O hábito de ir à biblioteca hoje é mantido por poucos. Há quem chame de adaptação: temos um acervo quase infinito de livros, obras, artigos e documentos diante do celular, acessível com poucos cliques na tela. Outros dizem que a prática da leitura se perdeu com o tempo. Fato é que ambas contribuem para que as bibliotecas em todo o Brasil fiquem vazias e seus livros há anos permaneçam nas prateleiras. 

Assim como o ditado “roupa no armário não aquece ninguém”, milhares de livros nas estantes de bibliotecas não ensinam ninguém. Mesmo inanimada, a literatura exerce uma função social na sociedade que há anos vem sendo mal, ou pouca, usufruída. Dados do IBGE mostram que entre 1999 e 2014, a proporção de cidades com bibliotecas subiu de 76,3% para 97,1%, revelando que apenas 112 dos 5.570 municípios não são assistidos pelas bases. Em concordância, o número de livros lidos por ano também cresceu. A pesquisa da 5ª edição de Retratos da Leitura no Brasil revela um aumento de 2011 a 2019. A média que era de quatro livros por ano subiu para cinco na relação habitante/ ano. Estes dados demonstram que a falta de leitura não é o principal fator dos corredores das bibliotecas não estarem ocupados. 

Dados: 5ª Edição – Retratos da Leitura no Brasil. Instituto Pró-Livro

Porém, de fato estão. A Biblioteca Municipal Dr. Léo Stumpf em Getúlio Vargas, distante 40km de Passo Fundo, reabriu no dia 13 de outubro, e até agora o movimento é baixo. Fechada desde o dia 28 de março de 2020 devido a pandemia da Covid-19, teve sua reabertura após um ano e meio de portas fechadas e, de acordo com Isabel Cristina Pauli, coordenadora da biblioteca, a procura é pouca: “quando estava fechada a procura era maior, muitas ligações. Agora que reabriu parece que as pessoas não têm o interesse de vir aqui, a procura ainda é pouca.” Com a volta do funcionamento, protocolos de cuidado e higiene foram tomados para o uso seguro do espaço. Para manusear os livros, é necessário o uso de luvas, disponibilizadas no local. Após a devolução, os livros passam por uma espécie de quarentena: ficam numa prateleira isolados dos demais, aguardando o tempo de quatro dias, tempo de segurança contra o vírus. Passado o tempo de quarentena, os livros são higienizados antes de voltarem para a companhia dos demais. 

A Biblioteca Dr. Léo Stumpf recebeu mais dois computadores para pesquisa após sua reabertura. Foto: Prefeitura de Getúlio Vargas

Após quase um mês de funcionamento, Isabel conta que nenhuma escola visitou o ambiente para a realização de atividades com os estudantes. Uma das maiores atrações da biblioteca, o projeto Contação de Histórias, ainda não retornou a sua normalidade. Focada para o público infantil, o Contação de Histórias é promovido pela Prefeitura de Getúlio Vargas e visa a maior interação dos pequenos com o mundo da literatura. Os livros são contados de forma que a participação chame, e prenda, a atenção dos estudantes, promovendo o conhecimento e a cultura desde cedo. 

Regados de protocolos de segurança e higiene, as escolas ainda relutam para equilibrar as atividades com precaução e, portanto, o baixo número de visitas à biblioteca tem motivo. Para Plínio Triques, professor e coordenador do projeto AABB Comunidade de Getúlio Vargas, as idas à biblioteca ainda não são viáveis para o programa: “Esse ano retornamos com as atividades no segundo semestre. Pensamos em ficar aqui pois alguns alunos ainda estavam iniciando, e nem conheciam o programa. E outra, com o distanciamento tivemos que trabalhar com turmas separadas, o que complicou e atropelou os planos.”, conta. Nos anos anteriores, as visitas eram frequentes: “Sempre trabalhamos em conjunto com a prefeitura, e a biblioteca sempre fez parte do nosso cronograma.”, diz Plínio. O projeto que atende 100 crianças e adolescentes de famílias em situação de vulnerabilidade trabalha no turno inverso da escola. Com 40 crianças pela manhã, e 60 à tarde, os alunos realizam oficinas artísticas e culturais, esportivas e de complemento pedagógico. 

Alunos da AABB Comunidade em atividade farroupilha. Foto: Prefeitura de Getúlio Vargas

Mesmo distante das grandes estantes, o programa não deixa de oferecer e incentivar a leitura. Por meio da oficina de complemento pedagógico, as atividades de leitura fazem parte do cotidiano dos alunos: “Nós temos nossa biblioteca pequena, mas queremos ampliar ela. Todo ano recebemos uma verba para a compra de livros e jogos, e até já encomendamos para o ano que vem.”, explica o professor Plínio. Comemorado no dia 29 de outubro, o Dia Nacional do Livro relembra a importância destes ricos objetos. Assim como o complemento pedagógico do programa, pois reforça a leitura que por vez é passada aos alunos em suas escolas, servindo justamente como um complemento. Além disso, já está no cronograma do programa a visita à Biblioteca Municipal Dr. Léo Stumpf no ano que vem, assim, retomando a atividade que já era realizada antes da pandemia. 

Por Giancarlo Klein