e continuam até o momento. Hoje o acervo é composto por vários gêneros literários  que vão desde os livros infantis até os teóricos”, conta Viviane. Além dos livros que foram obtidos por Viviane e Isane, vários amigos e alunos também contribuíram para a biblioteca. “Eles (os livros) passam por uma análise e processo de restauração, quando necessário. São colocados na estante, organizados por área do conhecimento e assunto e disponibilizados para todos que tiverem interesse na leitura. A única exigência é carinho e cuidado com os livros”.  

As irmãs Viviane e Isane criaram uma mini biblioteca a fim de incentivar
a leitura dos sananduvenses

O que as irmãs Demétrio querem é que os livros circulem nas mãos de vários leitores, pois elas sentem que ainda há um longo caminho a percorrer. De 2015 a 2019, a porcentagem de leitores no país caiu de 56% para 52%, o que significa uma perda de mais de 4,6 milhões de leitores, segundo dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. Já os brasileiros com mais de cinco anos que ainda não leram nenhum livro, representam 48% da população, mais ou menos 93 milhões de pessoas. 

Quase metade da população ainda não tinha o hábito de ler entre 2015 e 2019, sendo essas pessoas crianças não alfabetizadas

Esse índice também mostra que mesmo quem tenha se graduado no ensino superior não possui o hábito de ler. Ou seja, apesar de terem um grau a mais de conhecimento, essas pessoas perdem nesse quesito para adolescentes  que estão mais envolvidos com os livros por causa da escola, segundo a pesquisa. Adultos graduados estão  abandonando esse costume. O que mostra que um diploma de faculdade pode não interferir no hábito e gostos pessoais de cada um para a leitura. 

Por ser uma iniciativa sem fins lucrativos e inovadora para a comunidade sananduvense, o resultado de ter uma biblioteca em casa está sendo positivo, pois o projeto apresenta um diferencial de incentivo à leitura. O que faz parte de uma expressão cultural, desenvolvida por essas professoras. Viviane conta que os alunos, amigos e familiares interessados pela biblioteca, entram em contato por meio das redes sociais ou mesmo pessoalmente  para retirarem os livros. “Os leitores que conseguem ir até a biblioteca retiram os exemplares, os que não conseguem ir até o local, nós realizamos a entrega dos livros. O importante é o livro chegar até o leitor no ambiente escolar e profissional”, diz.

Os livros comprados são resultado de investimento e esforço, obtidos por meio do trabalho em sala de aula. “Cada exemplar além de uma história registrada na obra também tem a nossa história enquanto incentivadoras de leitura”, diz Viviane. Muitos livros ainda não foram comprados para o acervo das irmãs, porém elas buscam fazer o melhor dentro da realidade financeira como professoras.

Dona Augusta deixou como herança para as netas professoras o baú com os seus livros

Para as irmãs, os livros possuem outro valor além do material, o  sentimental. Uma parte significativa da biblioteca foi feita, em especial, pelos livros herdados pela avó, Augusta Benetti Bogoni. “Nossa avó foi um grande exemplo à família. Ela gostava de ler notícias, informações e romances históricos. Possuía um acervo de grande valor emocional, que nos foi doado gentilmente pelos demais familiares. Por isso, sentimos o compromisso de eternizar sua memória de vida e de leitura ao incentivar e formar novos leitores” afirma Viviane. 

Como a avó foi uma pessoa que deixou esse legado que resultou na biblioteca em casa, as professoras ainda falam desse lado mais pessoal. Do quanto elas procuram divulgar a literatura, o hábito de leitura para todas as pessoas, das mais diversas faixas etárias.  “É uma ponte que leva ao conhecimento e desenvolvimento intelectual.  No momento em que os alunos realizam a leitura, enriquecem o vocabulário, escrevem com o mínimo de erros ortográficos e ampliam sua expressão oral” afirma a professora.

Inspiração para as próximas gerações 

A literatura é um recurso que amplia horizontes, além de melhorar a comunicação escrita ela oferece ao leitor uma linguagem mais rica. Para a professora passo-fundense de língua portuguesa Maria Delsa Luz, o incentivo à leitura pode ser feito através da contação de histórias desde os anos iniciais. Além dos pais, que são uma fonte de inspiração para os filhos. Com o incentivo dentro de casa e desde a infância, a medida que a criança vai crescendo ela procura por si mesma assuntos de seu interesse literário. E expressa a sua confiança em querer saber mais. “Foi assim que eu me tornei uma leitora. Estou com 71 anos e gosto de ler como gostava na minha adolescência”, diz Maria Delsa. 

Como mostrado na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, o número de leitores adultos caiu e para a professora Delsa, com mais de três décadas de experiência em sala de aula, os  alunos hoje são mais ativos na leitura do que na década passada. “Eu creio que a novidade do celular agora já não é mais como há quatro anos, e eles perceberam que o livro é bastante prazeroso. Mas eu falo sobre os alunos da escola onde trabalho, não sei se isso é geral”, comenta. 

A professora Delsa também conseguiu realizar um projeto pessoal, e de valor sentimental, que marcou sua carreira em sala de aula e como incentivadora do hábito de leitura. Em parceria com uma amiga, elas escreveram um  livro de poesias intitulado  “Dois corações”. Ela conta que através do incentivo dos pais a gostar das palavras e de histórias desde a infância, a professora quis escrever esse livro. “Não via a hora de aprender a  ler, e olha que lá em casa não tínhamos muita escolha de livros. Iniciei a minha vida de leitora lendo a revista Cruzeiro. Minha mãe era analfabeta e depois de adulta eu li muitos livros para ela. Valeu a sementinha que ela plantou dentro de mim”, comenta Delsa. 

“Minha mãe era analfabeta e depois de adulta eu li muitos livros para ela. Valeu a sementinha que ela plantou dentro de mim”

Maria delsa luz

As duas professoras são incentivadoras da leitura, cada uma à sua forma. Seja motivando uma comunidade durante a pandemia ou escrevendo livros para servir de inspiração para novas gerações. “Não existe um lugar ou um tempo específico para a leitura, uma vez que “a ocasião faz o leitor”, e assim deve ser: ler sempre e em todo e qualquer lugar”, finaliza Viviane Demétrio. 

Por Eduarda Lazzari e Isamara Baumgratz