Fábio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil

Em 2021, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) confirmou que 3.109.762 de pessoas devem passar pelo Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) deste ano. Dessas, 68.891 devem realizar o ENEM Digital, o restante deve fazer a prova física, quem faz parte dessa estatística são estudantes que realizaram o pagamento da taxa de inscrição de R$85 até 19 de julho. Este é o menor número desde que o exame foi reformulado em 2009 e passou a contar com dois dias de provas divididos em 180 questões objetivas separadas por áreas e redação.

São elas: Linguagens e Códigos; Ciências Humanas; Ciências da Natureza; e Matemática. No total foram pouco mais de quatro milhões de pessoas que se inscreveram, mas pouco mais de três mil realizaram o pagamento da taxa.

Números surpreendem, mas a queda das inscrições acontece desde 2016 (Gráfico: Júlia Kopp)

Caroline Staudt, professora de ensino médio na Escola Estadual de Ensino Básico Érico Veríssimo, diz que a pandemia foi um dos fatores, afinal, os estudantes tiveram o ensino prejudicado devido ao estudo remoto. “Muitos dos nossos alunos do Ensino Médio durante o ano de 2020 e 2021 não tiveram uma preparação adequada para a prova. Problemas familiares, econômicos e de acesso a um ambiente adequado de estudo. Muitos acabaram entrando no mercado de trabalho e deixando o estudo para um segundo plano. Todos esses fatores refletem na motivação que o estudante tem em querer prestar a prova do ENEM.”

“Aumentou o número de jovens que não acreditam na possibilidade de acesso ao ensino superior, que não vêem nele uma forma de colocação no mundo do trabalho”

– Tales Henrique Albarello, professor.

Outro fator que contribuiu para a queda, segundo Caroline, foi o fato do Inep ter mantido a ordem do edital do exame que prevê que o estudante que conseguiu isenção na taxa de pagamento, mas não compareceu à prova, perde automaticamente o direito a ela em caso de nova inscrição. Ela não é a única que cita este fator. Tales Henrique Alberello, diretor da Escola Estadual de Ensino Médio Cônego João Batista Sorg e professor, também acredita que os gestores responsáveis pelo exame deveriam ter mudado, ao menos este ano, a ordem do edital.

O professor formado em história pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), diz que para além da pandemia, as reduções na educação realizadas pelo Governo Federal ao longo dos anos contribuíram para a queda. “Para além da pandemia e das dificuldades que parcela dos estudantes tiveram para acompanhar as aulas online, a queda de renda das famílias tornou o sonho do ensino superior mais distante. Somamos a isso, de caráter objetivo, a redução significativa do FIES, que começou em 2016 e boa parte das instituições não o adotam mais, e a redução no número de bolsas do Governo Federal. De caráter subjetivo, aumentou o número de jovens que não acreditam na possibilidade de acesso ao ensino superior, que não vêem nele uma forma de colocação no mundo do trabalho”. Fatores que explicam não só a diminuição das inscrições deste ano, mas dos anteriores, afinal, os números de inscritos vêm diminuindo desde 2016, ano após ano.

Dados retirados de ‘Observatório das desigualdades’ (Gráfico: Júlia Kopp)

A pandemia da covid-19 escancarou as desigualdades sociais presentes no país há anos. Alunos de escolas públicas e não brancos são os que mais sofrem com a desigualdade econômica e com falta de políticas públicas.

No total, mais de cinco milhões de crianças e adolescentes abandonaram a escola durante a pandemia de covid-19 no Brasil, segundo o Fundo das Nações Unidas para a infância (UNICEF) devido às diversas dificuldades encontradas, não só do ensino remeto, mas também da renda econômica familiar.

“Cursar o ensino superior perpassa muito mais do que o estímulo escolar. Vem da condição financeira, de acreditar que isso é possível.”

– Tales Henrique Albarello, professor.

Ketlyn Celine Carpes, estudante do terceiro ano do ensino médio, precisou assinar uma plataforma on-line para poder se preparar melhor para o exame. A falta de recursos destinados à escola pública somados ao ensino remoto não foram suficientes para a preparação de Ketlyn . A estudante de 17 anos trabalha durante o dia inteiro e estuda à noite. Com a nota do ENEM ela espera conseguir uma bolsa de estudos.

Já Isadora da Luz Silva, que também está no terceiro ano do ensino médio, conta que sua preparação para o exame começou cedo. “Não creio que eles (escola) deixam a desejar quanto a isso, sempre nos prepararam desde o fundamental I com provas de questões dissertativas para o ENEM. No ensino fundamental II e no ensino médio nós tivemos diversos simulados e atividades.” Isadora tem 18 anos de idade e estuda em uma instituição de ensino privado. Pretende usar a nota do ENEM caso seja necessário para ingressar no ensino superior.

Tales explica o porquê da instituição privada cobrar desde cedo dos alunos vestibulares e ENEM. “Precisamos diferenciar o ensino privado do público. No privado, há a preocupação do ranqueamento de notas como forma de marketing. Isso dificilmente se vê nas escolas públicas, visto que o ensino não é entendido como competição para obter clientes. Além disso, há o entendimento das famílias que estão “pagando” e, portanto, o nível de cobrança sobre os estudantes é bem maior. Cursar o ensino superior perpassa muito mais do que o estímulo escolar. Vem da condição financeira, de acreditar que isso é possível.”

As provas acontecem no dia 21 e 28 de novembro. Ainda não foi informada a data da liberação do resultado do exame, mas as notas geralmente são divulgadas dois meses após a realização da prova.

Por Júlia Kopp.