No dia quatro de outubro deste ano, durante cerca de cinco horas as redes sociais mais utilizadas pelos brasileiros simplesmente pararam de funcionar, sem avisos ou explicações. Esse fato, teve dois lados. As pessoas que se sentiram despreocupadas e até felizes pela “pane”, e outras que sentiram palpitações por não conseguirem carregar os feeds por horas, ou por não conseguir trabalhar e garantir seu sustento. 

A primeira reação da maioria das pessoas quando as redes sociais pararam de funcionar foi reiniciar a Internet e o celular. Vendo que isso não estava funcionando, foi percebido que algo estava errado nas redes sociais em si.  A educadora social e artesã Karine Trilha, do município de Ernestina, comenta que depois de perceber que o motivo das suas redes sociais não estarem funcionando era a falha do sistema. “Em um primeiro momento pensei que fosse minha Internet ou o celular, mas depois vi que não era nada disso. Entrei em pânico”, diz.

Por trabalhar com artesanato, Karine utiliza das redes sociais para fazer suas vendas e com a instabilidade, várias clientes ficaram sem resposta instantânea. Mas o mais difícil foi manter-se calma diante da situação, e a ansiedade tomou conta. “Tentei me prender ao trabalho, mas a todo o momento, eu olhava para o celular para ver se tinha voltado a funcionar”. Checar as redes sociais já se tornou um hábito inconsciente e a incapacidade de deixar o celular desligado, preocupar-se constantemente com e-mails, mensagens nas redes ou ficar sem conexão com a internet, são alguns sinais de que uma  pessoa sofre de Nomofobia. Nome dado ao medo de ficar sem celular e não poder se comunicar com os outros.  

Karine utiliza as redes sociais como ferramente para ajudar no seu trabalho de vendas

A tecnologia é uma grande aliada hoje no mundo caótico, e ajuda as pessoas nos estudos e no trabalho, como no caso de Karine. Mas o dia da pane das redes mais populares, despertou a percepção de que muitas pessoas passam um tempo maior que o normal para realizarem tarefas, conferindo posts e trocando likes. “Só saio das redes sociais para dormir mesmo e olha que vou dormir bem tarde”, comenta Karine. 

Além da compreensão de que as redes sociais podem trazer problemas para a saúde mental e deixar as pessoas mais “grudadas” ao smartphone sem um motivo, passou-se a usar, por poucas horas, os esquecidos SMS e ligação por discagem. “As redes são essenciais para o meu trabalho. Mas, nesse dia, percebi que chamadas por ligação já não são mais usadas,  e precisei ligar pra minha mãe e meu marido, coisa que não fazia mais”, contou a artesã. 

Assim como Karine, a primeira reação da recém formada em Direito Alessandra Gusso, ao ver que as redes sociais não estavam funcionando, foi reiniciar a Internet. Mas ela se sentiu indiferente à situação. Uma vez que ela não tem o hábito de estar sempre ativa nas redes e também não precisa delas para trabalhar. “Quando percebi que não era esse o problema, e sim algo relacionado às próprias redes, segui minha vida normalmente, uma vez que não interfere no meu trabalho”, comenta.

Alessandra diz que seria difícil viver sem as redes sociais

Alessandra sentiu empatia por pessoas como Karine, que precisam dessa ferramenta no cotidiano e que foram afetadas pela instabilidade. Em contrapartida, ela refletiu sobre  o tempo que gastamos diariamente usando as redes sociais, “sem uma real necessidade de conferi-las a todo instante”, acrescentou. Mas ela tem a opinião de que seria difícil viver sem as redes sociais. “Muitas pessoas tiram seu sustento somente através delas, como influenciadores e  lojas online. Então, eu imagino que no mundo em que vivemos hoje seria quase impossível, nesse sentido”. 

Mesmo com a perda de uma tarde de trabalho para muitos, a psicóloga Karoline Barbisan, ressalta a sensação de alívio no nível de ansiedade relatada por muitas pessoas. Como aquele dia pôde fazer com que elas percebessem quanto tempo de vida acaba por ser desperdiçado e de que forma. “As redes sociais, além de serem locais que afetam as pessoas na questão de comparação, acabam fazendo com que o acesso a todo o mundo seja fácil. Desse modo, é comum haver pouco limite na questão de horário profissional, bem como uma necessidade de estar sempre disponível para responder a amigos e familiares”, explica a profissional.  

A pscicoterapêuta Karoline pontua a relação do que é real e o que as pessoas pensam ser real nas redes

Por facilitarem o acesso a tudo e todos, as redes sociais são capazes de afetar o cotidiano das pessoas de forma positiva ou negativa. Karoline ainda diz que esses ambientes online, são apenas um recorte da vida de cada um. Muitas vezes, por serem distantes do real, a percepção que temos da realidade acaba sendo influenciada pelo que estamos vendo.

“Se pensarmos na questão estética, por exemplo, ao entrarmos em redes onde fotografias são mais valorizadas e interagimos com pessoas de determinado padrão, acabamos colocando esse padrão como algo  a ser seguido. Infelizmente, por termos elementos culturais refletidos no comportamento das pessoas, os próprios algoritmos acabam selecionando para nós o que vemos. O que acaba facilitando uma ideia de padrão único que, quando olhado na rua, é muito diferente”. Da mesma forma, o acesso a percepções diferentes pode afetar positivamente, segundo a psicóloga. “Páginas que falem de vulnerabilidades e vida real, fazendo com que as pessoas se sintam conectadas e representadas de forma real, são ferramentas que ajudam a mostrar o que é muitas vezes maquiado”.

Para casos como o da artesã Karine, é difícil deixar de lado o smartphone para não ver notificações de clientes. Mas para casos de “apego” à telinha, o dia que marcou o ano para a tecnologia, também fez com que pessoas pudessem parar e pensar se podem estar sofrendo de Nomofobia. “É importante entender a função das redes sociais para essa pessoa. Pensando nisso, busca-se estratégias que possam substituir o uso, como buscar grupos onde a pessoa possa conhecer pessoas novas”, explica profissional.  Reuniões, programas ao vivo, grupos de leitura ou esporte,  também são um bom plano para limitar o tempo nas redes sociais. “As pessoas entram nas redes sociais por costume. Programar um tempo para deixar o celular fora de vista e inserir tarefas no local costuma ter uma boa resposta”.

Por: Eduarda Lazzari e Isamara Baumgratz