Cada vez mais, livrarias e sebos têm fechado as portas no país. A cada ano, o número de empresas do ramo fechando suas filiais só aumenta. Grandes redes do mercado, como a Saraiva, enfrentam uma crise que é causada por alguns fatores, como a nova forma de consumo do público, a ascensão do comércio virtual e administrações ruins.

No caso da Saraiva, por exemplo, a crise existe desde 2013, quando a rede começou a ter mais dívidas do que lucro. O principal motivo foi a abertura de diversas filiais pelo país que não obtiveram o retorno esperado. Em 2014, a empresa lucrou R$ 5,7 milhões, mas, em contrapartida, tinha uma dívida de R$ 544 milhões. Então, há sete anos, a empresa vem fechando suas filiais e acumulando mais dívidas.

Isso acaba virando uma bolha: as dívidas das grandes redes afetam as editoras, que não são pagas por seus produtos, gerando uma crise no mercado editorial. Os preços sobem, o incentivo cai, a circulação de livros diminui e as empresas de pequeno e médio porte são diretamente afetadas. Na contramão dessas redes, que acumulam dívidas e mais dívidas, está a Amazon, que cresce cada vez mais e é, também, um dos principais motivos do fechamento de livrarias e sebos.

Quando chegou ao Brasil, em 2014, a empresa mudou completamente o mercado de livros – e comércio no geral – justamente por vender seus produtos por preços abaixo do mercado. São vários os fatores que fazem a Amazon conseguir manter seus preços baixos. O primeiro é que a empresa compra muitos exemplares de cada livro, diretamente com as editoras, e isso diminui os custos. Além disso, por ser uma empresa majoritariamente virtual, possui menos gastos com lojas físicas, apenas com centros operacionais, então acaba gastando menos com impostos e despesas. A logística também é um fator chave na hora da compra: a Amazon detém de uma das maiores redes de distribuição do país.

A multinacional também fecha contratos exclusivos com as editoras e isso afeta no preço final, que sai mais barato para o consumidor. Apostando também no mercado de obras independentes, onde qualquer pessoa pode publicar seu livro, é um atrativo para quem quer utilizar a plataforma. Com royalties de 35% a 70% por venda para esses autores, a porcentagem é mais atraente se comparada com das editoras que, geralmente, pagam entre 8% a 15%. Sem contar que o tempo de espera para publicar diminui. Com as editoras, um livro pode demorar meses para ser publicado, já na Amazon, a obra entra no catálogo, em formato digital, em até 48 horas.

Portanto, a chegada e crescimento da Amazon no Brasil afeta diretamente no mercado, pois acaba diminuindo o preço final em relação a outras lojas e atrai mais clientes. Além dos preços atrativos, a empresa oferece frete grátis, em qualquer compra, para quem é assinante do seu serviço de streaming, o Amazon Prime Video. Quem não é assinante também consegue frete grátis, mas apenas em compras acima de R$ 99 para livros. Então, o que acontece hoje, é um monopólio da Amazon, em que ela dita o ritmo do mercado.

“O principal predador, quem mais atrapalha, é a Amazon.”

Leonardo Arbter

Para o proprietário do Sebo Café Páginas Antigas, Leonardo Arbter, a competição com a Amazon é injusta pelo preço que conseguem vender, mas também vê o lado positivo da ascensão do comércio virtual: o uso das redes sociais para atrair mais clientes e divulgar promoções. No sebo, além de livros novos e usados, Leonardo também vende discos de vinil e conta que, apesar do público ter diminuído presencialmente por conta da pandemia, utiliza justamente a internet para efetuar as vendas. “Caiu o movimento presencial. Ainda mais agora com a pandemia em que todo mundo ficou em casa. Utilizei as redes para vender e fazer tele-entrega dos livros.”

A pandemia afetou todo o comércio no geral. A redução de horários e o fechamento por alguns períodos de tempo fizeram com que todos os comerciantes fossem afetados. Em abril de 2020, durante o principal período do lockdown, as vendas em livrarias foram 45% menores do que no mesmo período de 2019, de acordo com o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL). Já neste ano, o número de vendas está aumentando, mesmo que lentamente. Em setembro, por exemplo, o aumento foi de 8% em relação ao mesmo período do ano passado.

Mesmo antes da pandemia, e principalmente com a chegada do monopólio da Amazon, o número de vendas já estava caindo e as lojas físicas fechando. Na última década, o Brasil perdeu 21 mil livrarias, de acordo com uma pesquisa feita pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismos (CNC).

O gráfico apresenta uma redução ainda maior dessas livrarias desde o período em que a Amazon chegou ao país, em 2014. Outro fator que mostra o domínio da empresa no mercado é o aumento de vendas durante a pandemia. No final de junho desse ano, com o Amazon Prime Day, dois dias de promoção feitos pela empresa, o número de vendas de livros no país cresceu 59% em relação ao mesmo período de 2020 e 26% em relação ao mês anterior. O maior aumento do ano, justamente no período de promoções da Amazon.

O fato é que a Amazon está dominando o mercado de vendas digitais. A forma de consumo do público também mudou, hoje se têm uma venda muito grande em e-books, os livros digitais, e isso também ajuda empresas que investem nessa área. O que resta às livrarias e sebos é se adaptar aos novos tempos e utilizar as plataformas digitais para conseguir se manter e sofrer menos os impactos do monopólio existente.

Por: Felipe Troian e Giancarlo Klein