Em 2017, a jornalista e cantora, Shana Muller, publicou um texto no site do programa Galpão Crioulo, da RBS TV, questionando a representação da mulher na música tradicionalista. “Quem de nós já não ouviu e/ou cantou junto ‘churrasco, bom chimarrão, fandango, trago e mulher. É disso que o velho gosta, é isso que o velho quer!’ Ahãm. Bem isso: essas ‘coisas’ quer o velho. Mas a gente não é coisa, a gente é gente”, escreve Shana. 

São mais de 70 anos da presença da mulher no tradicionalismo. Com isso, surgem algumas perguntas: Então, o machismo já não deveria ser assunto do passado? Até que ponto o meio tradicionalista menospreza e intitula a mulher como “coisa”, seja em suas músicas ou nas atitudes culturais? 

Desde 2006, a jornalista Ana Júlia Griguol (27) participa ativamente do meio tradicionalista pelo Centro de Tradições Gaúchas Pousada dos Carreteiros, de Cotiporã, onde iniciou a sua trajetória na invernada artística juvenil e, desde então, já participou de vários concursos internos com a conquista de dezenas de faixas. Ana Júlia também foi a 1ª Prenda Adulta da 11ª Região Tradicionalista na gestão de 2016/2017. Para ela existem, sim, muitas músicas gaúchas com tom machista e que diminuem a figura da mulher ou a associam a atividades restritas, mas também existem letras que a valorizam. “Digo isso porque, por exemplo, nas invernadas artísticas, a mulher é sinônimo de delicadeza. Ela tem toda uma importância e o peão tem todo um cuidado para tratá-la durante a dança. Isso não representa sinônimo de fraqueza, pelo contrário, representa o quanto o homem valoriza a mulher na cultura gaúcha”. 

Ana Júlia Griguol com sua faixa de 1ª Prenda da 11ª Região Tradicionalista, gestão 2016/2017.

A ex-prenda adulta da 11ª RT relembra de algumas rodas de conversas em que o assunto principal era a importância da mulher no tradicionalismo. “Muito se falava sobre a mulher ser respeitada a partir do contexto histórico, de como ela influenciou em todo o processo de construção da sociedade e de que forma a sociedade atual deve conhecer a sua história e respeitar, para que assim a valorizem. Então sempre foi discutido a forma de tornar a mulher ainda mais protagonista da história”, comenta.

O protagonismo da mulher em um centro de tradições gaúchas se torna cada vez mais tangível. Em 2020, o Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) tem a primeira presidente mulher de toda a sua história, Gilda Galeazzi. Em sua posse, a ex-presidente afirma que homem e mulher podem e devem trabalhar juntos dentro do tradicionalismo. “A gente não quer tirar o espaço do homem: bem pelo contrário, a mulher sempre andou ao lado dos homens e teve um papel decisivo. Temos bom relacionamento com homens e vamos ganhar experiência com eles”.

Gilda Galeazzi, primeira presidente mulher do MTG.

Para Ana Júlia, o machismo é um problema social e quando as entidades estão inseridas neste meio, sejam elas tradicionalistas ou não, carregam no centro delas as experiências que ocorrem na comunidade e cada uma, por meio da sua prática, busca resolver as devidas problemáticas sociais. “Acredito que o machismo no tradicionalismo, onde ele pode ter acontecido e ter sido evidenciado, foi no questionar a capacidade de uma mulher de liderar uma entidade tradicionalista, seja na parte artística ou campeira. Mas com o passar do tempo, o próprio movimento se organizou e mostrou que não tem espaço para este tipo de discriminação, então acredito que foi melhorando com o tempo”, comenta Ana. 

A prova de que as coisas melhoraram é que a presença da mulher na parte campeira está cada vez mais comum. Segundo a laçadora, Rafaelly Schmidt, por ter muita mulher laçando, não existe mais tantos episódios de deboche por parte de homens. A presença da mulher na campeira é comum. Além disso, ela também relembra de situações que aconteceram quando começou a laçar. “Precisava formar dupla para laçar e a maioria dos homens não queriam fazer comigo, tinha que ser homem com homem. Mas agora não acontece mais tanto”. 

Rafaelly Schmidt laçando.

Apesar disso, ainda existem alguns aspectos que ela pontua como um problema. “A premiação nos rodeios, por exemplo, enquanto para os homens é R$5 mil, para as mulheres é R$2 mil. Outra coisa é por meu cavalo não ser castrado, mais conhecido como garanhão neste caso, isso gera muito preconceito entre os homens porque geralmente cavalo garanhão é mais brabo, e me pedem como eu consigo laçar em um cuiudo, porque julgam ser difícil para uma mulher. Já ouvi muito “Meu Deus, porque só um homem consegue laçar com um cavalo assim”.

Rafaelly com seu cavalo que ela o apelidou de Gateado.

Outro aspecto do meio tradicionalista que sempre foi muito preservado é a vestimenta feminina. Primeiro a meia-calça, depois a bombachinha alinhada com o joelho, para facilitar já coloca a sapatilha, após isso lembre-se da saia de armação e, para finalizar as “camadas”, um belo vestido para ser a cereja perfeita do bolo. Assim se vestem a maioria das prendas do Rio Grande do Sul. 

“Nas invernadas artísticas, a mulher é sinônimo de delicadeza. Ela tem toda uma importância e o peão tem todo um cuidado para tratá-la durante a dança. Isso não representa sinônimo de fraqueza, pelo contrário, representa o quanto o homem valoriza a mulher na cultura gaúcha” – Ana Júlia Griguol.

Um leitor ou ouvinte que nunca esteve no meio tradicionalista, pode estranhar que exista um certo passo a passo de como devem ser colocados os trajes. As pessoas podem se questionar o porquê de tantas regras ou até mesmo se já não está ultrapassado seguir a risco as vestimentas culturais em uma sociedade moderna que visa a liberdade feminina, onde a mulher usa o que quer.

Essas “regras” acompanhadas de outros detalhes essenciais, fazem parte da cultura gaúcha e, para quem está inserido neste meio, não gera estranheza e nem mesmo é visto como algo regrado, mas sim como a preservação da própria cultura. Para Ana Júlia, toda a vestimenta típica gaúcha, seja no homem ou na mulher, respeita o contexto histórico que está inserido. “Quando se trata de história, estamos falando do passado e não de coisas ultrapassadas. Se quisermos algo mais moderno, temos que saber em que movimento estamos inseridos”, conclui.

Por Beatriz Fiorio e Beatriz Menezes.